Dona Flor e o censor

Apanhei esta maravilha no Facebook, rede social donde por acaso ando afastadíssima há já uns tempos (quase só lá vou ver os aniversários e pôr o link deste blog e da crónica do Diário de Notícias, porque não me apetece estar sempre a assistir à agressividade alheia e ultimamente parece que as pessoas só querem insultar-se umas às outras). Portanto, foi mesmo uma sorte o achado, e parece que tinha sido partilhado por Francisco José Viegas (no Twitter ou no Instagram, já não me lembro) e alguém pegou nele e o ofereceu no seu mural. Trata-se do relatório de um censor, durante o Estado Novo, relativo ao livro Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado. E o que tem mais graça é que se consegue perceber perfeitamente que o senhor da PIDE gostou tanto do livro e da prosa do autor que faz tudo para «salvar» o romance de não ser vendido e distribuído em Portugal. Arrisco-me a dizer que também apreciou sobremaneira as cenas de sexo, certamente raras ou inexistentes na literatura portuguesa da época. Deixo-vos o documento para degustarem. E aproveito para dizer que saiu recentemente uma biografia de Jorge Amado assinada por Josélia Aguiar, que também já foi programadora da FLIP, o mais internacional festival literário do Brasil, que acontece anualmente em Paraty. A ler, claro.


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Comentários

  1. Já li O Dona Flor...Excelente. Gosto de Jorge Amado. Tenho pena de não ter visto ainda o filme, salvo erro, com o José Wilker e a Sónia Braga, e que adapta o livro, cheio de malícia e humor baiano.

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  2. Li o livro depois de ver o filme em estreia, salvo erro, no cinema Castil.
    Mas foi há mais de mil anos, numa outra vida que tive em Lisboa, onde via todos os filmes e mais algum.
    Lembro-me de me rir bastante (fui vê-lo com duas amigas igualmente tontas), e também me lembro de outras cenas, de que não me atrevo a falar aqui , mas que foram interessantes e educativas, digamos assim.
    E que excelentes actores eram o José Wilker e a Sónia Braga, que só conhecia da Gabriela.

    Maria

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    1. E até aposto que o tal Estevão Martins também viu o filme... e gostou!

      Maria

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  3. António Luiz Pacheco15 de janeiro de 2019 às 04:15

    Excelente documento este! A vitória da (boa) escrita sobre a censura, afinal… e só por isso um marco e a merecer destaque. Afinal parece-me que será das melhores críticas que Jorge Amado terá tido! Terá ele tido conhecimento?

    Vi o filme, como não… mas confesso que é dos poucos livros de Jorge Amado que não li, talvez por ter visto o filme. Foram várias as telenovelas baseadas nos seus romances, se bem me recordo, que todavia não vi, excepto a incontornável Gabriela o que foi uma lufada de ar fresco televisivo na época. Porém é um dos meus autores de referência.

    Muito interessado fiquei, na proposta da sua biografia que vou procurar comprar e ler, obviamente.

    Saudações frescas, cá do Bairro Ribatejano.

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  4. É de facto um documento muito interessante, tal como todos os que nos contam a história da censura. No entanto, os anos passam e as mentalidades não mudam assim tanto. O conceito "tolerância", tal como outros que se guardam na Caixa da Ética vão-se moldando ao sabor dos que têm algum poder. Veja-se o recente caso do manual escolar de português para o 12.º ano "Encontros" da Porto Editora que eliminou três versos de um poema de Álvaro de Campos - "Ode Triunfal" - por alegadamente conter linguagem obscena, a qual foi substituída por linhas a tracejado, deixando ao critério do professor de português a possibilidade da sua explicitação aos alunos. Na minha opinião, não havia necessidade.As redomas de cristal em torno dos alunos nunca deram bom resultado. A "obra" é a "obra na sua totalidade", não pode ser manietada, recortada, reduzida a excertos politicamente correctos, sob pena de não a compreendermos e de ela não servir qualquer fim pedagógico ou estético. Temos duas opções: alunos com capacidade crítica ou alunos imbecis. Isto para não falar dos professores. Creio que já deveríamos ter abandonado a segunda alternativa há muito tempo. Sinceramente, não esperava ver esta espécie de (des)educação por parte da Porto Editora, que tem uma enorme responsabilidade editorial no nosso país. Confesso que já me vai faltando a paciência...

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    1. António Luiz Pacheco15 de janeiro de 2019 às 06:38

      Não sendo talvez o momento para este tema (a censura a Fernando Pessoa), que certamente o vai ser aqui, não posso no entanto deixar de lhe transmitir a minha total concordância.
      Aliás extensiva à totalidade do seu comentário, que não apenas ao detalhe F. Pessoa.

      Saudações cá do Bairro Ribatejano.

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  5. Bom dia

    Pegando nessa pequena pérola de 1966, e cotejando-a com a truncada "Ode Triunfal" de F. Pessoa para consumo estudantil, podemos ter a medida da nossa (parca) evolução em cerca de meio século.

    Oh censores deste mundo, espreitai para a essa latrina a céu aberto chamada internet. Espreitai!

    A espécie de cloaca que demasiados jovens carregam no regaço, e veneram, permite-lhes saber tudo e muito mais sobre sexualidade, parafilias, guerras, torturas, "O horror, o horror!", etc., etc., etc. ......

    Donde, para quê a censura? "Porque o presente é todo o passado e todo o futuro"?

    Fica a questão.

    Cordialmente
    CPedro

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  6. Como alguém disse acima, este foi decerto o melhor elogio porventura dado a Jorge Amado. Está quase terna forma como conduz o livro à sua liberdade, a modos de quem lhe põe a mão por baixo ainda assim ele não venha a cair numa poça de água. Fiquei a simpatizar com este leitor da PIDE. Que o documento não mostra apenas a qualidade do autor, também revela - e muito - a do leitor.
    Quanto à biografia, nem duvido do seu interesse. Mas infelizmente não li o livro e nem vi o filme. Jorge Amado conquistou-me com o célebre "Capitães da Areia" que é de quem escreve divinamente e ama o Brasil até às profundezas.

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    1. António Luiz Pacheco15 de janeiro de 2019 às 06:45

      No seguimento do que diz, Caríssima Bea, e porque também fiquei sensibilizado com o texto pidesco, quem sabe se não seria um belo tema a explorar por algum escritor, o pide que gostava de livros… ou seja, por dentro de alguém com funções tão sinistras, havia uma sensibilidade, talvez amordaçada, talvez até inconsciente, mas poderia dar "pano para mangas" … o próprio J. Viegas seria capaz de o fazer, com muita propriedade e capacidade!

      Fica o desafio! O Viegas é frequentador deste espaço? Ou poderia a Nossa Extraordinária Anfitriã passar-lhe a minha mensagem, passe o atrevimento.

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    2. Capitães da Areia, sem dúvida um dos meus preferidos do Jorge Amado.
      Em tempos li muitos livros dele e sobre ele.
      Tenho uma espécie de Fotobiografia, editada pela Dom Quixote em Agosto/2002.
      "Jorge Amado - Um Baiano Romântico e Sensual".
      São "Três Relatos de Amor" , escritos pela mulher Zélia Gattai e pelos dois filhos, Paloma Jorge Amado e João Jorge Amado, respectivamente.
      É um livro muito bonito, não vejo necessidade de comprar outro.
      Boas leituras, Bea.
      🌿⚘
      Maria

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    3. "Capitães da areia": sim, o melhor que li do Jorge Amado. Esse ficou-me gravado. No coração?

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    4. Os" maus" não são maus por inteiro, e os" bons", idem. Mas assunto por encomenda não sei se algum escritor aceita. Confirma-se, este PIDE gostava e sabia ler.

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    5. Obrigada. Gosto bastante da forma como os brasileiros juntam as palavras e fazem um livro, mas conheço pouco. Até há uns anos desconhecia por exemplo Machado de Assis e logo me rendi ao seu encanto, desconhecendo ser assim um escritor famoso, um clássico do Brasil:)

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    6. Creio bem que seja o lugar desse romance. A gente deixa-se prender por aquele bando de garotos sem nada de seu excepto a vida. A ficção cola-se a certa realidade brasileira.

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    7. António Luiz Pacheco15 de janeiro de 2019 às 11:05

      Terá uma vez mais razão, mas não é bem uma "encomenda", o que se me sugeriu na verdade é que a divulgação daquele documento traga água no bico, como costuma dizer-se, e que o JFViegas ande a preparar alguma a propósito… espero bem que sim!

      Cumprimentos cá do Bairro Ribatejano, onde a esta hora cheira à lenha nas lareiras!

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    8. Olha que verdade tão lúcida:
      -" maus" não são maus por inteiro, e os" bons", idem.
      (Estou sempre mas sempre a aprender).

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    9. Ó Paxeco já leste "DEUS LHE PAGUE" do JORACY CAMARGO? do melhor que li (brasileiro).

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    10. António Luiz Pacheco16 de janeiro de 2019 às 05:11

      Não! Conheço o autor e registo o que dizes, vou procurar, pois fiquei interessado!

      Sabes, isto aqui só para nós - que ninguém nos lê, somos dois toscos - mas de facto a literatura, os livros são algo de Extraordinário na medida em que nos trazem Extraordinárias sensações e ideias, sei lá… faltam-me as palavras, mas trazem-nos tudo e sobretudo a Humanidade!

      Já mudei muitas vezes de pensar e até atitudes por causa dos livros, e, Jorge Amado é precisamente um dos autores que me provocaram mudanças e me alertou para outras vidas e outras pessoas, fossem as putas, os chulos, os homossexuais, vadios, mendigos… não só ele, comecei com Maugham e continuei com ele e depois fui descobrindo outros, tantos!
      As pessoas que julgamos desprezar ou mesmo odiar, rejeitamos, através da boa literatura, apresentam-se-nos de outra forma e deixamos de as olhar pelo menos com ódio.

      Já leste "Pão de Açúcar"? Surpreendentemente escrito por um jovem, é outro desses e recente, como foi a Rainha do Cine Roma … e tantos mas tantos outros.

      Acredito que sintas e penses como eu, por isso tanto gostamos da leitura!

      Um grande abraço ainda cá do Bairro Ribatejano.

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    11. Grato pelas tuas sábias e amigas palavras. Ó Paxeco onde é que já se viram dois toscos a gostar de livros?

      Não li "Pão de Açúcar", não conheço, mas vou "basculhar"; quando, aqui há tempos, falaste na Rainha do Cinema Roma, procurei-o logo por tudo quanto é sítio (para o efeito), mas não encontrei nada.

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    12. até parece que nunca tinha ouvido isto:).

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  7. Interessante o conteúdo de seu texto, principalmente nestes tempos em que, no Brasil, voltamos a ter censores, agora na modalidade de cidadãos amadores que pretendem decidir o que é certo ou errado para os demais. Brasileiros e portugueses passamos por tempos sombrios, que pensávamos superados. Entretanto, lá vamos nós (brasileiros) outra vez, na ribanceira do arbítrio e do autoritarismo.

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  8. E por vias tão travessas, de Jorge Amado a Pessoa, com a censura como pano de fundo comum, acabei por descobrir que a edição da poesia de Álvaro de Campos que tenho cá em casa (Ática) também é uma edição censurada, os versos em causa omissos! Talvez a Tinta da China tenha a versão integral...

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    1. A minha, da Assírio & Alvim (Março/2002), edição de Teresa Rita Lopes, está completa (página 87).
      Esta página pode ser vista no blog do Eduardo Pitta.

      Maria

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    2. Eu também tenho essa edição da Ática de 1980 censurada. Não se compreende, nem em 1980 nem em 2019.

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    3. Incompreensível, de facto!
      Afinal que raio de democracia é esta?
      Que raio de liberdade de expressão é esta?
      Que raio de país de fingidores é este?
      Que tristeza!

      Maria

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  9. Peço desculpa à MJP para replicar o que coloquei hoje no meu blog "Altas Cavalarias", que vem a propósito de Dona Flor e o Censor.
    Aproveito ainda - eu que não venho até aqui há algum tempo - para estranhar a Autora não trazer este assunto até aqui.
    Lá vai...
    NEM PESSOA ESCAPA; OS PÂNDEGOS E AS PUTAS TAMBÉM NÃO
    Fernando Pessoa – aliás Álvaro de Campos – devia adivinhar que não estava a escrever apenas para a sua época, podendo então poetar o que lhe apetecesse; devia ter compreendido que chegaria o tempo em que a censura e a moralidade, os costumes e o diabo a quatro, iriam riscar (ou omitir, o que lhe dá as mesmas voltas), o que pode ferir os meninos e meninas na escola, principalmente com o crivo de uma editora (que nem sequer digo o nome) que lhe levou a poesia aos manuais escolares.
    Aqui é que bate o ponto.
    Trata-se do poema "Ode Triunfal", que a editora levou ao manual "Encontros", alegando conter três versos com linguagem grosseira... para o 12º ano!
    Se a senhora editora não gostava, não publicava no manual; a publicar, fazia-o na íntegra. Há a considerar que Álvaro de Campos (aliás Fernando Pessoa), ao escrever “ó automóveis apinhados de pândegos e de putas”, referia-se aos veículos da época e às ditas contemporâneas.
    Até o corrector automático me sublinha a vermelho aqueles dois vocábulos "pândegos" e "putas" como se ninguém os pronunciasse hoje em dia. Uma palermice!
    Parece-me que hoje, ao contrário do tempo do grande Poeta (o desenho em cima é meu) – que eu admito como o maior no seu génio e no género – não se confirma o que Pessoa/Álvaro disse da época, até porque: primeiro, a pândega nos automóveis acabou, a não ser que se queira arriscar soprar ao balão; segundo e último, as putas estão à beira da estrada, coitadas, na esperança de entrarem neles quando não se encontram apinhados.
    O patusco é que ninguém se insurge com esta psicose, principalmente os que se fartam de falar no lápis azul do antigo regime. Apeteceu-me dizer um palavrão, daqueles com cabeleira que também são riscados no manual da editora, e já o disse, pelo que não o vou escrever.
    No “placard”, o resultado ao intervalo (que deve ser o do final) é: Pessoa/Álvaro de Campos-1 – Editora do Porto-0.

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