Incapacidades

O meu pai era um homem muito inteligente (não sou só eu a dizê-lo, isto para que percebam que não se trata de uma filha a elogiar o pai); mas tinha uma extrema dificuldade, por exemplo, em atravessar a rua ou fazer um simples levantamento no Multibanco. Conheci pessoas brilhantes que nunca conseguiram tirar a carta de condução ou preencher os papéis do IRS. Ainda hoje há um senhor que é considerado um dos nossos grandes autores literários que só faz voos que tenham escalas se alguém o acompanhar, pois de outro modo é provável que se engane nas portas e fique em terra. Mesmo mandar um fax, no tempo anterior aos computadores, foi para um intelectual de excepção que todos nós conhecemos, Eduardo Lourenço, uma tarefa complexa (creio que já falei disso aqui no blogue). Existe, enfim, um certo tipo de inteligência que não se articula com o pragmatismo e a vida de todos os dias, e não podemos chamar burro a alguém que não sabe atar os atacadores dos sapatos, porque uma coisa não tem nada que ver com a outra. Um dia destes, tropecei, de resto, numa frase de Natália Correia no mural do Facebook da escritora Filipa Martins que exprime bem o que digo. Partilho por ser belíssima e também porque percebo melhor o meu pai através dela: «Eu sou desastrada, sou uma pessoa débil, uma pessoa falhada, alegremente, conscientemente falhada em muitas coisas. Não sei tratar de nada, na ordem das coisas práticas, não sei assinar um cheque, sou perfeitamente desastrada. Só sei escrever.»

Comentários

  1. Percebo o que diz, e como toda a gente, conheço pessoas assim. Mas por vezes esses comportamentos estão ligados a profundas carências afectivas, a sentimentos de rejeição e incompetência, numa fase precoce da vida, que fizeram com que essas pessoas, inconscientemente, “fugissem” das coisas práticas do dia-a-dia (em processos complexos que a psicologia explica) e se refugiassem num mundo seu, onde se pudessem sentir confortáveis - por vezes o da escrita, ou o da leitura. Se se confunde esses comportamentos com uma grande inteligência, é talvez porque esse (o da escrita, o da leitura) é o refúgio dos mais inteligentes - os outros talvez se virem para outras formas de isolamento ou outras dependências, mais nocivas.

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    1. Não concordo, Filipa. Acho que todos nascemos com características inatas e, o que se passa é que, muitas vezes, quem escreve melhor vive no mundo da eteriedade e da reflexão e este não é lá muito compaginável com o pragmatismo e a concretude. São particularidades e não falhas ou traumas.

      Beijinho a todos e um dia bom.

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  2. De onde se infere que está certa a teoria das múltiplas inteligências. Já sabíamos que se pode ter uma inteligência cognitiva acima da média, sendo a emocional um completo desastre. Aos autores pede-se que tenham essa inteligência existencial que promove a reflexão e ponderação sobre questões fundamentais da existência.

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  3. O problema é que ninguém é perfeito, todos nascemos com defeitos, uns mais pequenos e outros maiores.

    Não penso que seja apenas um "refúgio" para nos sentirmos mais confortáveis (claro que a partir de certa altura isso acaba por acontecer, porque todos gostávamos de ter alguém que nos tratasse das "coisas chatas da vida"...), é sim uma forma de estarmos na vida.

    Alguns de nós nascem com mais sensibilidade, outros com mais frieza... e por aí fora.

    A vida pode, ou não, ajudar-nos a desenvolver essas qualidades, em detrimento de outras...

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    1. Acho que é isso mesmo, Luís. Apesar de Oscar Wilde considerar que as pessoas só se dividem em interessantes e maçadoras.
      Esperemos que as maçadoras se calem hoje para sempre , já que o professor Marcelo garantiu que na sua última aula evitaria a chatice ou o aborrecimento dos alunos. :-)

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  4. Muito desinteressante. Injustamente duas, entre humilde e arrogante, enquanto uma se lhe deixa filtrar a educação, a outra nem conta se dá em posição. Pessoas que vozes e ações, causas inacabadas. Perfeito, imperfeito ou mas que...


    Claudia da Silva Tomazi

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  5. Feliz ou infelizmente, não há teoria consensual que nos permita explicar tal fenómeno. Somos seres demasiado complexos para que as relações estabelecidas entre o nosso cérebro, comportamento, personalidade e meio, possa ser traduzida de uma forma universal e aplicada a todos. Dependemos de demasiados fatores, sejam eles inatos ou adquiridos.
    Aliás, o próprio conceito de inteligência, é a meu ver um dos mais abstratos...
    Uma coisa é certa, aquilo que descreve é muitas evidenciado, pelo que terá de haver alguma ciência por trás disso.
    Acho particularmente interessante a aparente elevada prevalência de distúrbios do foro mental e afetivo em escritores notáveis, como Sylvia Plath, Virginia woolf, Dostoievski, Hemingway, Ezra pound, Sándor Márai, e tantos outros.
    Excesso de consciência e sensibilidade?

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    1. Excelente comentário, Maria. Concordo plenamente.

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    2. O próprio Einstein era conhecido pela sua proverbial distracção e mesmo na escola primária alguns professores menos perspicazes achavam que era atrasado mental...

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  6. Hoje em dia há uma grande confusão entre ser-se hábil no uso das ferramentas da inteligência artificial (que substituem a cerebral, é a inteligência de bolso!) e ser-se atrasado se por acaso não se é ágil a dedilhar teclados ou ecrãs… sou dos segundos, mas dou diariamente "banhadas" aos inteligentes-artificiais com a minha inteligência-prática feita de duas coisas: raciocínio e experiência acumulada (memória se quiserem…)

    As pessoas inteligentes, sábias, são muitas vezes direccionadas e por isso distraídas do resto ou até inaptas para lidarem com aquilo que não está na sua lista de interesses e no que são muitíssimo boas. Os outros, os que são intelectualmente vadios, esses normalmente conseguem tocar vários instrumentos, sem serem bons em nada. Mas normalmente são os que se têm por mais espertos!

    É a diversidade, e ainda bem… se fôssemos todos inteligentes éramos todos ou presidentes de alguma coisa e não havia ninguém para ser dirigido, ou então era uma desorganização porque toda a gente era distraída…

    Saudações neandertais cá da Cidade Morena!

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    1. eh lá...sou uma assumida intelectual vadia por condição, nascimento e educação. Que eu saiba, não sou muito esperta. Meu pai costuma até dizer que tenho alguma inteligência mas esperteza não tenho nenhuma. E meu pai tira bem fotografias à la minute.
      Mas é claro que concordo, as hostes anónimas fazem falta. Um mundo cheio de presidentes carecia de graça. Aliás, penso que é nas hostes que existe alguma piada. Os presidentes, por regra (há excepções honrosas), são uns seres aborrecidos e engravatados, muito ligados a deveres e nem parecem ter vida própria ou de algum interesse.

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