Classificações
«Deixaria os seus filhos (e filhas, porque as raparigas lêem tanto como os rapazes) ler este livro? Deixá-lo-ia à mão, pousado em qualquer lado, à vista, lá em casa? Acharia bem que a sua mulher – e até os seus criados – o lessem?» Pois bem, desde já confesso que traduzi do inglês um pouco a correr, mas o importante é que percebam o que está em causa; a frase foi partilhada um dia destes pela jornalista e escritora Isabel Lucas no seu mural do Facebook a propósito da indignação pública perante a classificação para maiores de 18 anos de uma parte da exposição do fotógrafo americano Robert Mapplethorpe na Fundação de Serralves (facto que, aparentemente, acabou por levar à demissão o respectivo comissário). No entanto, até que a história seja bem contada (há muita coisa por esclarecer), queria dizer-vos que a frase que aqui reproduzo hoje integra um requerimento apresentado em 1960 para que fosse retirado do mercado um romance considerado então altamente escandaloso: O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence. Eu tinha então apenas um ano e muitos dos Extraordinários não tinham sequer nascido. Mas em todas as épocas há polémicas (quase sempre quando o sexo se mostra, escrito, pintado, fotografado…). Dizia ainda a jornalista Isabel Lucas que o exemplar do romance de Lawrence anotado com as passagens escaldantes que serviu de base à acusação vai a leilão. Espero que quem licite por ele e o adquira nos mostre um dia o que em 1960 era assim tão chocante. Por certo, ainda nos vamos todos rir.
Chocante em 1960? Então "Os 120 Dias de Sodoma" publicado em 1785 e a "Filosofia na Alcova" em 1795? Do divino Marquês. Não era o Delleuze que dizia "Sade, meu próximo"?Por acaso não li o Lawrence mas o Sade sim.
ResponderEliminarHá meia dúzia de anos vi uma exposição no Grande Palais de Robert Mapplethorpe. As salas onde estavam fotografias de genitais masculinos tinham uma cortina nas suas portas de entrada e um aviso na parede referindo o conteúdo sexualmente explícito das imagens que estavam para além da cortina. Será que o Grand Palais pratica a censura ou não será antes que tem o bom gosto de avisar quem o visita para que faça as suas escolhas sem surpresas eventualmente desagradáveis ? Irrita-me que os curadores nacionais (e, provavelmente, não é só por cá) achem que os modos como dispõem as obras de arte nas salas dos museus e das galerias são verdadeiros (e supremos) atos de criação artística, muito para além da criatividade dos próprios criadores da arte que se expõe. Se não veja-se a resposta que a anterior diretora artística de Serralves, a senhora Cotter, deu quando se lhe falou da exposição de Joana Vasconcelos programada para Serralves em 2019: disse a senhora que com ela a Joana Vasconcelos só entraria em Serralves com uma única peça integrada numa exposição de artistas portugueses atuais. Conclusão: que idiota que é o diretor artístico do Museu Guggenheim de Bilbau ao dedicar uma exposição antológica à Joana Vasconcelos, que idiota que foi o curador de Versalhes que lhe dedicou o espaço dos jardins do palácio em exclusividade. Ah, possivelmente é porque a Joana é espanhola ou francesa e as suas exposições em Bilbau ou Versalhes foram resultado de uma deriva nacionalista que quis apenas promover uma artista da casa. E depois dizem os curadores que eles são alvo de censura... Chega ! Eu, que não pude ir a Versalhes ou a Bilbau, não quero perder a oportunidade de ver uma grande exposição da Joana Vasconcelos na minha cidade, por muito que isso custe à senhora Cotter ou ao senhor Ribas. Por mim, ainda bem que estamos livres destes dois "artistas".
ResponderEliminarPor princípio sou contrário a qualquer forma de censura, apesar de reconhecer e aceitar que pode haver excepções.
ResponderEliminarNa leitura, deve imperar o bom senso, e muitas vezes em conversa sobre livros digo ou dizem-me "não é para ti", no sentido de "não vais gostar, não faz o teu género.".
Creio que isto se entende... e é o que se deve explicar, como minha falecida mãe que foi a minha grande companheira de leituras, me dizia em devida altura "ainda não é para ti", o que dava muitas vezes para conversarmos longamente sobre livros e assim me fui fazendo leitor.
A censura pela censura, porque nos arrogamos de saber o que deve ou não ser lido, visto ou assistido genericamente, não é coisa que se aceite se bem que exista e persista, ela está aí, mesmo entre os que se dizem contra ela e tolerantes! Por isso existirá sempre, as pessoas acham sempre que isto ou aquilo devia ser proibido ou não exibido... apenas muda o que se considera aceitável ou não, mais nada. O resto, é hipocrisia...
Saudações livres e libertárias cá da Cidade Morena!
Não sou fundamentalista, mas há que ter certos cuidados; em França, num infantário, três meninos de quatro anos penetraram com os dedos uma menina também de quatro anos. Não me parece que isso tenha acontecido espontaneamente. Há que ter certos cuidados, ou estamos na selva! Para crianças esses conteúdos não serão de modo algum adequados, mas para adolescentes tudo dependerá da maturidade, sendo certo que antes dos dezasseis anos parece-me que nenhum adolescente estará preparado para ver conteúdos sado-masoquistas, pois há desses conteúdos nessa exposição polémica que por acaso fui ver.
ResponderEliminarQuanto ao tal livro de que fala não o li, mas certamente não será de proibir a adultos, por isso não percebo a questão que lançou a tal jornalista: "Acharia bem que a sua mulher – e até os seus criados – o lessem?"
Este comentário (17/10/2018 às 12:22) foi escrito por mim.
EliminarOh não foi a jornalista, foi o advogado de acusação nesse tempo... A jornalisa só estava a citar.
EliminarE outros, de tempos que hão-de vir, rir-se-ão de nós.
ResponderEliminarBoa tarde
ResponderEliminarDesde o advento da Internet que palavras como proibir, censurar ou reprovar perderam parte da sua eficácia real.
Mas, tal como muitas outras coisas, esta Internet é uma faca de dois gumes.
Distinguir o trigo do joio já é por vezes complicado para adultos, quanto mais para adolescentes ou crianças.
Ao lado de muitos web sites e redes sociais, o livro de DH Lawrence é um conto infantil.
Cordialmente
CPedro
À luz da moral de 1960 era inaceitável, à luz da actual aceita-se sem pruridos nenhuns. O dinheiro mandava bastante nessa época e agora manda tudo. Daqui a outro meio século como será?
ResponderEliminarInfelizmente, o puritanismo português não me surpreende... O mesmo não posso afirmar em relação a polémicas como a que decorreu o ano passado em Viena:
ResponderEliminarhttps://www.nytimes.com/2017/11/10/arts/design/egon-shiele-ads-london-tube.html
Quanto aos curadores de vários museus portugueses, ainda por cima, fazem muitas vezes um trabalho fraco. Dou o exemplo da exposição que decorreu há um ano atrás no museu Soares dos Reis, de parte da obra de Almada Negreiros.
E muitas outras! Felizmente não é a regra, e seria injusto assumir que tudo é mau quando tenho visto trabalhos muito interessantes, curiosamente de artistas até mais jovens (na culturgest, por exemplo).
Quanto à obra mencionada de Lawrence, cito a no "por certo, ainda nos vamos todos rir"
Em 1935, então com 20 anos, a minha mãe tinha de esconder na cesta da costura A Morgadinha dos Canaviais ! Os seus tios tinham recomendado que naquele, precisamente, nao podia tocar.
ResponderEliminarE ouvir a minha mãe contar a emoção da descoberta clandestina dos amores pueris de Daniel e Margarida provocou em mim um sentimento de admiração pela minha mãe-coragem! E deu-me a liberdade, também clandestina, de ler tudo! Se ela tinha ousado ...
Ainda tenho aquele exemplar, com a grafia da época, uma maravilha.
As épocas, portanto !
Luísa Barbosa