O que ando a ler
Por acaso, já acabei, mas é dele que falo agora porque se apresenta a oportunidade e depois sei lá se não me esqueço. Em primeiro lugar – há que dizê-lo –, é preciso louvar a autora pela coragem de publicar um romance quando é crítica literária há tantos anos (telhados de vidro, portanto). Ana Cristina Leonardo, uma senhora da minha idade (com um humor verrinoso que quase sempre lhe fica bem), escreveu O Centro do Mundo, uma peça literária bastante diferente dos romances ditos clássicos; a história debruça-se sobre o espião Boris Skossyreff, apátrida, cheio de dívidas e pretenso rei de Andorra, que passa por Olhão (lugar que figura na capa do romance e é a terra natal da autora) nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, em busca de um barco que o leve a Marrocos; é em Olhão que conhece um médico e intelectual que, com várias outras vozes, acabará por ajudar a contar a história da sua passagem por Portugal muitos anos mais tarde. Esta história, cujos episódios se estendem à guerra civil de Espanha e ao nazismo, terminarão com o magro Skossyreff esfomeado num gulag na Sibéria (aqui são belíssimas as descrições, para mim as melhores do livro, juntamente com as das primeiras páginas). A autora interpela-nos, provocadoramente, ao longo da narrativa, inclusive para nos cultivar (há notas de rodapé para quem quiser aprender). Uma interessante estreia na ficção para adultos.
(gostei da opinião, do "interessante", que normalmente fica a meio caminho, entre o bom e o mau...)
ResponderEliminarAcabei de ler "Tempestade" de William Boyle (de quem nunca lera qualquer livro). É um livro cheio de acção, sobre alguém que tem de forjar uma nova identidade, para escapar à prisão, pelo caminho desce quase ao "inferno"...
Ainda ando a ler" A Casa Sombria" do Dickens, um tijolo de 750 páginas, não é brincadeira, "O Enigma da Chegada" do V. S. Naipaul e comecei "As Igrejas de Lisboa e as Suas Histórias", por sugestão da Maria Filomena Mónica.
ResponderEliminarBom dia.
ResponderEliminarACL é um dos motivos porque compro o Expresso.
Adoro o seu estilo inconfundível, o humor que produz utilizando as mais improváveis associações.
Dela li "Enquanto Veneza se afunda", uma colectânea de crónicas.
O mais tardar no Natal terei de abrir os cordões à bolsa.
Cordialmente
CPedro
Deixei de ler o Expresso, de que fui leitor fiel por uns bons 20 anos, vai para bastante tempo e por desacordo com uma notícia mal escrita, pior fundamentada e ainda mais mal-intencionada, a que não me deram oportunidade de corrigir - logo persistiram na má-fé. Portanto deixei de o ler... também nunca me atraiu especialmente a coluna de Ana Cristina Leonardo, por razões que não vêm ao caso e são minhas - sim, lia-a!
ResponderEliminarNo entanto, a descrição do romance que aqui é feita despertou-me a curiosidade.
Ando a ler um clássico, para descontrair, um que comprei e nunca tinha lido, de um dos meus autores favoritos: J. Steinbeck - A taça de ouro. Um tema muito diferente daquele que me habituou e gosto, mas um belo romance biográfico de aventura.
Saudações cá do Bairro Ribatejano.
Ando a ler, calmamente e sem muito entusiasmo (ao contrário do excelente "Danúbio"), os "Alfabetos".
ResponderEliminarAmbos de Claudio Magris, desculpem.
ResponderEliminarO pretenso rei de Andorra (creio que também estará ligado a Olhão por uma qualquer situação similar; ou não?)
ResponderEliminarBom livro este que estou a ler, "SÓ ACONTECE AOS OUTROS" de Maria Antónia Palla.
Que bem descreve a alma humana, o sofrimento de gente que nunca conheceu a felicidade, que nunca teve um carinho. E que, de igual modo, descreve a gente de coração de pedra, gente que certamente também nunca terá tido um simples afecto, um mimo -- uma anciã violada por um jovem; um rapaz algarvio (sedento de vida) aparece morto (sem qualquer explicação), numa cadeia de Huelva; uma menina de três anos é morta a pontapé pelo companheiro da mãe; o suicídio de uma rapaz de dezoito anos, escravizado pela família --e mais alguns dramas que todos os dias acontecem, às vezes debaixo dos nossos levantados e egoístas narizes.
Que bem, reputo, descreve Maria Antónia Palla estes e outros negros dramas da alma humana.
Gato por lebre.
ResponderEliminarAndo a ler (algumas pela primeira vez) As Obras Completas de Hans Christian Andersen. "A Princesa e a Ervilha" é o meu conto preferido.
ResponderEliminarPois eu já nem sei bem o que ando a ler, tantos eles são ao mesmo tempo. "Génio" de Bloom é um; as "Memórias da Segunda Guerra de Churchill" na versão condensada (mesmo assim cerca de 900 páginas, lidas com gosto superlativo pois Churchill era muito mais do que um político - talvez um dia me aventure às mais de 3000 das memórias integrais); João Lobo Antunes e o seu "O Eco Silencioso"; um Mia Couto de que não me recordo o nome (já estou colado à cadeira); "As coisas da Alma" de João de Melo; o livro 2 das memórias do Raul Brandão e "last but not the least", "1914, Catástrofe" do historiador Max Hastings. Ao meu colo repousa já o volume II das obras completas de Vitorino Nemésio, a que não podia ficar indiferente depois de ter visitado a sua ilha encantada e a casa-museu. E à espera do último diário de Saramago.
ResponderEliminarCaro Pedro Sande
ResponderEliminarSe encontrar nas suas leituras de Churchill os factos que enumero diga-me por favor. É que se trata de um político que tem uma imprensa como ninguém, até lhe foi atribuído o Nobel da... Literatura!
Censura fina: 1) responsável pela elaboração de lista de 80 000 cidadãos britânicos deficientes a eliminar ou espalhar pelo Império, quando era Ministro do Interior antes da IGM; 2) único ministro do Gabinete Trabalhista (ele estava como independente) que se bateu pela deflagração da guerra (IGM; sabe-se hoje que foi uma teimosia que teve muito de criminoso); 3) a vaidade fê-lo investir-se em funções de comandante militar cuja incompetência e teimosia conduziram ao maior desastre britânico da IGM, a derrota frente aos turcos na Batalha de Galipoli que custou a vida a dezenas de milhares de militares e colocou a Turquia em condições de exigir negociações, quando lhe estava traçado o mesmo destino do Império Áustro-Húngaro, a redução a potência insignificante; 4) alinhado com os governos britânicos que apoiaram tacitamente o armamento da Alemanha que lhe estava vedado, linha que eufemisticamente foi batizada de "política de apaziguamento" (1.ºs Ministros Eden e Chamberlain deslocaram-se propositadamente a Munique para esse fim); 5) nunca levantou a voz contra Hitler nem quando a Alemanha anexou a Áustria, nem quando ocupou a Checoslováquia, nem quando se encaminhava para invadir a Ucrânia; no momento em que o vieram informar que o exército alemão em vez de prosseguir para a Ucrânia ocupara a Polónia (não fazia parte dos planos), ainda teve tempo de perguntar: "Hitler está na Polónia? Hitler tem que explicar o que é que está a fazer na Polónia" . Confrontado com a verdade, declarou a guerra; 6) também se escreve (mas não tive ainda possibilidade de confirmar se é verdade) que como Ministro do Interior antes da IGM ordenou o massacre de centenas de irlandeses concentrados num estádio para uma atividade desportiva, respondendo ao terrorismo dos independentistas irlandeses com o terrorismo dos estatistas ingleses.
Nunca leio isto em nenhum desses livros laudatórios.
Amalivros: a história pode sempre ser escrita a várias mãos ou reduzindo os grandes planos a pequenos actos.
EliminarNa biografia de Gilbert, ou nas suas memórias, nunca encontrei menção a qualquer apoio à política de apaziguamento. Antes pelo contrário. Churchill sempre avisou para a deriva de Herr Hitler. Que se transformou em fraqueza pelas mãos de Eden e Chamberlain, que foram ingénuos (ainda não havia internet :) ), com responsabilidades também para outras potências da altura, como a França.
Algo que Churchill lastimou foi nunca se ter encontrado com o psicopata Hitler. Tentou-o, mas Hitler já não o recebeu. Não teria com certeza mudado o curso da História, já que bastava ler Max Hastings no seu "1914..." para perceber que não foi apenas Hitler que fez a Alemanha do holocausto, iniciado em 39.
E, como Amalivros sabe, a história tem o seu tempo próprio, devendo ser "julgados" os seus actores à luz "dessas coordenadas" de tempo próprio.
Quanto a Galipoli, foi uma tentativa de criar uma nova frente na 1ª. guerra mundial que saiu gorada. Churchill ficou sempre a sentir esse peso da derrota. De tal modo que tentou retardar ao máximo o desembarque aliado na Normandia, bem como seguiu aqui e ali uma política cautelosa relativamente às forças Britânicas... já tinha visto demasiado sangue na 1.GM.
Quanto ao Nobel literário, Amalivros, é ler os seus livros (e são imensos), para perceber o merecimento do prémio Nobel. Bastam as memórias a que aludi acima, para se perceber a excelência da sua escrita. Quanto ao Homem do charuto, do Whiskey, do mau feitio, da teimosia, da aparente arrogância, são apontamentos da história que não se devem confundir com a virtude, coragem e determinação dos personagens.
Acima de tudo e com certeza com os erros que cometeu Churchill fica como um símbolo de determinação, arrojo e visão.
Concordo inteiramente… Churchill terá sido um dos maiores e mais marcantes vultos do século XX, pela positiva!
EliminarO assunto merecia continuação. Interessa-me abordar os aspetos nebulosos, alguns dos quais mencionei, o que só se conseguirá abordando as biografias de forma crítica, após o que os aspetos hagiográficos poderão ser expurgados.
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