Literatura e empatia
Leio um artigo maravilhoso do grande Alberto Manguel sobre a capacidade que a literatura tem de nos tornar pessoas melhores. Diz ele que um dos seus livros de infância foi o romance Coração, de Edmundo de Amicis (que curiosamente o Manel também refere sempre como um dos que mais o terão marcado em jovem), hoje praticamente esquecido. É a história de um rapaz genovês que sai de casa para ir à procura da mãe, que trabalha na Argentina, e Manguel conta que chorou pela dor do rapaz e se perguntou se seria capaz de fazer o mesmo. E que, daí em diante, muitas das personagens dos romances – Jane Eyre, Anna Karénina, Robinson Crusoe, Dom Quixote – o ensinaram a pôr-se na pele do outro e a perceber o que era realmente o sofrimento e a alegria alheios. Diz que a literatura, não tendo aparentemente utilidade, tem-na, justamente por nos tornar muito mais atentos para o outro, disponíveis para escutar as suas angústias, nomear as nossas e partilhar problemas quotidianos. E conclui que isso é mais importante hoje do que no passado, pois muitas lutas têm hoje de se fazer de forma colectiva e solidária (em relação às crises migratórias, por exemplo). Depois apresenta números de um estudo universitário sobre a relação entre a leitura literária e a empatia. E ela existe, claro: quem lê literatura é de longe mais empático. Se ensina crianças e jovens, pense nisto.
A pedido de várias famílias, junto os links pedidos:
https://www.nytimes.com/es/2019/03/03/literatura-empatia/
http://science.sciencemag.org/content/342/6156/377.abstract?sid=f192d0cc-1443-4bf1-a043-61410da39519
Bom dia! Poderia partilhar os links para o artigo e para o estudo universitário? Obrigada 🙂
ResponderEliminarJá pus acima.
EliminarMuito obrigada!
EliminarAos interessados na empatia e na importância da leitura, recomendo ainda a autora Maryanne Wolf e o livro dela que li recentemente, "Reader, Come Home".
Peço-lhe o mesmo que a Beatriz! É do maior interesse, creio que para todos nós amantes dos livros e da leitura.
ResponderEliminarCoração, entre outros livros que são citados, foram fundamentais para a formação de gerações de jovens, diria eu… para não falar dos livros da Odete de Saint-Maurice... Um rapaz às direitas, Quinta de São Boaventura, Férias grandes… e claro a Condessa de Ségur, fora os incontornáveis Verne, Salgari, Karl May, e outros Grandes Autores de histórias imorredoiras, cujos personagens eram vulgarmente homens (e mulheres) de carácter, com uma óbvia componente na formação pelo exemplo que davam.
Hoje farão troça… mas continua a ser verdade que a leitura ajuda a formar a juventude, e, não só, pois tendo nós a capacidade de nos emocionarmos com essa leitura muitas vezes mudamos de opinião, até atitude, a nossa compreensão aumenta e se alargam os nossos horizontes pessoais e humanos. Nunca vos aconteceu isso?
A leitura do nosso Extraordinário "Pão de açúcar", em minha opinião entra nessa categoria e é um exemplo actual e fresquíssimo dessa teoria.
Saudações humanas e pedagógicas cá da Cidade Morena!
«(...) a capacidade que a literatura tem de nos tornar pessoas melhores.»? Está na hora de fazer psicoterapia, MRP.
ResponderEliminarBom dia. Engraçado, Marco Polo fez o caminho contrário e lá, China. Deixo a paixão pela história levar-me e, há recônditos encantos. Vale quando a paz se lhe sensata, for.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Claro que tem essa capacidade, mesmo sem nos apercebermos.
ResponderEliminarDesperta-nos para uma série de realidades, que por vezes estão distantes do nosso mundo. Isso aconteceu-me, especialmente na adolescência.
Esse livro, que havia lá em casa e que li ainda em criança, também me fez chorar.
ResponderEliminarMas o livro que me marcou mais foi o David Copperfield. Juntei dinheiro da mesada para o comprar (foi o primeiro livro que comprei - das muitas centenas que se lhe seguiriam) e li-o nem sei quantas vezes em miúda.
Já o Oliver Twist, que só li em adulta, não teve o mesmo impacto.
Há coisas que não se explicam, sentem-se.
Estou-me a lembrar de outro livro óptimo para abrir a torneirinha das lágrimas: O meu Pé de Laranja Lima.
Reli-o não há muito tempo e voltou a emocionar-me.
⚘
Maria
Ainda faltou dizer que gosto imenso do Alberto Manguel, que teve o privilégio de ler para o grande Jorge Luis Borges.
Eliminar⚘
Maria
Chorei tanto, mas tanto, com o "Meu Pé de Laranja Lima" na pré-adolescência! Com o livro e com o filme de 1970. Nunca mais vi o filme, teria hoje o mesmo impacto? Só tornando a ver...
EliminarBeijinho, Maria.
Também eu chorei tanto ao lê-lo! Trouxe-o emprestado da biblioteca da escola, e gostei tanto que não o consegui devolver. Apesar de ter deixado o nome, nunca mo pediram de volta e tenho-o até hoje em casa, com a fita de catalogação da biblioteca e o carimbo do liceu francês. É a minha recordação daquela grande escola (pensei muitas vezes em ir devolvê-lo, mesmo já adulta, nunca tinha ficado com nada “emprestadado” nem voltei a fazer o mesmo, mas estranhamente, nunca consegui separar-me dele). Foi talvez a minha primeira grande tristeza literária, comoveu-me imenso e fez-me começar a pensar sobre a Vida, que não imaginava, na altura, poder ser tão dura, tão injusta, tão triste. Tenho ideia que a minha mãe, quando me viu a lê-lo, ainda tentou argumentar que não seria para a minha idade, mas já foi tarde...
Eliminar(refiro-me a O Meu Pé de Laranja Lima, claro).
EliminarEra eu ainda muito jovem, esperava a carrinha da Gulbenkian, onde um senhor que tinha o dobro da minha altura (pudera, era adulto!), me indicava qual ou quais os livros que eu "devia" ler. Como sempre fui do contra e a pensar e decidir por mim, dava-lhe a volta e lá o convencia . Só não o convenci quando eu queria trazer o "Náusea" do Sartre e ele fez finca-pé. Certa vez, teimei trazer o Stefan Zweig, "Um Coração Destroçado", julgo que traduzido por Alice Ogando. Marcou-me! Tenho na lembrança cair em choro durante alguns trechos da leitura...
ResponderEliminarOutro livro que me marcou foi o "Adeus às Armas" de Hemingway e um "Robinson Crusoé", este último que a minha mãe me comprou como prenda, coisa rara.
A leitura deixa marcas; as minha foram no sentido de me tornarem melhor, não só por sentimentos avivados como por me transformarem como homem em crescimento, para além de me instruírem sobre a forma e o cuidado, pois pretendia imitar (de longe) os grandes escritores.
Aos quatro anos já lia - frequentei uma escola caseira gerida por uma professora aposentada, em Alverca do Ribatejo. Quando entrei na escola oficial, a professora servia-me como exemplo aos mais relapsos e atrasados no programa, o que hoje vejo como negativo em relação aos ditos (eu já ia industriado pela tarimba precoce, não vejo isso como equidade e comparação).
Ler é uma droga que se toma em doses. Ler é uma droga boa, para mim necessária tanto quanto o é escrever e desenhar, conviver, sonhar. Uma droga, sim, que não me destrói, mais me anima e me mantém activo. Ler faz parte do meu dia a dia, nas horas ordinárias e nas horas extraordinárias; e hoje, mais maduro, nem distingo umas das outras.
Adenda ao comentário...
EliminarAchei tão interessante este post, que levei o meu comentário ao meu mais recente blogue. Deixei aí o link para o "Horas Extraordinárias", colmatando assim a falta em não reproduzir o texto da MRP, uma vez que não lhe pedi autorização.
Obrigado, Rosário.
Concordo plenamente! Da minha infância carrego ainda na alma " A Fada Oriana" , para o meu quotidiano, servindo e colocando no lugar dos outros sempre que possível e mereçam;
ResponderEliminarCoração também a mim me marcou quando andava na escola primária. Narra a vida de uma turma da Escola Pública. Foi o único livro que até hoje me fez chorar.Foi adoptado em Itália como livro de leitura durante muitos anos.
ResponderEliminarIsso, para mim, é a história de "Marco", uns desenhos animados com essa história muito triste, que eu via na minha infância (e chorava que me fartava)...
ResponderEliminarTambém me lembrei do "Marco"
EliminarPor acaso, só vi o primeiro episódio. Veio depois da "Heidi" (igualmente em desenhos animados) e eu tinha ficado tão obcecada com esta figura, que, assim, logo a seguir, não havia mais nada nem ninguém que me entusiasmasse.
(nota: tinha 10/11 anos)
Também me lembrei logo do "Marco", que me fazia chorar imenso. Deve ser a mesma história. Marcou-me de tal forma, tão miúda que era, que ainda hoje sei de cor a música do genérico: "É num porto / italiano / mesmo ao pé das montanhas / que vive o nosso amigo Marco / numa humilde casinha…." Alias, muita gente da minha geração ainda sabe essa música de cor.
EliminarO livro que mais me marcou foi "Crime e Castigo", de Dostoievsky, em jovem mas já não criança. Mais do que a personagem Raskolnikov espantou-me que pudesse haver alguém que escrevesse aquilo e daquela maneira.
ResponderEliminarSuponho que "Coração" existia na minha escola primária por qualquer razão, dentro da lareira que nunca nos aqueceu de mistura com as revistas Fagulha que passei a pente fino enquanto a minha professora ficava horas esquecidas a namorar ao telefone. Era um livro muito velho e já sem capa, mas adorei lê-lo. Lembro-me que um garoto da turma morreu e de gostar imenso daquele professor e de alguns garotos; fartava-me de pensar o que quereria dizer genovês e mais uns nomes que não entendia. Mas ninguém sabia e portanto fui lendo.
ResponderEliminarAcredito que a leitura torne as pessoas mais abertas, não sei se melhores. Lembro-me de ter visto na TV Duarte Lima a falar do que lia e dos seus poetas preferidos. E quê....
Concordo consigo, Bea: a literatura não faz necessariamente as pessoas melhores. No geral, sim, mas há exceções. Pessoas que têm muita dificuldade em serem objetivas só leem mesmo aquilo que querem de um livro, ou seja, mesmo que o conteúdo do livro vá contra as suas convicções, elas adaptam-no à sua maneira de ser, à sua visão do mundo, aos seus esquemas cerebrais. Não sei se me fiz entender, mas isto é um assunto muito complicado.
EliminarNota: nenhum de nós é 100% objetivo, mas muitos tentam sê-lo o mais possível (pelo menos, em determinadas situações) ao passo que alguns nunca o tentam nem estão interessados.
O seu comentário ao meu comentário parece-me um pouco marginal.
EliminarSuponho que quem lê um livro não tem de ser objectivo na leitura, salvo se vai fazer um exame sobre ele:).
"Marginal", Bea?
EliminarOK, se acha...
Mas já é a 2ª vez que eu concordo com um comentário seu e a Bea discorda. Um pouco contraditório, ou, pelo menos, confuso.
Bom fim-de-semana!
Maria
EliminarQuase me sinto culpada:). Pois não me lembro de uma primeira vez de discordância, mas acredito que tenha acontecido, o meu pendor parece ser esse, discordar. E por vezes sem razão, como depois reconheço.
De acordo com o seu princípio, os subjectivos estarão sempre a ler-se a si mesmos, não ampliam o seu esquema mental, o livro é-lhes, digamos, um pretexto. Os outros, os que procuram ser objectivos - a objectividade possível, claro -, conseguem ler o objecto, interessam-se por ele, querem mesmo conhecê-lo. Visto do lado do objecto, o livro, esses são os que o respeitam e valorizam, os verdadeiros leitores.
Uns de nós estão mais de um lado. Outros, do outro. E depois?
Concordo, a objectividade é necessária em algumas situações. Mesmo quando a um lado não interessa que exista. E, portanto, tem de existir. Por haver sempre dois lados. Pelo menos. Ok.
É isso mesmo, Bea, muito bem explicado! Afinal, estamos em sintonia
Eliminar«Uns de nós estão mais de um lado. Outros, do outro. E depois?» - e depois é por isso mesmo que a literatura não faz necessariamente as pessoas melhores, ou seja, as pessoas que «não ampliam o seu esquema mental». No ponto!
Peço desculpa, troquei-lhe o nome, Cristina. Pronto, corrigi.
EliminarE tenha um bom fim de semana