Obrigado a ler

A cultura francesa sempre foi um exemplo para muitos países, e várias gerações de portugueses foram, durante a ditadura, formadas pelo ensaio e a ficção vindos de França, quer de autores francófonos, quer em tradução. Mas também por lá os índices de leitura têm vindo a baixar com o visionamento apelativo das séries em streaming e o recurso constante ao smartphone. Leio, porém, no L’Humanité uma notícia sobre uma medida tomada por uma escola de Paris, com o apoio da associação Silence, on lit!, que parece boa para combater o problema. Depois do toque do fim do recreio da hora de almoço, exactamente às 13h25, estejam em que lugar estiverem dentro da escola, todos têm de pegar num livro e ler durante um quarto de hora (e atenção: até podem já estar sentados na sala de aula!). E não são apenas os alunos que têm esta obrigação, mas todo o pessoal da escola, incluindo auxiliares e professores. A escolha do livro é à vontade do freguês: aconselha-se o aluno a continuar o livro que já começou, mas não há restrições a temas, géneros ou autores, e isso torna o momento especial, porque é leitura obrigatória sem livro obrigatório. Os miúdos contam que antes não liam muito mas que, depois de aquele momento se tornar um ritual, começaram a gostar, sobretudo porque os relaxava a seguir à refeição e criava motivos de conversa com os colegas e posteriores trocas de livros. Muitos deles passaram então a comprar mais livros e ir à biblioteca com mais regularidade. Não seria de aplicar isto por cá?

Comentários

  1. António Luiz Pacheco9 de abril de 2019 às 01:49

    Não sei o que pensar dessa medida, que parece ser positiva, mas… sendo uma imposição pode ser contraproducente, segundo os cânones da juventude actual que não pode ser obrigada a nada (sendo embora manipulada e conduzida a tudo, inconscientemente…) e para quem tudo o que não seja do seu imediato agrado é traumatizante e os deprime!
    O esforço (salvo no ginásio!) está proibido pela sociedade que se desenvolve na facilidade e comodidade. Há que ter isso em conta…

    Porém, em minha opinião, nada é mais estimulante do que o debate acerca de um livro ou filme (não esquecer que muitos livros dão filmes, estes sendo mais populares), e levar à leitura através dessa via, a do debate das ideias, da acção, do livro que deu um filme ou porque se leu por causa do filme.
    Pode ser esse deveras o caminho para se chegar à leitura! E faço notar que parece estra previsto haver esse debate.

    Saudações esforçadas, suadas e incomodadas cá da Cidade Morena e de uma terra onde nada é oferecido!

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  2. Bom dia com alegria

    Concordo com as palavras do Extraordinário Pacheco, no sentido em que os jovens (e os adultos) fogem das obrigações quando podem.

    No entanto, se não houver alguém a instigar, a fomentar, a promover, a espoletar, nada feito.

    Eu próprio, na minha ingenuidade, já escrevi para os grupos parlamentares a pedir uns benefícios fiscais para quem comprovadamente faça desporto. Á partida serão cidadãos que irão pesar menos no SNS, pelo menos o racional era esse.

    Em resumo, concordo em abstracto com o post de MRP. No concreto, há que escolher bem as cenouras a dar aos jumentos, salvo seja.

    Boas leituras
    CP

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  3. Não só parece boa ideia, como até julgo que por cá já se fez coisa do género. Há poucos anos (menos de 5) as minhas filhas tiveram um programa na escola que era o “para e lê”. Julgo que decorreu durante uma semana e depois repetiu no ano seguinte, a uma determinada hora do dia (julgo que não regular, o que dava um toque de jogo) havia um toque especial ao qual os alunos deveriam iniciar a leitura de um livro á sua escolha até novo toque que terminava o período de leitura. Pelo menos as minhas filhas pareceram moderadamente interessadas. O que o António Pacheco lembra, a componente de os por a debater ou falar do que estão a ler, o que escolheram e porquê, seria excelente, pois dava-lhes a outra componente da literatura, socializante, talvez a melhor maneira de ainda cativar os jovens, pois as descobertas e caminhos literários só poderão vir mais tarde.
    Bom dia
    Miguel Henriques

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    1. o evento chamava-se "pára e lê"
      devem ter percebido ...

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    2. Percebe-se perfeitamente. O novo AO estipula que não se acentue a 2.ª pessoa do singular do imperativo do verbo parar. Segundo ele, escreve-se mesmo "para" e distingue-se da preposição "para" pelo contexto.

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  4. Tão boa a ideia... aplicar cá e partilhar com os pais para fazerem em casa também!!

    https://titicadeia.blogspot.com/

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  5. A primeira coisa que me apetece dizer é «acho que não».

    Cheira-me mais a "folclore" que a gosto pelos livros.

    Há ainda outra coisa, os franceses são ligeiramente diferentes dos portugueses, até porque nunca tiveram as nossas taxas de analfabetismo e de iliteracia...

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  6. Julgo transparecer claramente a ideologia subjacente à notícia veiculada pelo L'Humanité. Temo até que, na escola em que tal medida foi implementada, as criancinhas e restante pessoal da escola, passem a associar leitura com trabalhos forçados, leitura como castigo.

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  7. Por cá já se faz isto, só não sei em que escola ou escolas, e os adolescentes gostam. Deu na televisão uma notícia sobre isso. E não é contraproducente.
    Cândida

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  8. Estou céptico, acho que por cá a coisa não pega, somos diferentes para pior no que respeita a ler e ileteracia. Talvez se encontre ou se invente outra medida que leve sobretudo a juventude a ler, a partir da primária e abandone um pouco as novas tecnologias. Haja esperança.

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  9. António Luiz Pacheco9 de abril de 2019 às 03:35

    Uma partilha de experiência que resultou, num já longínquo ano de 1982 ou por aí, numa escola secundária em Montemor-o-Novo.
    Tinha 2 turmas de 10º ano de Saúde. Era malta razoavelmente interessada e combinado com o delegado de grupo, fizemos o seguinte: a rapaziada/raparigada (ai o género!) durante a semana ia procurar nos jornais e tv ou onde fosse (na época nem net nem nada parecido e o computador da universidade de Évora era do tamanho de um gerador Perkins de 40 KVA) temas relacionados com saúde, alimentação etc. que seriam debatidos na última aula da semana.
    Foi um sucesso! Apareciam sobretudo com artigos de revistas ou jornais que se habituaram a ir ler e procurar! E, preparavam-se para o debate!

    Creio que o caminho seja esse, pôr a malta a debater, até porque com a moderação do professor se evita que em vez de opiniões troquem insultos, que se habituem a esgrimir argumentos, ao contraditório, em suma que o debate seja amplamente pedagógico!

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  10. Obrigado a Ler? Ó manos tnham pena de mim não me obriguem a isso (tás a ver a cena ó meu, dava em doido se fôçe obrigado a ler um livro sem bonecs, -obrigado a ler?-).
    Então não tenho a internet qué bué de fixe. Estes gajos tã fora de prz, não é mano...

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    1. Pôr um energúmeno como o caricaturado (e cada vez há mais, muitos mais!...) a ler com interesse e gosto um bom livro (sem bonecos...), afigura-se-me do domínio do milagre! Afinal de contas já temos textos de leitura obrigatória na escola e o resultado não parece famoso... como se pode provar pela "figura junta". Sinal dos tempos.

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    2. Mas na escola, os livros de leitura obrigatória são objeto de análise, o que estraga o prazer da leitura para alguns alunos! Neste caso, os alunos leem, mas depois não vão ter de analisar o livro. Esta é a chamada leitura autónoma e, não, obrigatória.

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  11. Podia utilizar-ser o telemóvel para colocar em todos, num certo momento, um segmento da obra em abordagem. Uma vez terminado seguia uma pergunta sobre o segmento anterior. Isto podia constituir um jogo interminável.

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    1. Discordo dessa escolarização da leitura. Fazer-se na escola é salutar e, parece, cria o hábito; desviar a leitura como tempo livre e de prazer para finalidade que lhe é exterior....Uma pergunta?!....

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  12. Em um dos estabelecimentos de ensino por que passei, situado perto da Serra da Estrela, a madre (freira) que geria um colégio obrigava os alunos, depois das aulas da manhã, a ouvirem a leitura da vida de Bernadette Soubirous (ligada à gruta de Lourdes e à basílica), a que se seguia a reza do terço.
    Imaginem o desconforto da rapaziada (os dois géneros, entenda-se)! No que me toca, suponho que a dose foi um pouco - ou em demasia - exagerada (estava no 2º ano ou 6º, se contar pelo que hoje soma), tanto pela leitura como pela reza. Àquela hora certa, antes da refeição (eu era aluno externo) lá vinha a bandeja com os dois "pratos", cujos não galvanizavam a urbe escolar.
    Com isto quero dizer que a leitura e a obrigação de ler ou de ouvir ler, deve ser facultativa, segundo o livre arbítrio de cada qual, para que não aconteça em futuros o que me aconteceu: leio muito, mas não consigo aturar a leitura por boca alheia. Quanto a rezar, nem vale a pena dizer que caprichei pela omissão.

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  13. Se a medida os puser a ler....é começar com urgência que ler é preciso

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  14. Boa tarde. Formidável o esforço, franceses em se lhe fazerem presente sob aspeto literário. Belgas, austríacos, luxemburgueses, suíços e portugueses entre tantos, lêem em francês. Deste lado do Atlântico, França ostenta a língua (empenhada) o esforço, naturalmente dramatico. Bom.

    Cláudia da Silva Tomazi

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  15. Tem piada!... O meu filho frequenta a 'classe préparatoire' (1a classe) no sul de França. Para o terceiro período disseram-lhes para trazer de casa um livro à escolha para ler durante o 'Chut, on lit !'. O contacto com os livros começou logo na pré-primária, todas as semanas traziam para casa um livrinho da biblioteca da escola.

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    1. para ser rigoroso deveria ter escrito 'cours préparatoire' (1o ano de escolaridade).

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