Pano para mangas (e não só)
Apesar de achar o Facebook cada vez mais cheio de gente agressiva e frequentá-lo pouco, de vez em quando compensa ir lá espreitar pois descobrem-se coisas muito curiosas nos posts de algumas pessoas. Desta vez falo da crítica e escritora (e sempre agradável, porque ama a vida!) Helena Vasconcelos, que me deu a conhecer há uns dias um divertido artigo da famosa Paris Review; uma das suas colaboradoras, Julia Brick, escreve sobre o vestuário de personagens literárias – e o que é mesmo giro é que se associa a uma ilustradora (autora, de resto, de umas quantas capas da revista New Yorker, o que já diz muito do seu trabalho) e esta desenha para ilustrar o artigo alguns modelos usados por Franny em Franny e Zooey, de J. D. Salinger. Ao vê-los, dizia Helena Vasconcelos, dá vontade de regressar à infância. E eu concordo! Oh, como me lembro das queridas bonecas de papel com o seu guarda-roupa de recortar! Quando estava com gripe, em miúda, pedia sempre que me dessem uma dessas folhas, que trazia a boneca e muitas roupas variadas ao lado, do mais desportivo ao mais chique… Nunca me passaria pela cabeça, porém, que alguém fizesse o mesmo tendo por base a criação literária, mas a verdade é que a literatura dá mesmo pano para mangas (mesmo que o pano, no caso, seja papel, e as mangas sejam apenas uma parte ínfima destas roupas). Esta seria talvez uma boa ideia para apresentar personagens literárias aos leitores mais novos e deixar-lhes o bichinho da curiosidade pelo livro de onde foram tiradas… O link vai aí para se deliciarem.
https://www.theparisreview.org/blog/2019/05/20/literary-paper-dolls-franny/

Há uma fixação doentia em coisas de mulheres. Viva o gato.
ResponderEliminarO vestuário é uma das componentes da (boa) literatura, creio que sobretudo dos clássicos.
ResponderEliminarNa descrição das personagens é fundamental descrever como e o que vestem, ou não ficamos com uma idéia completa sobre elas.
Quanto ao Facebook ele é o espelho de quem o frequenta e porquê… pela minha parte não tenho razão de queixa, porque o uso para me entreter e contactar com a minha gente, o que dado o meu afastamento é um meio importante para me manter informado e em contacto com eles. Nem por isso ando a meter o nariz nas postagens alheias ou de quem não quero, só me meto normalmente é com a nossa amiga Cristina Carvalho, e rimo-nos munto a gente os dois!
Saudações saudosa e saudáveis cá da Cidade Morena.
Delicioso!
ResponderEliminarLembro-me de ver álbuns desses na casa dos meus avós que seriam, certamente, da meninice da minha Mãe. Alguns recortei-os eu :)
ResponderEliminarQue engraçada proposta, digna de uma tertúlia criativa.
Porque todos nós que lemos temos uma ideia muito física dos personagens, sobretudo dos favoritos.
Por exemplo a Renée da " Elegância do ouriço", ( que para mim sobreviveu ),
imagino-a a sair de casa com as suas vestes anónimas, calças cinza e camisa azul escura, sapatos confortáveis mas feios, tipo todo terreno para pés cansados e um enorme saco da lavandaria num xadrez plástico com fecho.
Uns quarteirões depois entra num café dessas enormes cadeias de "franchising",
onde ninguém repara em ninguém, consome um cappuccino, porque o café puro acenta-lhe mal no estômago.
Não põem açúcar no café mas resolve-se a pôr canela, que está logo ali ao lado junto aos guardanapos. Ao beber o primeiro gole dá-se conta que não é canela mas sim noz moscada.
- Quem foi o iluminado que resolve substituir a canela por noz moscada.
Cada vez preciso mais dos óculos -pensa.
Mesmo assim saboreia-o lentamente pensando que deve ser uma nova teoria nutricional, enquanto estuda a rota para a casa de banho.
Sete goles de café mais tarde já observou o suficiente, pega no copo ainda com café e deita no lixo, mesmo por baixo da noz moscada.
Por momentos ainda pensa dar um piparote ao frasquito, mas não.
Dirige-se ao lavabo e surpreende-se com o absoluto bom gosto do papel de parede, observa também o asseio. Parecendo-lhe satisfatório poisa o enorme saco no chão, retira lá de dentro o mais espantoso casaco alguma vez tricotado por mãos humanas. Parece que está a vestir um Van-Gogh, tais são as cores.
Míriades de azuis, laranjas, pequenos traços de lilás e rosa, amarelos discretos naquela opulência de cor.
O espelho devolve-lhe o reflexo de uma mulher audaciosa, sente a coragem da Marianne envolvê-la.
Ajeita o casaco ao corpo, dobra o saco em mil e coloca-o dentro do saco de pano
da Gallimard.
A seguir dirige-se ao museu de Orsay, onde compra bilhete à maneira antiga para a exposição " La Peur d'aimer".
Desculpem o abuso, Rosário e Extraordinários, mas por vezes não resisto.
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