A poesia como cura

Foi o grande poeta John Milton, o autor de Paraíso Perdido (cuja tradução portuguesa é do poeta Daniel Jonas), quem disse que a palavra tem a capacidade de curar uma mente perturbada e é um bálsamo para as feridas. Pois bem: uma sua leitora do século XXI, Deborah Alma, poetisa também, decidiu abrir a primeira farmácia de poesia, como nos conta o sempre gratificante The Guardian. Aí, a poeta de urgência vai receitar, em vez de analgésicos, comprimidos para dormir e antidepressivos, poemas de Blake, Eliot, Shakespeare, Elizabeth Bishop, Robert Browning e muitos mais, à semelhança do que tem andado a fazer na última década numa ambulância que é também uma biblioteca itinerante de poesia, mas agora num espaço fixo de um antigo convento. Diz que está a ficar velha para andar por aí a conduzir e que se apaixonou pelo lugar, com estantes, prateleiras e armários antigos que fazem aquela farmácia de poesia parecer mesmo uma antiga farmácia. Em dois anos conseguiu pagar a hipoteca e agora está mesmo apostada em ajudar quem precisa por meio da poesia, que é o género literário que, segundo Deborah, mais fala à alma das pessoas, mais dialoga com os leitores e os ajuda, por exemplo, a perceber que não são os únicos a sofrer de determinado desgosto, ou perda, ou depressão. No espaço aberto ao público vai haver também uma secção infantil, um gabinete de consultas, um café e um auditório para leituras, performances, oficinas e até refúgios para quem quiser escrever. Por cá, ouço dizer que mais de 40% dos portugueses sofrem de uma ou mais doenças crónicas. E se se pusessem a ler poesia, hã?

Comentários

  1. Queria começar por dizer que a poesia não combina muito bem com "analfabetos funcionais" (não tenho dúvidas que é esta a nossa realidade...), mas depois, ao lembrar-me de António Aleixo, percebo que ele, sim (e todos os poetas que podemos chamar "fáceis" ou "simples"...), é um bom começo para quem se quiser "curar", através da poesia. :)

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    1. Luís, os fáceis e simples são os melhores, nós às vezes é que gostamos de complicar.
      O António Aleixo, sim, mas também a Sophia, o Eugénio, o Alberto Caeiro, o Camões, o Gedeão (para só citar alguns) têm poemas tão simples e tão fáceis de entender, mesmo por analfabetos funcionais.
      E acredito que se a Poesia faz bem à alma, ao espírito, também mal ao corpo não fará...

      Maria

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    2. Faltou apenas dizer que os ingleses, quando querem ser bons, são mesmo do melhor que há;
      também quando querem ser parvos, não há quem os bata (if you know what I mean...).
      Maria

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    3. Pois é, Maria.

      Tantos simples e bons (ainda falta o Zé Gomes Ferreira, o David Mourão-Ferreira e o Ruy Belo... entre outros).

      Só me estava a lembrar dos "estranhos" e difíceis" que tenho lido nos últimos tempos. :)

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    4. (não falei da senhora dona desta casa - tal como da Florbela -, porque escrevem quase só sobre o amor, mas aquele amor que faz doer, não me parece que seja bom para "curas")

      :))

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    5. pois é, mas experimente curar uma gripe das valentes a poder de poemas, ou uma cólica renal, ou uma crise de asma. Desconfio dos médicos, mas não prescindo deles.
      O ponto é que a ideia é atractiva, mesmo não sabendo se algum mal se curou à base de poesia. Apesar disso, a ideia continua a ser bonita.E se a senhora conseguiu pagar tudo em dois anos, teremos nós de pensar que cobra as consultas? E no entanto continua a ser uma ideia gira. Ainda mais interessante por se estar a rodear de adereços que só lhe ficam bem.
      Basta que revitalize a poesia, a faça entrar na vida das pessoas. E já tem saldo positivo.

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    6. Pois é, Luís, mas eu gosto muito dessas duas Senhoras.
      E um poema de amor, ainda que muito doa, é sempre bom, nem que seja para ficarmos ainda pior.
      Mas isto já são "coisinhas de mulheres", penso eu de que...

      Maria

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    7. Pois é, Bea, este medicamento só fará efeito nas maleitas da alma (o que quer que isso seja), será assim uma espécie de placebo - faz bem porque acreditamos que nos faz bem.
      Para casos mais drásticos, lá teremos que ir às urgências...
      Muita Saúde, Bea!

      Maria

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  2. António Luiz Pacheco11 de março de 2019 às 02:36

    Como se sabe, não sou leitor habitual de poesia.
    Não porque tenha algo contra ou seja insensível a ela. De todo! Não sou insensível à palavra, dita ou escrita.
    Por exemplo, ouvir João Vilaret é um bálsamo para a alma!
    O que se passa é que para ter esse efeito, a poesia, no meu caso, não podem ser palavras desgarradas, têm de fazer um sentido… mas a maior parte dos poetas que por aí pululam, para mim não fazem sentido e portanto digo que não leio poesia, é mais fácil assim.

    Mas se falamos de Poesia, e pelo que percebo parece que sim, então sem dúvida que o fármaco-poesia, a cura pela palavra, pode muito bem funcionar. Não é mesmo a primeira vez que oiço falar nisso, e faz todo o sentido. Creio que é uma terapêutica usada em psiquiatria se não estou em erro.
    Mas neste caso não se trata de psiquiatria e sim de cura da alma, de psicologia aplicada a depressões e a deprimidos em geral.

    Acho uma idéia muito interessante!

    Saudações mais comprimidas que deprimidas , cá da Cidade Morena!




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  3. E que tal (também) um mergulho na Grande Música, por tradição apelidada de "clássica" ou "erudita"? Condições de acesso: dedicação exclusiva, atenção profunda, ouvido educado, sensibilidade exacerbada. O oposto da que normalmente nos rodeia um pouco por todo o lado, música para elevadores, aeroportos,... e que não passa de "papel de parede", cumprindo função quando muito decorativa.
    Resultados terapêuticos garantidos.
    Um bom dia para todos.

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    1. António Luiz Pacheco11 de março de 2019 às 03:23

      Suponho que a música já seja largamente usada com fins terapêuticos… a poesia é que me parece novidade, pelo menos da forma como se apresenta na notícia aqui veiculada.

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  4. Mais do que ler poesia era preciso cá uma iniciativa como esta. Seria bem vinda. Haja alguém que se atreva já que Portugal é um país de poetas. Por minha parte não dispenso Guerra Junqueiro, Antero de Quental, José Régio, Pessoa, Herberto Helder, Sofia.

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    1. Penso que todos os países são "um país de poetas".

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    2. Completamente de acordo, Cristina.
      Todos os países têm poetas, alguns têm mesmos enormes poetas, nós é que temos a mania que somos os "melhores poetas do mundo".
      Temos alguns muito bons, sem dúvida, mas o resto do mundo também está cheio de excelentes poetas.

      Maria

      Beijinho para a Lucy 🐕

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    3. Nunca ninguém fez uma estatística, país a país, da percentagem de poetas. Nem é coisa que se faça. Enfim, é bonito de se dizer "somos um país de poetas", conquanto isso não nos suba à cabeça ;-)

      Agradeço pela Lucy, que continua viva, mas com bastantes problemas de saúde. Tem desmaios, de vez em quando, mas, entre eles, vive muito bem, sem sofrimento, com qualidade de vida, alegria e passeios todos os dias. Por isso, ainda não considerámos uma solução mais drástica, nem a veterinária ainda sequer falou nisso. Quando levanta a cabeça, levanta mesmo, o que leva a veterinária a dizer que é "uma menina muito resistente" (atenção que a veterinária tem dois filhos e até esteve cinco ou seis anos sem trabalhar, para tratar exclusivamente deles, na sua primeira fase; não é portanto mulher de confundir alhos com bugalhos). E eu digo: a Lucy tem mais vidas do que um gato ;-)

      Beijinho

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    4. Acredito, Cristina.
      E os animais são como nós, vão buscar forças sabe-se lá onde para continuar a viver.
      O Jiro Taniguchi tem uma história belíssima (e verídica) sobre a morte de um cão.
      Chama-se "Ter um Cão" e termina assim:
      《Era só um cão.
      Mas aquilo que tínhamos perdido era bem mais que isso.
      E o que ele nos deixou... era ainda bem mais.》
      Bem sei que muita gente não compreende, but who cares?
      Força Lucy!

      Maria

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    5. E obrigada pela sugestão de leitura.

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  5. Bom dia com alegria

    Sou suspeito, pois a poesia não é um género literário que, no geral, me seduza.

    De certeza defeito meu, idiossincrasia. Enfim, feitio.

    Agora, do ponto de vista da gestão e marketing, a "farmácia de poesia" é um caso clássico de cross-selling, 2 em 1.

    Em termos prosaicos, é misturar alhos com bugalhos.

    Em termos deontológicos e éticos é, do meu ponto de vista, publicidade enganosa.

    Basta pensar na imensa quantidade de poetas que se suicidaram ( https://pt.wikipedia.org/wiki/Categoria:Poetas_suicidas )

    À medicina o que é da medicina, à literartura o que é da literatura. E quem diz literatura, diz desporto, turismo, cinema, gastronomia etc etc etc

    Boas leituras
    CPedro

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    1. António Luiz Pacheco11 de março de 2019 às 03:21

      Interessante abordagem a sua!
      No entanto, e cingindo-me a um ponto específico, pergunto-me se o facto (creio que mais ou menos comprovado) de que muitos poetas foram pessoas deprimidas (?) e se suicidaram, isso não terá de facto o tal valor terapêutico de que se fala?
      Não quero dizer que vão fazer como eles e suicidar-se os pacientes-poéticos, mas sim criar antes uma ponte, a compreensão de que outros sofreram até mais?

      Abraço cá da Cidade Morena, onde o tempo está pesado e sob um céu de chumbo, plúmbeo da humidade, opressivo no seu calor, pode conduzir à depressão ou se quiserem, "cacimbar-nos".

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    2. "Wild Geese" by Mary Oliver

      You do not have to be good.

      You do not have to walk on your knees

      for a hundred miles through the desert, repenting.

      You only have to let the soft animal of your body

      love what it loves.

      Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.

      Meanwhile the world goes on.

      Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain

      are moving across the landscapes,

      over the prairies and the deep trees,

      the mountains and the rivers.

      Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,

      are heading home again.

      Whoever you are, no matter how lonely,

      the world offers itself to your imagination,

      calls to you like the wild geese, harsh and exciting—

      over and over announcing your place

      in the family of things.




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  6. A propósito do tema, já Miguel Torga, médico dos males de dentro e de fora, prescrevia poemas aos leitores / pacientes:

    "UM POEMA

    Não tenhas medo, ouve:
    É um poema
    Um misto de oração e de feitiço...
    Sem qualquer compromisso,
    Ouve-o atentamente,
    De coração lavado.
    Poderás decorá-lo
    E rezá-lo
    Ao deitar,
    Ao levantar,
    Ou nas restantes horas de tristeza
    Na segura certeza
    De que mal não te faz.
    E pode acontecer que te dê paz..."

    MIGUEL TORGA, In ‘Diário XIII’.

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    1. António Luiz Pacheco11 de março de 2019 às 14:27

      Esta é a tal Poesia a que me refiro e a que ninguém fica indiferente!

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  7. Nossa que ideia genial! Uma farmácia poética, pílulas para ansiedade, dor de cotovelo, angústia, alegria, que coisa bonita.

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