Que coisa mais linda

Bem, não consigo esconder que, apesar dos malefícios do turismo para as nossas cidades (e já se estão a ver na expulsão de pessoas das casas que há tantos anos habitavam, por exemplo), gosto muito de saber que lá fora consideram Lisboa e o Porto alguns dos melhores destinos turísticos do mundo; chamem-lhe patriotismo. Um dia destes uma poeta mexicana (Blanca Luz Pulido) mandou-me um artigo que começava assim (não traduzo, pois creio que os Extraordinários perceberão): «En Lisboa todos sus moradores son agradables, son corteses, son liberales y enamorados, porque son discretos.» Julguei que era de agora que falavam quando avancei no texto, toda inchada, e dei com isto: «La ciudad es la mayor de Europa y la de mayores tratos, en ella se descargan las riquezas del Oriente y desde ella se reparten por el universo. La hermosura de sus mujeres admira y enamora.» Oh diabo... Reparando melhor, concluí que estas eram palavras de Miguel de Cervantes, calculem, escritas em Los trabajos de Persiles y Segismundo (1617), romance publicado em Lisboa e Madrid um ano depois da sua morte. Pois parece que o autor do Quixote andou por estas bandas a ver se arranjava um emprego na corte de Filipe II. E esta, hein? Parece que nem os especialistas sabiam quase nada da estância de Cervantes na capital portuguesa que, ao que parece, foi justamente onde se fez escritor. Que orgulho, não? Coisa linda mesmo.




 



Comentários

  1. Pois, Lisboa tinha a mesma luz, o mesmo rio.

    As pessoas provavelmente eram ligeiramente diferentes. ligeiramente.

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  2. Muito curiosa e interessante a opinião, e claro, deve orgulhar-nos!
    Sempre foi prática da nossa pretensa elite cultural ter vergonha de nós mesmos, o que é expresso na literatura e pode facilmente comprovar-se.
    No fundo é apenas fraqueza de quem não é nem elite nem tem profundidade cultural, pois absorve rapidamente e se deixa deslumbrar pelos estrangeirismos.
    Felizmente ainda temos quem cultive e mantenha essa cultura e identidade, mesmo que seja rotulado de coisas desagradáveis pelos modernos e pretensos sofisticados que se acham evoluídos. Talvez porque alguns a possuem sólida e esclarecidamente enraizada!
    E falo evidentemente de autores, de pensadores sobretudo, de que me vêm imediatamente à idéia António Gedeão, Miguel Torga, Agostinho Silva, Victorino Nemésio, António Damásio…

    Continua a ser moda desprezar a nossa cultura, identidade e história.
    Sim, Lisboa é isso tudo e assim pode ser visto muito do nosso país, considerado seguro e com as suas gentes afáveis e hospitaleiras.
    Continuo a gostar de ser português e a ter disso orgulho, na minha pequenez e falta de desenvolvimento, nas limitações e idiossincrasias que fazem de mim um português no Mundo, mais um, mas esclarecido quanto a isso.

    Saudações portuguesas cá da Cidade Morena!



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  3. Bom dia e bem de jeito o post. O modo que os portugueses e portuguesas se lhe estão preparados para o futuro, a vizinhança é que ponha a viola no saco.

    Cláudia da Silva Tomazi

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  4. Coisa linda mesmo, Rosário.
    Eu também fico toda vaidosa quando vejo alguma referência elogiosa ao nosso país.
    Lisboa era muito conhecida nesse tempo e agora, por diferentes razões, voltou a estar na moda.
    Mas não apenas Lisboa, todo o país, incluíndo os Açores e a Madeira, estão a ficar mais conhecidos e apreciados, o que me alegra ainda mais.
    E essa do Cervantes andar por aqui admirando la hermosura de las mujeres portuguesas é muito bem apanhada...

    Maria

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  5. Bom dia

    Não estaria Cervantes a "dar graxa" a algum autóctene, por forma a arranjar colocação na Corte?

    Ou viria ele inaugurar a primeira filial da Multiopticas, vendo coisas que mais ninguém via?

    Teria já degustado a ginjinha de Óbidos ou o vinho do Porto, estando possído por um estado ditirâmbico?

    Conseguiria ele "arranhar" português ou utilizaria a famosa pergunta do turista espanhol: "Habla usted español?"

    São dúvidas que aqui partilho convosco...

    Um "saludo"
    CPedro

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  6. Nunca dei por que as mulheres portuguesas fossem assim espectaculares de formosura. E nem os homens. Mas sendo Cervantes a dizê-lo...que no resto, e pondo de parte os chico espertos, não está mal. Como a Rosário, digo que para o português genuíno é muito agradável de ler.

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  7. Miguel de Cervantes Saavedra falou de Lisboa com a mesma ênfase que alguns turistas, nos dias que correm, podem também dizer. Até aqui, tudo bem, é só orgulho...
    Não sei, mesmo pelas estatísticas, quantos moradores havia em Lisboa no final do séc. XVI (o escritor esteve aqui entre 1581 e 1583); mas não me repugna conjecturar que seriam, comparativamente à população geral do reino, mais do que hoje. Lisboa expulsa os seus moradores para receber os adventícios endinheirados, especula-se, desaloja-se, desumaniza-se, transforma-se uma cidade numa estância (outros escreveriam instância, o que iria dar à mesma ideia).
    Miguel de Cervantes, hoje vivo, teria ficado por aqui, iria de férias a Alcalá de Henares e iria a Madrid no TGV, se as promessas da gente lusa não fossem só e apenas isso. Ter-se-ia apaixonado pelas "garinas" de Lisboa, um rapagão de 30 anos, como o fez então, ao ponto de dizer - “para festarolas Milão, para amores a Lusitânia” - ponderando que Lusitânnia não seria Portugal independente, mas mais uma província de Espanha. E teria concorrido ao prémio Leya (lembremo-nos que isto por aqui era tudo deles, dos Filipes), talvez não com o D. Quixote e Sancho Pança, mas com o D. Pixote e Sancho Panca, certamente com a obra trespassada na primeira leitura do júri de preparação, sem ir à final. Sim, teria sido assim, porque quem é que hoje se interessa por romances de cavalaria?
    Para imitar a MRP, extraio este excerto, que se pode ler na íntegra em https://elpais.com/elpais/2015/01/26/eps/1422286332_558541.html
    "En ese ambiente llegó Miguel. Se fascinó con la ciudad y sus damas. “Para galas Milán, para amores Lusitania”. Pretendía conseguir destino en América o empleo que le permitiese tiempo para sus pasiones poéticas y amorosas. De sus moradores escribe: “Son agradables, son corteses, son liberales y son enamorados porque son discretos; y que la hermosura de sus mujeres admira y enamora”. Algunos creen que allí tuvo a su hija natural Isabel de Saavedra. Otros lo niegan, pero nadie sabe a ciencia cierta qué hizo, cómo vivió y con quién en Lisboa."

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    Respostas
    1. Obrigada pela informação:). Que eu nem sabia que o autor de D. Quixote por aqui tinha vindo. Neste blogue há novidades que não são apenas de livros, mas se relacionam.

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    2. Pois é, Bea, este blog foi a melhor janela que podia arejar a literatura portuguesa (disse portuguesa, mas vem até aqui a literatura universal). Espero que a Maria do Rosário não fica "babadinha", porque é verdade. Um beijo para ela - e outro para si - se ambas o aceitarem.

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  8. Coisa linda, sim! Gosto de descobrir estes ditos. Obrigada.
    Luísa Barbosa

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