Esperteza saloia
Uma das vantagens de ler um jornal discreto como The Guardian é o facto de os seus jornalistas andarem sempre em cima do acontecimento. Em tempo de fake news, sinto-me confiante neste diário britânico, que foi e é bastante rigoroso. E, de resto, veio agora denunciar uma situação típica da esperteza saloia da Amazon. Ora, parece que os compradores da livraria virtual têm sido enganados constantemente com críticas a determinados livros que, efectivamente, não correspondem à edição que está à venda. Pensem por exemplo num clássico de Tolstoi ou Dostoievski. Claro que é o tipo de obra que merece habitualmente elogios, quer de académicos conceituados, quer de leitores comuns. Mas imaginem que existem edições destes clássicos que, por acaso, foram truncadas, estão mal traduzidas, mal prefaciadas, têm notas de rodapé ridículas, enfim, há muitas coisas que podem transformar uma jóia numa pedra sem valor. E colocar as boas críticas ao pé destas edições más para as despachar é, diria eu, coisa de má-fé e artimanha para despachar livros. Ainda bem que alguém viu e denunciou. Obrigada ao Guardian. Temos de estar mais atentos como compradores porque existe muita gente que nos quer ludibriar. Outra espécie de fake news, em suma.
Não espanta: o comércio é o comércio e, nos dias de hoje, a esperteza saloia vai vingando por todo o lado, até nos livros, o que não quer dizer que não seja de louvar toda a espécie de whistleblowers, desde o Guardian aos hackers, mesmo os que são perseguidos pela "justiça" do capitalismo global cujos negócios são feitos cada vez mais às escondidas através da City londrina, da dark net e de offshores.
ResponderEliminarPor enquanto também vai sendo, com o "Washington Post", a minha referência matinal.
ResponderEliminarE por cá não se passa o mesmo? Telhados de vidro?
ResponderEliminarBom dia com alegria, apesar da chuva
ResponderEliminarTambém gosto do Guardian.
O que me aborrece na imprensa não impressa é a profusão de notícias, o click bait, as chamas de atenção constante.
Isso e editarem-se 15 mil livros em Portugal por ano. Apesar de só 150 desses me interessarem, fico sempre com uma sensação de perda irreparável, descontando as edições em inglês e francês.
Somos seres finitos. Nunca os vou poder ler todos.
Boas leituras
cp
Ó extraordinário cp, olha que esta do click bait é que nunca me tinha lembrado...tá boa sim senhor...
EliminarGood readings
s
Tenho visto muita sinopse, quer em "sítios" de venda de livros, ou mesmo lido na banda ou contracapa de livros editados, muita sinopse que não corresponde ao romance, um mau trabalho de interpretação e síntese. Não sei quem é o responsável por essa parte da edição ou da parte comercial, mas é recorrente e considero um péssimo serviço que dá imagem negativa à Casa Editora.
ResponderEliminarO que não me espanta, pois vejo muito colega meu, mais jovens, que não são capazes de interpretar textos e muito menos ainda sintetizá-los, por exemplo em relatórios. A técnica é copiar partes do texto e colar, compondo assim um texto remendado e paupérrimo, sem nexo!
Creio que tem a ver com a escola, "no meu tempo" (odeio esta frase!), no liceu, fazíamos nas disciplinas de português, inglês e francês, muitos exercícios de interpretação de texto e de síntese. Hoje não sei se ainda se dá tanta relevância a esse assunto… mas suponho que não, talvez por razões de facilidade.
No curso de ciências agrárias, havia entre as cadeiras transversais a todos os ramos, uma de "Estilística Prática", cujo professor era o Dr. Sousa e Costa. Uma seca para muitos, mas muitíssimo útil! Faz muita falta em todos os cursos, diria eu.
Ainda a propósito de sinopses e de sínteses, lembro aquela que era a minha secção favorita nas Selecções do Reader's Digest: A secção de livros. No final, um artigo de fundo onde se resumia (e muito bem!) um livro. Tenho até alguns volumes editados pelas SRD com essas sínteses de romances. Utilíssimo para estudantes, gente com pressa ou que não queira ler muito.
Saudações prolixas cá da Cidade Ainda sem Luz!
Caro Pacheco
EliminarEram os designados Livros Condensados. Tenho alguns, principalmente para leitura de férias, na praia ou no campo; todavia, sem a "matéria" que o autor propôs levar no seu todo à obra original. Um volume dos "condensados" engloba quatro obras, quando qualquer das originais, individualmente, precisaria de outras tantas ou mais.
Há, no entanto, um trabalho de grande poder de escolha e crivo nos textos originais, o qual corresponde ao tal poder de síntese (chamemos-lhe assim) que refere. Mas, aqui, não se engana ninguém - são condensados, ponto final.
Um dos exercícios mais difíceis em jornalismo e literatura é "amputar" um texto de, por exemplo, duas folhas A4 para uma só. Nos meus trabalhos publicados em revistas, preocupava-me em "espremer" de forma a não maçar, exercício doloroso se o texto já estivesse todo escrito. O mesmo não me acontece quando, pelo contrário, me pedem para ampliar um texto de uma página A4 para três ou mais.
Parece-me que, no caso em apreço no post, há vários aleijões que transformam a obra sã e escorreita em paralítica, como sejam as "truncagens" à toa, quando nem sequer deviam existir, as traduções feitas sem cuidado, as tais notas de rodapé que deviam sair dali a pontapé.
A "Amazon", neste âmbito, presta então um mau serviço à literatura e prova que não sabe montar em toda a sela. É coisa de hereges literários e dos mata-sete.
Sob alguns efeitos do cloreto de sódio (soro fisiológico), deixei uma frase incompleta, pelo que o verdadeiro sentido será transcrever assim:
Eliminar"Um volume dos "condensados" engloba quatro obras, quando qualquer das originais, individualmente, precisaria de outras tantas ou mais páginas".
O que não me espanta, pois vejo muito colega meu, mais jovens, que não são capazes de interpretar textos e muito menos ainda sintetizá-los, por exemplo em relatórios.
EliminarÓ Paxeco se fossem redigidos em inglês talvez soubessem, agora em Português é que, porventura, será certamente mais difícil...
Ó Paxeco, não sei se já reparaste que já não há "Alain Delons"...
Não podia estar mais de acordo com os elogios ao The Guardian. É impressionante como as grandes multinacionais enganam os utilizadores, e agradeço o facto de ter chamado à atenção para mais este método. Felizmente há já alguns anos que deixei de usar os serviços da Amazon por 1001 razões (ver algumas em https://stallman.org/amazon.html). Existem, na realidade, muitas razões para evitarmos os serviços da Amazon, da Google/Alphabet, do Facebook, do Netflix, etc.
ResponderEliminarFalando na Amazon, a dita é dona do site goodreads e quantas mais opiniões boas um livro tiver, mais o preço inflacciona na Amazon.
ResponderEliminarBonito, não é?
discreto porquê? porque não é o correio da manhã?
ResponderEliminare sim, obrigado aos restinhos de jornalismo que vai restando
Na Amazon só costumo comprar ebooks que não existam em Português e ficção de obras canadianas recentes que ainda não chegaram a Portugal ou nunca chegarão que me interessam por ter nascido na Canada.
ResponderEliminarNão gosto de obras sem o texto integral e no nosso Portugal o que me tem surpreendido são algumas traduções tão más para a linda língua de Camões postas a correr em paralelo com boas traduções e quem não sabe também pode comprar mau por bom e como nos defendemos disto?
Desculpe não gosto de falar como anónimo, e como não uso a conta sapo por vezes os meus comentários saem assim O nascido Canada que fez a pergunta sobre como defender de más traduções tem perfil http://geocrusoe.blogspot.com/ e chama-se Carlos Faria.
ResponderEliminarDa esperteza... farinha pouca, meu pirão primeiro.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi