Manicómio
Antes, mandar alguém para o manicómio podia ser deveras insultuoso, mas deparei recentemente com um artigo de jornal em que um artista se dizia muito contente por ir trabalhar para o Manicómio. Bem, tenho de explicar porquê: é que este Manicómio é um espaço de trabalho conjunto (de coworking, como agora se diz) no Beato, em Lisboa, para artistas e escritores com doença mental; na companhia uns dos outros, seja qual for a área (desenho, escultura, escrita), podem ali criar com dignidade e sem preconceito (e até pedir opiniões ou inspirar-se no trabalho alheio). O projecto foi criado por Sandro Resende e José Azevedo, que trabalharam durante vários anos no Hospital Júlio de Matos com pessoas com «experiência de doença mental», cruzando às vezes os seus trabalhos com os de artistas plásticos de renome (Pedro Cabrita Reis, Jorge Molder...) e artistas internacionais (Kusturica, por exemplo). Segundo eles, a ideia é tirar as pessoas dos hospitais psiquiátricos e integrá-las em espaços de criatividade, recebendo elas além disso um salário pelo seu trabalho. Com este artigo, descobri que a poetisa Cláudia R. Sampaio está neste espaço a desenhar (além de escrever) e que é sua a frase sobre a felicidade de ir para o Manicómio (diz que este é mesmo um bom nome para um grupo de artistas com uma sensibilidade muito apurada). Os seus desenhos são, aliás, bem bonitos (há um vídeo em que a vemos pintar) e estão à venda como qualquer outro objecto artístico, sem preços de favor. Existe ainda a ideia de abrir um restaurante chamado Manicómio neste espaço. O nome é tão bom (ou melhor) do que qualquer outro.
Pena não ter existido na altura em que António Gancho ainda era vivo...
ResponderEliminarDesconheço esse nome que refere. Ainda assim direi: mais vale tarde do que nunca.
Eliminar⚘
Maria
Poesia e Literatura não lhe são conhecidas?
EliminarAlguma coisa conheço, todavia muito menos do que gostaria...
EliminarObrigada pela gentileza do seu esclarecimento.
Erro meu, por vezes espero demasiado das pessoas, ainda que anónimas.
Maria
Ó Maria estamos sempre a ser surpreendidos -é mesmo assim quando confiamos no mundoooo; a mim está sempre a acontecer-me.
EliminarNão se abespinhem. Em vez disso, esclareçam quando alguém diz não conhecer. Eu também não conhecia, porque tenho para mim, como o Sócrates (de Platão), saber que nada sei.
EliminarSinceramente, fui ver depois e fiquei a saber que foi um poeta que publicou dois livros e que morreu a rir-se. À primeira vista até pensei que se tratava do célebre capitão Gancho, um papão infantil que pretender atormentar a vida de Peter Pan e companheiros.
Não levem a mal esta minha intromissão, principalmente os anteriores intervenientes: Anónimo (que é um heterónimo muito utilizado), Maria (que apõe o sinete em forma de flor ou âncora) e Seve ou Severino.
Bom… Kusturica? É completamente louco… juntem-lhe o Tarantino e o Robert Rodriguez e até o Mel Brooks, os Monty Pyithon ou mesmo Groucho Marx se assustavam com tanta loucura! O Woody Allen esse diria que era para acabar de vez com a cultura!
ResponderEliminarEheheheh!
Todos geniais, e , não se diz que de génio e de louco, todo Mundo tem um pouco?
Na verdade, os criadores, sobretudo os geniais, os inovadores (goste-se ou não deles) me parecem sempre um bocado, digamos loucos. Mas de uma loucura saudável… porque creio que o seu génio reside justamente no que nós chamamos loucura, que é a sua maneira de ver e de expressar, a sua originalidade e a diferença.
Portanto a genialidade pode mesmo constituir, não uma doença mas digamos, uma perturbação (no bom sentido!), e pode haver loucos (ditos doentes mentais) que sejam capazes de criações artísticas relevantes. Não quer dizer que todos os artistas sejam loucos ou vice-versa, mas qualquer génio tem sempre o seu quê de excentricidade, penso que seja porque vive no "seu Mundo" ou o vê a seu modo.
Reparem, hoje os autistas já vão sendo compreendidos, como aquilo que são, alguém com uma maneira única (sua) de verem o que os rodeia, focados nisso e alheados do resto. Dão génios, e há casos fantásticos que hoje são reconhecidos… o síndroma de Asperger que é outra "perturbação" também produz pessoas inteligentes e focadas mas com alguma dificuldade na vida real ou nas coisas comuns. E as crianças indigo… tantas variações e derivações que já são observadas desde tenra idade!
Portanto acho muitíssimo boa essa idéia do "Manicómio", porque se há coisas notáveis nos homens e na sociedade, é que apesar de tudo, se vem evoluindo num certo sentido humanizador ainda que haja altos e baixos como em tudo, ciclos até, e é por isso, pela humanização que ocorre há milhões de anos que a nossa espécie não acabará, e que olhando à nossa história eu continuo a acreditar no Homem e na Humanidade.
Saudações humanistas cá da Cidade Morena!
Bendito seja por essa crença. E que não seja infundada.
EliminarUma boa notícia logo pela manhã, para variar, é sempre bom, penso eu de que...
ResponderEliminar"Uma notícia positiva por dia, nem sabe o bem que lhe fazia".
A mim, pelo menos, faz.
Excelente dia para todos!
⚘
Maria
As boas notícias, como os bons encontros, rareiam. E é bom sinal saber que há quem se preocupe com os loucos que estão dentro; ou não estando, o são e os encaminha para a criatividade. Que a outra face da loucura, que não a criativa, anda espalhada pelo mundo e a esses dementes de bom aspecto temos de os aguentar que ninguém lhes decretou doença nem lhes dá telas e lápis e o seu espaço é o mundo comum.
EliminarPodiam convidar o Lobo Antunes para dar uma ajudinha, sempre é psiquiatra reformado e tem experiência do Miguel Bombarda!
ResponderEliminarBom dia, com sol e alegria, e pouca água nas barragens.
ResponderEliminarE o Santana Flopes, ninguém lhe endereçou um convite?
De referir também o Parlamento, onde polulam artistas de toda a espécie, com especial ênfase no surrealismo e no absurdo enquanto correntes estéticas.
Boas leituras
CPedro
PS: Uma grande bem haja para Claúdia R. Sampaio
Isto da loucura sempre teve que se lhe diga. Assim como o seu entendimento.
ResponderEliminarAinda bem que existe um espaço para alimentar e apoiar a diferença. :)
Isto é que é uma verdade que me põe muitas vezes a pensar:
Eliminar-Isto da loucura sempre teve que se lhe diga. Assim como o seu entendimento.
Infelizmente, ainda existe um grande estigma em relação a doenças mentais.
ResponderEliminarInfelizmente, ainda se usam expressões como "vá-se tratar", ou "você é mas é um/a traumatizado/a" para insultar pessoas.
Editoras manicómio já existem. Que tal a sua experiência, MRP?
ResponderEliminarCada grão, destina-se à pão ou semente.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Internamento imediato (numa escola básica)!
EliminarAntónio Gancho, poeta eborense, uma história de vida impressionante:
ResponderEliminar- https://www.publico.pt/2006/01/04/jornal/antonio-gancho-19402005-o-poeta-desapareceu--na-noite-56548#gs.98CkC1wO
- https://www.alagamares.com/antonio-gancho-poeta-nocturno-2/
Cumprimentos
Luísa Barbosa