Feminino plural

Alguém, acho que no Facebook, partilhou um texto muito interessante de uma escritora norte-americana chamada Grace Paley (confesso que nunca a li, mas fiquei com vontade). Dizia assim: «As mulheres escrevem de uma maneira diferente da dos homens. As mulheres sentem-se confortáveis falando do que é pessoal, ao contrário dos homens. As mulheres sempre compraram livros escritos por homens, sabendo que não eram livros sobre elas. Mas continuaram a fazê-lo com grande interesse, porque era como ler sobre um país estrangeiro. Os homens nunca devolveram essa gentileza.» A revista que citava a escritora Paley, uma publicação espanhola com edição  brasileira (seria o El País?), sugeria então livros escritos por mulheres que os homens deveriam ler. E, juntando alguns desses a outros de que me fui lembrando, forneço aqui mais de uma dúzia de títulos de ficção escrita por mulheres que porão certamente os homens a pensar (mas que todos devemos ler, independentemente do sexo). Eles aí vão:


 



  1. O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy

  2. Rebecca, Daphne du Maurier

  3. A Balada do Café Triste, Carson McCullers

  4. Cisnes Selvagens, Jung Chang

  5. Persépolis, de Marjane Satrapi

  6. Jane Eyre, de Charlotte Brontë

  7. Lila, de Marilynne Robinson

  8. Manual para Mulheres de Limpeza, Lucia Berlin

  9. A História de Uma Serva, de Margaret Atwood

  10. A Hora da Estrela, de Clarice Lispector

  11. Diários, Anaïs Nin

  12. Orlando, Virginia Woolf

  13. Bonjour Tristesse, Françoise Sagan

  14. A Campânula de Vidro, de Silvia Plath

  15. Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, Flannery O’Connor

Comentários

  1. JÁ li alguns e recomento; Boas sugestões

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  2. Desses 15 apenas não li 3.
    A essa lista acrescentaria Orgulho e Preconceito, da Jane Austen, O Monte dos Vendavais, da Emily Brontë e o África Minha, da Karen Blixen - mas há mais, muitos mais.
    Essa de ser como "ler sobre um país estrangeiro" está muito bem apanhada, e acho que tem muito de verdade.

    Maria

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    1. Por acaso não concordo. Não sinto as mulheres relatadas por homens como "país estrangeiro" em relação ao que delas e de mim conheço, sinto-as incompletas, isso sim. Mas se eu escrevesse sobre homens eles pensariam provavelmente o mesmo. Eu é que , de certeza me sentia em terreno minado, estrangeira.

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  3. De Grace Paley publicou em tempos a Relógio d'água "Pequenas contrariedades da existência", livro há muito esgotado, ao que suponho, e de que li referências muito elogiosas.

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    1. Comprei-o na ultima Feira do Livro de Lisboa.

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  4. Eu acrescentaria qualquer livro da Alice Munro, "Tanta gente, Mariana" da Maria Judite de Carvalho e "Assembleia de mulheres" da Natália Nunes.

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    1. Realço: qualquer livro de Alice Munro! (Obrigada pela lembrança).
      Uma escritora fantástica, que continua um pouco esquecida, apesar de ter ganho o Nobel.

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  5. Bom dia. Na Grécia a invenção da Epístola é atribuída a uma mulher nascida em East, chamava-se Atossa. Segundo o livro The History women's writing in Italy, Letizzia Panizz e Sharon Wood.
    Cláudia da Silva Tomazi

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  6. António Luiz Pacheco20 de março de 2019 às 04:47

    "As mulheres escrevem de uma maneira diferente da dos homens."
    Sim, claro e evidente. Apesar de tudo e ser moda o contrário, as mulheres continuam a ser mulheres e os homens a ser homens!
    Falta dizer que há escritores homossexuais, portanto esses escrevem como o quê?

    As mulheres sentem-se confortáveis falando do que é pessoal, ao contrário dos homens.
    Não concordo mesmo nada!

    As mulheres sempre compraram livros escritos por homens, sabendo que não eram livros sobre elas.
    Bom, e os homens também, mesmo quando são mulheres a escrever como se fossem homens… tenho muitos livros escritos por mulheres, mesmo sabendo que não sejam sobre homens, não vejo onde quer chegar!

    Mas continuaram a fazê-lo com grande interesse, porque era como ler sobre um país estrangeiro. Os homens nunca devolveram essa gentileza.
    Não percebo… qual gentileza? Os homens compram livros escritos por mulheres!


    Vejamos, não concordo nada e nem acho nada interessante esta análise, acho apenas que é a visão feminista exacerbada da sua autora, porque está na moda e fica bem dizer este tipo de coisas, que de resto é uma opinião mesquinha e redutora, como seria eu não ter lido (e gostado) d' A Saga de Selma Lageroff , por ter sido escrita por uma Mulher e nem por isso especificamente para homens, mulheres ou homossexuais, mas sim para pessoas que gostam de ler em geral, e, se interessam por temas biográficos de grandes e notáveis seres humanos.
    Não estou a ver o que é que a literatura, que é muito mais do que ser escrita por e para homens ou mulheres, tem a ver com isso e nem o que tenha a ganhar com mais uma tentativa de fracturar.

    Saudações assexuadamente literárias, cá da Cidade Morena.

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    1. Grace Paley morreu em 2007, só para saber que não é por moda que escreveu o que escreveu. (Não precisa de responder a este comentário.)

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    2. António Luiz Pacheco20 de março de 2019 às 05:53

      Normalmente não respondo a anónimos, mas porque me parece que não há grande motivo para discussão, se bem que a sua observação me pareça algo suspeita, sempre contraponho que em 2007 o feminismo já existia e era moda sim, continuou e fez escola, agudizando-se para atingir na actualidade níveis que estão já para lá do bom senso. Porque, para mim, achar que os homens não lêem o que as mulheres escrevem, é pura falta de senso, seja em 2007 como em 2019.

      Saudações sensatas (gostaria eu…) cá da Cidade Morena.


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    3. Ó Pacheco, pela forma como escreveu e o enfrentou, o Anónimo é uma Anónima, presumo eu. Já a Grace, que faleceu em 2007, era uma poetisa, cujos versos de sátira e humor mais me parecem ser de punho masculino (e não é por ela ter usado capelo "à rapaz".
      Anónimo é masculino, mas possui derivação de género, pelo que eu - volto à carga -presumo ser feminino, porque lá diz o ditado brasileiro: mulher, cachaça e bolacha, em toda a parte se acha.
      Confesso que aprecio a literatura elaborada e escrita por mulheres, não podendo assegurar que elas tenham o mesmo conceito a meu respeito: dos dois únicos romances policiais que escrevi, a "culpada" é uma mulher. Se não é por seguir a máxima da Sureté francesa de "chercher la femme", hei-de escrever um em que o "criminoso" seja um homem, talvez um que seja escritor da minha índole.

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    4. António Luiz Pacheco20 de março de 2019 às 06:16

      Caríssimo, eu sei quem foi Grace Paley (que se notabilizou também por ser uma pacifista).
      Não sou sexista no opinar… embora haja opiniões de homem e opiniões de mulher, pois claro! Eheheheh!
      É claro que qualquer de nós, amantes da leitura e gente esclarecida, tanto lê e aprecia escrita de homens como de mulheres, daí a minha total discordância com a opinião da citada Grace, o que não lhe tira nenhum valor a ela, nem como mulher nem como escritora.

      Abraço cá destas bandas!

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    5. António Luiz Pacheco20 de março de 2019 às 08:35

      AHAHAHAH! Caríssima não-anónima, casa de ferreiro, espeto de pau!

      Repare, (isto para ficarmos esclarecidos) eu não me expressei bem, portanto devo ter-lhe dado a impressão que não sabia quem fosse Grace P. , na verdade não sabia a data do seu falecimento, mas tinha idéia que não fosse escrito agora. Porém, o que eu pretendi foi mesmo criticar esse detalhe de extremismo feminista, pretendendo que os homens não lêem escritos de mulheres, e, quando disse que está na moda (e está), não fui devidamente entendido, dando a parecer que o texto fosse actual.

      Já agora, confesso que suspeitei erradamente fosse outro o seu propósito quando anonimamente me contrapôs a data de 2007. Se a tivesse identificado, não teria suspeição alguma… creio não ter sido ofensivo , mas se o fui ficam aqui as minhas sinceras e pouco humildes (sou assim mesmo) desculpas, mas é por serem menos humildes que são mais sinceras!.

      Ainda bem que se desfez o quid pro quo, reafirmando o quanto é interessante e agradável conversar aqui, sobre estes assuntos, quando o podemos fazer com quem não tenha susceptibilidade extremada e sinta ofendido ou melindrado por termos outra opinião e a manifestarmos. Qualidade aliás pela qual a cumprimento ainda!

      Saudações Extraordinárias cá da Cidade Morena!

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    6. Não só Grace Paley morreu em 2007 como a "citação", que não foi escrita mas sim dita (ou mais ou menos dita) em entrevista à revista Salon, data de Novembro de 1998.
      (Respondendo à questão "Do women write different kinds of stories than men?", Grace Paley disse: "There's a lot more domestic conversation, if you want to call it that -- or personal. Women are -- most women are easier about being personal with one another than most men. They tell each other more, and they have a lot of common problems. One of the things is -- I've never really said this -- but one of the things that has interested me is that women have bought books by men since forever, and they began to realize that it was not about them, right? But they continue, with great interest, because it's like reading about another country. Now, men have never returned the courtesy.")

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    7. António Luiz Pacheco20 de março de 2019 às 12:53

      Vejamos, lido assim, neste outro contexto… faz outro sentido, parece-me.
      As mulheres são mais abertas a falar delas mesmas umas com as outras… pode muito bem ser, conheço-as o suficiente para saber até quantas vezes se arrependem disso! É significativamente diferente de dizer que as mulheres se sentem confortáveis a falar de si próprias - e posso acrescentar, sempre na minha (pouco modesta, assumo) opinião, que os homens não se sentem nem mais nem menos confortáveis do que elas, mas mentem mais quando falam de si mesmos. Creio que todos concordarão comigo.

      No tocante à retribuição da cortesia (porquê cortesia?) à partida, não me parece que concorde, se bem que lendo neste outro contexto, se torne bastante vago aquilo que tenha querido dizer.

      Resta-me agradecer ter aqui colocado este texto, isso sim uma cortesia!
      Saúdo-a cortesmente cá da Cidade Morena!

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  7. Quase de certeza que a MRP concordará comigo quando questiono que interesse terá (a não ser para a estatística e para escrever artigos como este) se o livro é escrito por homem ou por mulher; ou é bom ou não é.

    Dos citados escritores/as são, para completar esta minha opinião, imperdíveis:
    -A Balada do Café Triste, da grande, grande escritora Carson McCullers (e todos os seus livros);
    -Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, Flannery O’Connor (outra enorme escritora de que também vale a pena ler os seus outros livros).
    Acrescentaria ainda, A filha do Coveiro-Joyce Carol Oates, todas nascidas com o dom da escrita e, por acaso, mulheres.

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    1. António Luiz Pacheco20 de março de 2019 às 05:58

      Ó Severino, mas vale mesmo a pena fazer uma lista das mulheres-escritoras?
      Para mim há escritores. (ponto)
      Não há escritores mulheres, homens, nem de sexo indeterminado…
      Livros são livros, e , como bem dizes ou gostamos ou não gostamos.
      Querer fazer ligação do género aos escritores é ainda reduzir a literatura, penso eu.
      Claro que não é esse o objectivo deste post e nem da autora, mas é por aí que a autora do texto parece querer ir, e é por isso que a contesto.

      O feminismo é machismo de sinal contrário, ambos estão errados e deturpam as relações entre pessoas, mais nada.

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    2. Parece-me correcto.

      Ó Paxeco, claro que não vale a pena fazer uma lista das mulheres-escritoras e como também já o salientaste, a MRP também não o deverá ter feito por discriminação nem terá sido esse o objectivo, só que lhe pareceu matéria para mais um post e (penso eu) deverá ter aproveitado a ideia (não é fácil manter diariamente um blogue); -e eu até gosto de listas-.

      Tal como para ti, também para mim há "apenas" escritores. (ponto)

      Livros são livros, e , como já tive oportunidade de salientar, ou gostamos ou não gostamos.

      Também me parece que, na maioria das situações, o feminismo é machismo de sinal contrário, ambos estão errados e deturpam as relações entre pessoas.

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    3. O feminismo não é machismo de sinal contrário. Uma ideia errada que os machistas usam para desdenhar do feminismo, que sempre lutou pela igualdade, repito, igualdade de direitos e oportunidades. Já o machismo é declaradamente pela superioridade masculina.

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    4. Caríssimo,
      Um homem que fale sobre a essência (própria) de uma mulher deve, por natureza, fazê-lo sempre sob reserva (com limite de insistência). Nós, mulheres, compreendendo bem o inverso, temos tido essa "delicadeza"..
      Muito atentamente,
      Rute Simões Ribeiro

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  8. "As mulheres sentem-se confortáveis falando do que é pessoal, ao contrário dos homens."

    Não concordo com estas distinções homem-mulher, acho-as mesmo bacocas. Há mulheres que não se sentem confortáveis falando de si. Há homens que o fazem sem qualquer desconforto. Maravilhosamente bem sobre si escreveram, por exemplo, Marcel Proust e Henry Miller. Valter Hugo Mãe e José Luís Peixoto só sabem escrever sobre si. E eu, embora não necessariamente bem.

    Marguerite Yourcenar não parecia escrever sobre si. Eu diria, à luz deste preconceito, que tem uma escrita masculina. Mas não: é apenas uma escrita maravilhosa e, como toda a escrita que o é, pessoal.

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  9. Só li dois da lista.

    Não penso que as diferenças entre a escrita feminina e masculina sejam o "conforto" referido.

    Há sim diferenças na forma como olhamos para as coisas. Há um olhar feminino e um olhar masculino.

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  10. Boa tarde com alegria

    Eu omnívoro me confesso, tanto leio autores masculinos, femininos, ou de outro género que tenha sido engendrado "hors nature".

    Boas leituras
    CP

    PS: Continuo na senda "Os Irmãos Karamazov", bem por culpa da "Divina Comédia" de Manuel de Oliveira.

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