A importância do contexto
Tem-me irritado bastante um certo discurso politicamente correcto a propósito do passado histórico de Portugal e Espanha – conquistadores, escravocratas e colonizadores, ninguém nega –, fazendo tábua rasa do contexto em que tudo se passou e tornando uma empresa que foi realmente épica (sobretudo a nível do desenvolvimento da ciência e da navegação) num acto de violência puro e duro. Não é aqui o lugar para fazer tal discussão, mas serve esta introdução para dizer que até as frases, fora do contexto e da época em que foram escritas, se tornam difíceis de compreender. O exemplo é chamar «milionária» a uma cidade como Havana, calculem, que hoje é tudo menos isso – e até já foi mesmo uma cidade de profunda miséria, nos anos 1990, em que as pessoas pediam aos estrangeiros que andavam na rua coisas tão elementares como sabão, azeite, pensos higiénicos e roupa interior (estive lá nessa altura e assisti a muitas cenas dessas). Mas esqueçamos essa época triste de Havana e voltemos então à sua glória cem anos antes para ver o que Eça de Queirós, diplomata na cidade, dizia dela numa carta a Ramalho Ortigão (sim, fui à exposição sobre Eça num destes domingos de manhã e foi aí que li esta pérola): «Detesto-a a esta cidade esverdeada e milionária, sombria e ruidosa – este depósito de tabaco, este charco de suor, este estúpido paliteiro de palmeiras!» Embora não concorde (conheço outra Havana), vê-se logo o génio do autor.
Quando se lê que os Maias deviam ser lidos por todos peca-se por defeito... nesse dever da pedagogia do conhecimento afastando as sombras dos dias das épocas. Devia ler-se tudo de Eça: desde as Cartas de Paris, às de Londres, passando pelo Crime do Padre Amaro, pelos contos. E esta coisa horrenda de avaliar o passado com os olhos do presente, não são mais do que raios de sol fazendo crescer desmesuradamente as pálpebras, criando artifícios de esquecimento em zonas de sombras.
ResponderEliminarNão conheço escritos de Hemingway sobre Havana, vivências sim. Almoçar no Floridita, atravessar a cidade a pé e emborrachar-se de mojitos na Bodeguita del Médio.
ResponderEliminarGostei de Havana com calor seco, detestei-a com calor húmido. Esse desconforto também o sentira na estação das chuvas na foz do Zaire e na Guiné.
Ele esteve lá pouco tempo por causa do clima, ainda tratou do problema dos milhares de coolies que vieram de Macau para as plantações de cana do açúcar. De resto fugia para os EUA onde tinha duas"amigas" norte-americanas.
ResponderEliminarOra vivam, e, boa semana!
ResponderEliminarEstou na minha recta final…
Sobre o tema aqui trazido, em primeiro lugar sou outro dos que se irritam também, e, supinamente, com essa actual postura que só denota falta de conhecimentos e pouco esclarecimento, para mais vivendo e trabalhando eu numa antiga colónia onde ainda vejo o que lá deixámos de mau (alguma coisa, sim!) e de bom… bastante!
Fomos colonizadores, fomos esclavagistas - como foram ou são práticamente todos os demais povos do Mundo inteiro - mas também démos novos Mundos ao Mundo e descobrimos tanta coisa, a ciência e o conhecimento tanto avançaram fruto da nossa acção que teve também como consequência a escravatura, mas pergunto-me o que seria hoje todo o continente americano sem essa negra página da história da humanidade, que aliás não foi escrita só por nós, também mas não só!
Claro que não será o local certo para discutir o tema, mas, é no entanto uma realidade haver muitíssimos escritos e excelentes livros onde se pode obter informação acerca do assunto, e isso já nos interessa, a nós leitores, não é assim? É até um tema que me interessa, muito: a colonização, a descolonização, a escravatura e tudo o mais.
Quanto ao que diz Eça… compreende-se o seu enfado, como se consegue ainda hoje perceber o que terá sido o esplendor de Cuba naquele tempo, com as suas plantações, edifícios, e a vida faustosa da época - pelo menos para alguns!
Curiosamente tenho alguns amigos cubanos, cooperantes em Angola sobretudo professores e médicos, com quem vou debater este tema aqui trazido sobre a Havana desse tempo, eles são cultos e bastante esclarecidos, o que pode admirar alguns, e gostam de falar daquilo que lhes é proibido (falar, exactamente), gostam de ouvir opiniões e são abertos a pontos de vista diferentes daquele que é o oficial.
Saudações habaneras, cá do Bairro Ribatejano, hoje à noite vou fumar um "Romeo e Julieta" ou um "Hoyo de Monterrey" … em memória de Eça!
Mas nestes tempos o mundo e o país estão fora de contexto...
ResponderEliminarFala-se de tudo e mais alguma coisa, apenas por que sim, como se os títulos fossem importantes que o texto em si...
Culpam-se as redes sociais, mas os culpados somos nós...
Concordo, essa história de olhar para o passado desligado do contexto está a gerar verdadeiras aberrações e a denegrir figuras históricas e boa gente que não teve culpa de ter nascido quando nasceu. Os hereges não acabaram, mudaram o perfil.
ResponderEliminarEça é ele em tudo "um paliteiro de palmeiras":). Coisa mais bonita.