Mais Eça

Eça de Queirós foi recentemente objecto de uma infinidade de textos de opinião na imprensa portuguesa pelo facto de o Ministério da Educação ter tornado facultativa a leitura do seu romance Os Maias (e, mais tarde, ter revisto a sua posição). Há quem pense que, de facto, metade dos alunos, viciados em smartphones e leitura rápida, já não conseguem compreender a prosa queirosiana (ou mesmo grande parte do que é literário); e há quem saiba também que muitos professores dão Os Maias apoiados nos manuais e guias do professor que lhes fazem a papa toda, mas que eles próprios, afinal, não os leram quando eram da idade dos seus alunos. Eça, nos 130 anos da publicação da sua obra-prima, vai ser o tema de mais uma sessão do Ler no Chiado, conduzida pela jornalista Anabela Mota Ribeiro (se calhar ainda não refeita das actividades na Feira do Livro do Porto, que ainda agora terminou). É já hoje à tarde, pelas 18h30, na Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa, e contará com a prestimosa colaboração do professor Carlos Reis, que falará decerto das figuras maiores criadas pelo grande mestre: Carlos da Maia e João da Ega, José Fernandes e Jacinto, o conselheiro Acácio, o José Matias, o padre Amaro, Maria Eduarda e tantas outras. Para quem queira aprender sobre Eça sem ser pelos insossos manuais, aconselho esta sessão.

Comentários

  1. Eça é uma excelente proposta…

    O que será dos grandes prosadores no futuro?
    Com o acordo otográfico (sim, otográfico pois permite que se escreva como soa!) , com o reduzir ao mínimo o vocabulário, com o abandono da leitura destes grandes escritores em favor dos escritores de telegramas (alguém ainda sabe o que é?) , e com o advento do digital e isso tudo que por muito que traga vantagens concorrem para limitar o raciocínio e a memória e anular a inteligência pessoal de modo a tornar a humanidade em robôs computorizados, temo que se tornem obsoletos e sejam mesmo obliterados, ficando como registo apenas para estudiosos.

    Sim, eu sei que a humanidade já ultrapassou muitos outros desafios ao longo da sua história e que depois da Idade da Pedra seguiram-se outras como a Idade Clássica, a Média (ou das trevas) depois a Renascença, o Iluminismo, a Industrial e finalmente a... esta em que estamos que em muitos aspectos assume contornos da Idade Média, a despeito da anunciada modernidade.
    Veremos o que vem a seguir e se é uma evolução negativa ou positiva… provavelmente muitos de nós já cá não estaremos, mas o obscurantismo, o autoritarismo, a intolerância em nome da tolerância, o fanatismo, o racismo anti-racista, o equilitarismo (existe??? mas percebem onde quero chegar?) , o comodismo, e um exacerbado sentido dos direitos individuais e de minorais que superam os deveres próprios de quem faz parte de uma sociedade, o policiamento e o controle absoluto, etc. esses já por aí andam a infernizar-nos e nada de bom auguram.

    Podemos contar com as gerações seguintes?
    É a grande questão e nelas reside a esperança de continuarmos a ser humanos, a haver escritores e leitores de grandes livros, que usem com maestria a linguagem e não apenas a comunicação, para deleite de todos e para que os grandes pensamentos e ideias permaneçam nos cérebros e no quotidiano, e não apenas em registo informatizado.

    Saudações esperançosas cá da Cidade Morena!

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    1. Julgo que começa a faltar mais uma obra enquadrada nas “distopias”. Pois se hoje ainda temos pessoas nas nossas sociedades que vindo de gerações onde os livros, a leitura, a escrita, o vocabulário, o uso da memória, tudo atributos que obrigam e desenvolvem um determinado tipo de raciocínio, se ainda temos destas pessoas, poderemos em breve (talvez mais uma geração) deixar de ter. Como será a nossa sociedade sem elas? Toda a tecnologia parece suportar as nossas sociedades a par do desaparecimento desse tipo de raciocínio, que me parece que foi fundamental no surgimento da “humanidade”. Mas, e se caminhamos sem saber para um abismo que coloca a própria humanidade em causa? E se alguma nação do mundo resolver acautelar esta situação, e investir num futuro incerto criando uma reserva de “raciocinadores” à moda antiga? O que será nesse futuro incerto que uma destas nações pode face às outras, cujas pessoas nada sabe, nem nada podem fazer sem uma ou várias extensões digitais de raciocínio. Já estou a imaginar, um apagão digital de 24h, e nações inteiras sem conseguir andar, comer, falar, ouvir, os seus habitantes dirigirem-se uns aos outros. Algumas funções aguentariam uma “apneia” de 24h, mas outras não. E se fosse um mês? Ainda nesta distopia, uma das coisas que esse exército de reserva dos raciocinadores da tal nação previdente faria por certo como rotina era por exemplo ler Eça de Queirós.
      Miguel Henriques

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    2. Caro António Luiz Pacheco, é um erro considerar a Idade Média a idade "das trevas". Terá havido uma época de algumas trevas, na Alta Idade Média (sec. V a IX), mas, mesmo assim, eu teria cuidado com a expressão. A partir do séc. X houve grandes evoluções, tanto demográficas, como citadinas, como filosóficas, a ponto de os historiadores considerarem ter havido uma espécie de Renascimento no sec. XII. A evolução continuou no séc. XIII, com o desenvolvimento do estilo gótico e a criação das universidades em toda a Europa. Em Portugal, D. Dinis decretou o português como língua oficial da chancelaria. Como vê, tudo menos trevas, uma designação que pertence cada vez mais ao passado.

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    3. Caro Miguel Henriques, desde o surgimento da espécie humana que «caminhamos sem saber para um abismo que coloca a própria humanidade em causa».

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    4. Caríssima Cristina Torrão: tem vocelência muita e histórica razão, mas eu falava na generalidade…


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    5. Caríssimo: "Eça" seria outra grande idéia… penso que Miguel Real já andou perto, com o seu "O último Europeu". Um outro pensador como ele e Você mesmo, poderiam muitíssimo bem desenvolver o tema… fica o desafio, a todos os Extraordinários que escrevem.

      O seu comentário, resume e completa de forma magistral aquilo que penso e digo, parece que o partilhamos, agradeço-lhe a forma como o desenvolveu pois foi um prazer ler.

      Abraço aeroportuário cá da cidade de "Nuanda" .

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  2. Lá estarei. Gosto de todos os programas da Anabela.O seu blogue AMR é um dos mais interessantes da nossa blogosfera e está nos meus favoritos ao lado das HE.

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  3. E que pena tenho de não poder lá estar...
    Relativamente aos resumos, que gozo poderá dar ler um resumo de um livro, decorar umas coisitas para passar no exame ou para fingir que se leu essa obra literária.
    Enfim, tudo isso me transcende.
    Maria

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  4. Li Os Maias precisamente no secundário, com 16 ou 17 anos, e é um dos meus livros preferidos até hoje, com 31. Já li outros livros do Eça, entretanto, e é sempre um prazer enorme "passar tempo" com ele. Já na altura havia os coleguinhas preguiçosos e fracos leitores que atacavam apenas os livros de resumo...o que me deixa preocupada é que hoje esses são a maioria. E não é a facilitar-lhes a vida, tirando Os Maias do programa obrigatório porque "já não conseguem compreender a prosa queirosiana (ou mesmo grande parte do que é literário)" que vamos conseguir mudar isso... Aliás, só faz o contrário, só os torna mais limitados. Que pena.

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  5. Bom dia. Até chá, tem mais sabor na lustrosa.


    Cláudia da Silva Tomazi

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  6. Boa tarde

    Muitas vezes acontece-me estar a ler um texto e recordar-me de um livro que li.

    Bem, o post de hoje das HE recordou-me ... três livros.

    I) Os Maias, que li no 11º ano. Posso dizer que a leitura me cativou tanto que até um Dicionário de Eça de Queiroz comprei, além de outras obras do autor. Foi a vitória da leitura sobre o ZX Spectrum.

    II) Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Uma distopia onde Shakespeare era proscrito, e a literatura em geral não existia. Um mundo onde o pensamento e o sentido crítico estava reservado para as elites, sendo a restante população condicionada desde a nascença para se comportar de determinda forma.

    III) Player Piano, de Kurt Vonnegut. Um presciente livro sobre a automatização e o seu impacto no ser humano e na sua qualidade de vida.

    Saibamos motivar para a causa da leitura, por forma a não vislumbrar-mos um futuro tão negro e iliterado.

    Boa sessão
    CPedro

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    1. Errata: Onde se lê "Vislumbrar-mos" deve-se ler vislumbrarmos
      CPedro

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  7. Anabela Mota Ribeiro----o tal fiasco curso de cultura geral (RTP2 de há meses atrás)----é realmente uma mulher bonita...

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