Replicar

Todos falamos com saudade das velhinhas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, que corriam o País de norte a sul com uma selecção de livros para todas as idades e paravam sobretudo em locais em que o acesso ao livro era difícil e não havia livrarias num raio de quilómetros. Conheço muitos excelentes leitores que se formaram com livros escolhidos nessas bibliotecas – o conhecido romancista José Luís Peixoto, por exemplo, conta sempre como a biblioteca itinerante foi importante para ele durante as suas infância e adolescência passadas em Galveias, no Alentejo. Mas, ao contrário do que poderíamos pensar, a ideia ainda não morreu completamente (passe o paradoxo): depois da tragédia dos incêndios, e em nome do Fundo de Apoio às Populações e à Revitalização das Áreas Afetadas, a Fundação Calouste Gulbenkian entregou ao Município da Sertã uma carrinha completamente adaptada aos serviços de biblioteca que, já no início do próximo ano, começará a visitar cerca de 240 lugares isolados ou cujos habitantes têm mobilidade reduzida, para distribuir livros e revistas, replicando a velhinha ideia que pôs em prática noutros tempos. A carrinha executará também outros serviços, como fazer fotocópias, dar acesso à Internet, preencher formulários, etc. Nunca é demasiado tarde para replicar uma boa ideia. Agradeça-se à Fundação.


 

Comentários

  1. Também eu iniciei as minhas leituras de adolescente na Biblioteca Itinerante que visitava a minha vila beirã no final dos anos 50. A princípio, o senhor responsável orientava as leituras de acordo com o nível escolar, depois já era eu que escolhia os livros que interessavam. Mais tarde, com a ajuda da CM passou a fixa. Hoje a CM possui uma biblioteca razoável na Casa da Cultura. Ali, pelo menos, não é necessária outra vez a velhinha itinerante. Hoje até cinema há todas as semanas. Antigamente só havia quando os ambulantes passavam quando o rei fazia anos. Ainda vi muitos no salão dos Bombeiros. Um que me ficou na memória foi ANNA do Lattuada com a Silvana Mangano. Velhos tempos, era quase o cinema Paraíso..

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Era eu ainda praticamente um bebé mas ainda tenho uma vaga e doce ideia de andar atrás do meu pai com o seu cinema ambulante, algo de mágico e autêntico cinema paraíso.
      Que tempos...

      Eliminar
    2. Falas a sério???
      É pá, sempre gostava de ouvir essa história… dava um livro!!! Não?
      Abraço.

      Eliminar
    3. Claro que é verdade, caro Paxeco, mas é como dizes, é uma história muito longa dava mesmo um livro (e muito interessante)...

      Eliminar
  2. Faço copy paste do Extraordinário Anónimo das 09:30.

    ResponderEliminar
  3. Não tenho recordações ligadas a essas bibliotecas, se bem que me recorde delas e ache que foram excelentes no apoio à divulgação da leitura, aliás como é testemunhado aqui.

    A sua recuperação parece-me uma iniciativa útil e de louvar, lá está, e como dizia ontem, não é o ministério da cultura quem o faz, mais uma vez se comprova, e sim uma entidade privada e de reconhecido mérito! Bem podemos esperar que os partidos e os políticos que deles saem nos dêem cultura ou algum apoio ao bem-estar…

    Louvo ainda mais o serviço que vão prestar, de cópias, acesso à net, preencher formulários… isso é verdadeiro serviço público nas zonas desfavorecidas e habitadas por quem tem dificuldades nessas áreas, tanto mais quanto menos sensíveis e esclarecidos são os políticos quanto ao país real que querem informatizar tudo e mais aquelas botas, sem se lembrarem de que ainda há uma maioria que não domina, menos conhece ou tem acesso às tecnologias.

    Aplausos cá do Bairro Ribatejano!

    ResponderEliminar
  4. Por morar numa cidade (Caldas da Rainha), não vivi essa beleza das bibliotecas itinerantes, mas a única biblioteca pública existente era da Fundação e ficava nos velhos Pavilhões do Parque (que um ano destes serão hotel...).

    É importante referir que antes de Abril as bibliotecas abertas às populações eram um praticamente um exclusivo da Fundação Calouste Gulbenkian e das Colectividades Recreativas do nosso País.

    Os salazaristas e marcelistas tinham medo de tudo o que cheirasse a cultura.

    ResponderEliminar
  5. Bom, descobri com a carrinha da Gulbenkian que havia muito mais livros do que pensava. Lembro-me de entrar e a achar enorme, tanta prateleira cheia de livros a que eu nem chegava. Jamais imaginara que houvesse coisa assim e ainda por cima com rodas como qualquer automóvel. Como não fazia ideia do que era a Gulbenkian para além de um nome, achei que viver numa casa daquelas é que era. E quando o senhor me disse que podia escolher até seis livros entusiasmei e caprichei na letra do quadradinho de papel onde escrevíamos o nome das obras e o código.
    Acho uma ideia mesmo natalícia pôr a carrinha da Gulbenkian - decerto bem actualizada - ao dispor de quem está isolado; julgo que poucos serão crianças.

    ResponderEliminar
  6. Gosto do artigo.
    Mas talvez haja culpados para a situação desta situação do fecho das pequenas livrarias,em que as populações perdem o que lhes é devido culturalmente.
    Ou como tudo neste País, a culpa morre solteira.

    ResponderEliminar
  7. Nascida e criada em Lisboa, e havendo muitos livros lá em casa, conheci a carrinha da Gulbenkian, por acaso, numa aldeia beirã onde costumava passar alguns dias no Verão.
    Lembro-me de ter pensado que, quando fosse grande, gostaria de andar assim conhecendo terras e conversando sobre livros com quem os amasse como eu.
    Cresci e arranjei uma profissão que me deu mais tristezas que alegrias... mas, nas minhas Horas Extraordinárias, fartei-me de percorrer o país e nunca perdi uma oportunidade para conversar sobre livros.
    É o que estou a fazer agora
    Maria

    Gosto muito do José Luís Peixoto, sempre gostei: desde o primeiro poema, desde o primeiro livro, desde o primeiro texto na revista Rodapé , desde a primeira conversa...
    E não se deixou estragar pela fama, o que é cada vez mais raro.

    ResponderEliminar
  8. Vivi até aos 23 anos no bairro dos Olivais Sul, em Lisboa. Durante a meninice fui cliente assídua da biblioteca itinerante da Gulbenkian que visitou com regularidade aquele bairro durante muitos anos.
    Após o 25 de abril foram construidas novas escolas com as respetivas bibliotecas, mas, aquela que mais gostava era a da Junta de Freguesia, era mágica e o meu refúgio nos intervalos das aulas.
    Acompanho no FB uma página de um bibliotecário itinerante que conduz uma carrinha pertença de uma Câmara Municipal do interior, não recordo o nome, mas ele é muito ativo, além de fotos das suas gentes, posta também poemas de autores nacionais e internacionais.
    De acordo com ele já havia outra Câmara interessada em replicar o projeto, é que estas carrinhas prestam múltiplos serviços aos habitantes de aldeias longe de tudo.
    A disseminar-se este projeto, nem tudo está perdido...

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório