Chover no molhado

Desculpem chover no molhado, mas tenho esperança de que, debaixo do molhado, haja uma pedra (e água mole em pedra dura tanto dá até que fura). Não aguento mais crianças e adolescentes agarrados a um telemóvel sem trocar um olhar com as pessoas que lhes fazem perguntas ou falam com eles. Passei o Verão a assistir a cenas deste tipo: pais que estão à mesa a querer saber o que querem os filhos comer, e filhos a responder olhando para o estupor do ecrã; grupos de crianças que, em vez de brincarem umas com as outras e irem ao banho, estão mergulhadas num qualquer interminável jogo; rapazes que já tinham idade para ter juízo (16, 17 anos) a quem os pais perguntam com jeitinho, como se tivessem de pedir licença, se eles poderiam desviar só um minutinho os olhos do telefone e tomar atenção. Aquilo é uma droga, convençam-se. É uma dependência. Se alguém que tenha filhos pequenos me está a ler, por favor, doseie o uso dos aparelhos nas mãos da criançada.  Nos EUA, a Direcção-Geral de Saúde afirma que já só 33% das crianças e adolescentes são fisicamente activos (não se mexem, daí a obesidade gritante) e que passam em média sete horas e meia diante de um ecrã (sete horas e meia significa a maior parte do dia útil). Pior: diz que existem no cérebro das pessoas umas sinapses que não estão a ser usadas neste tipo de leitura (em papel, sim) e que «if you don't use, it, you loose it»; por isso, se isto não parar, em duas gerações a humanidade será incapaz de ler livros... Por favor, façam como eu, chovam no molhado. Sejam contra o uso exagerado destes aparelhos e contra a dependência dos mesmos.

Comentários

  1. Sem dúvida!
    Mas, não são só as crianças… tenho um colega aqui, engenheiro civil, da minha idade, que é um dependente do smartphone! Vive com ele, sempre a receber mensagens, notícias… eu já lhe chamei a atenção que o não levasse para a mesa à hora da refeição! Como se "esquecesse", eu levantei-me da mesa, pus o prato num tabuleiro e fui comer para a sala, a ver televisão… percebeu! Pediu desculpa, vamos ver até quando!
    Aqui em casa, é assim, chegamos a estar 3 pessoas… o almoço é livre, mas o jantar é em casa, e, nem telemóvel à mesa nem "meninas" nos quartos! Mando eu e acabou-se, tenho carta branca e os galões.

    Na minha casa é o mesmo: proibidos os aparelhos de multimédia e comunicação na sala de jantar… excepção, só para um comandante de bombeiros ou médico!
    E executo, doa a quem doer, pareça mal a quem parecer… a casa é minha, mando eu.

    É confrangedor a situação que relata, pura falta de educação, fora o mal que de facto constitui a telemóvel-dependência no que toca a socializar, usar a cabeça (têm a memória de bolso, como lhe chamo) e o desinteresse e alheamento pelo que se passa ali onde estão! É doentio, tenham lá paciência!

    E, aqui em Angola, não é diferente… entre jovens e adultos! É uma praga.

    Saudações iracundas cá da Cidade Morena!

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  2. Eu vou fazendo o possível para contrariar isso: farto-me de oferecer livros às crianças que conheço.
    Maria

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    1. Em minha casa, nem filhas nem netas, ninguém pode usar os telemóveis. Ou vêm para estar comigo e uns com os outros ou prefiro que não venham. E alguns não gostam de vir e outros só vêm porque a boca tem saudades dos meus paladares. LA

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  3. É assustador, para nós, mas acho bem realista pensar que "em duas gerações a humanidade será incapaz de ler livros". E o que é extraordinário é isso não resultar de uma ditadura repressiva, como Bradbury o imaginou em "Fahrenheit 451", mas sim de uma escolha maioritária da humanidade. Será a vitória dos algoritmos ! O que a tecnologia nos mostrará então é que para a humanidade ser feliz basta-lhe ocupar o seu tempo a resolver problemas concretos e a partilhar os acontecimentos pessoais do seu presente. Já hoje me é complicado fazer compreender aos meus filhos, ao meu pai que tem 88 anos, e aos meus amigos que a razão porque não tenho whatsapp deriva de querer poupar tempo para ler romances. "Mas o whatsapp é muito mais divertido do que os livros". Não o dizem, mas fazem-me sentir que a minha atitude reflete alguma falta de interesse pelo dia à dia da família e dos amigos, apesar de saberem que ando sempre de telemóvel (sem acesso à internet) e, portanto, que estou sempre contactável. Pais a consultar compulsivamente, na presença dos filhos, os seus smartphones é o que se vê todos os dias. Dou comigo a pensar: como irão eles impor aos filhos períodos diários em que a acessibilidade ao aparelho mágico lhes é retirada (refeições, estudo, etc) ? Eu continuo a gostar de falar da ficção que vou lendo ou li, mesmo que por vezes observe enfado na cara daqueles que me escutam. Cada qual tem o seu mundo e o mundo dos fãs das redes sociais até poderá ser mais divertido do que o meu. "Não sabes o que estás perder !".

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    1. Como eu o compreendo, Artur, também me sinto uma outsider nesse mundo em que tudo tem de ser divertido. Não há espaço para a leitura, a reflexão, para apreciar o silêncio (que tanta falta me faz), ninguém para conversar sobre livros ou filmes (excepto se tiverem 524 explosões por minuto) - tudo tem de ser divertido, divertido, divertido!
      Tanta diversão cansa-me, ou seja, estou velha
      Maria

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    2. Cara Maria, a palavra chave é essa mesmo: divertido. Tudo tem que ser divertido hoje em dia. Abraço.

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    3. Tudo tem de ser divertido, e tudo o que se diz divertido é um acontecimento, qualquer evento em Marmelais de Baixo, do Meio ou de Cima estará esgotado, qualquer festival aonde vá o Tói, a Bia, o Zé Cabra estará à pinha e a euforia será geral; e aqueles pais que vão pôr os filhos/as à porta de qualquer Meo Arena um dia antes de qualquer concerto com qualquer parolo...
      Eles não sabem, não veêm, não olham, não cheiram, não sentem, muito menos sonham

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    4. Caro Amigo, muito bem visto ! Abraço

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  4. Acho que é um erro falar apenas de crianças e jovens, quando hoje o uso do telemóvel com internet é feito por todas as gerações. Basta andar de transportes públicos e olhar para o mundo que nos rodeia...

    Em relação aos jovens, tenho dois aqui em casa, ele com 20 ela com 14. E é realmente um drama. Passam de facto demasiado tempo ao telemóvel e ao computador (em relação ao meu filho, tenho poucas hipóteses de o "proibir"... mas quando chamo a atenção da minha filha que está há muito tempo ao telemóvel, deixa-o, mas passados poucos minutos está no computador... Nas férias tentei que ela lesse... mas percebi que é complicado estar a obrigá-la (e ela gostava de ler, desde sempre...), isso só faz com que não passe do primeiro capítulo.

    O nosso truque nas férias é andar de um lado para o outro, ir aqui e ali, não os deixarmos ficar no canto deles sossegados, mas com o regresso ao trabalho... regressam as rotinas...

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  5. Cara MRP

    Não precisa de pedir desculpa.

    Partilho integralmente o seu ponto de vista e acredito que estes novos hábitos, ditos tecnológicos, são extremamente nocivos para a sociedade como um todo.

    Mais do que pelos hábitos em si (muitos deles já praticados doutra forma menos digital), sobretudo pela frequência exagerada e pela canibalização que fazem de outros hábitos (analógicos) saudáveis: o desporto, as conversas, as brincadeiras, etc etc.

    O digital, o écran, de tão magnético torna-se tendencialmente monopolista do nosso tempo,

    E, o que é mais dramático, muitas vezes com a nossa complacência.

    Cabe a cada um de nós educar os nossos filhos para enfrentar esta verdadeira epidemia. Eu faço um pouco a analogia entre o telemóvel e o açucar, agora que eles já deram a roda dos alimentos. É obrigatório estabelecer limites de utilização, e nisso sou bastante estrito. Felizmente gostam mais de jogar à bola, andar de bicicleta ou estar com amigos do que colarem-se a écrans, Mas enfrento alguma contestação. Faz parte.

    Contudo, a tecnologia oferece hoje imensas ferramentas e bibliotecas de conhecimento de que não devemos prescindir.

    Como sempre, no meio é que está a virtude. Cabe-nos encontrar esse caminho e trilhá-lo.

    Quanto aos livros, ensaimos agora um método novo cá em casa: a leitura partilhada de "As aventuras de Tom Sawyer".

    Água mole em pedra dura...

    Um grande bem haja
    CPedro

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    1. A leitura partilhada e em família será a grande solução. Mas requer pais especiais: com disponibilidade de tempo e que gostem de ler. Parabéns !

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    2. E não requer também filhos especiais, Artur, que queiram "ouvir"?

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    3. Absolutamente ! Tem toda a razão.

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  6. Ler é divertido!
    Depende do que se lê, pois claro. Acredito que cada pessoa tem um livro e atrás desse vem outros tantos.
    Livros ainda há, o que está a acabar é o tempo e a infância.
    E que pena, porque a infância é tão curta.

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  7. Ora parece que estamos de acordo… nem o problema é só dos crianças/jovens e sim transversal, como depende da educação… quanto a ler ser divertido, isso aqui nem se comenta e ai de quem o não ache! Era icinerado! Ahahahah!

    Sobre a educação vou-lhes contar algo de notável:
    - Recentemente estiveram aqui uns dias em Benguela a mulher e filhos do meu velho amigo Pedro Vaz Pinto - para quem não saiba, e porque vale a pena dizer que é, é um engenheiro agrónomo silvicultor, que vai para quase 20 anos eu ajudei e orientei a vir a Angola, pois tinha a paixão de África. Partilhámos projectos de conservação da fauna, através da implementação de coutadas. O pai do Pedro é um grande caçador e pessoa conhecida no meio. Hoje o Pedro é renomado mundialmente pelo seu envolvimento na recuperação da reserva da Quiçama e sobretudo por ser o homem do projecto de recuperação da palanca preta-gigante! Casou com uma angolana e tem 4 lindíssimos filhos.
    Os 4, 2 meninas e 2 rapazes dos 10 aos 15, escalonados, são de uma educação irrepreensível que espantou a minha mulher - educadora!
    Educados à antiga, por um apaixonado pela Natureza, mas dos que nela trabalham mesmo, estão habituados a acampar, a andar por lugares esquecidos e sabem muito bem como fazer e se comportarem!

    Nesta ocasião primaram por ter passado uma semana inteira na fazenda do Carivo, sem net nem nada, a identificar lagartos, cobras, aves e à procura dos grandes antílopes. Depois fomos passar um fim de semana na pescaria da Binga, sempre sem net nem nada disso, acampados num local remoto, a mergulhar e a apanhar peixes e chocos de que fizemos grelhados nas brazas da fogueira e uma caldeirada de choco!
    Divertiram-se , apanharam e identificaram um cobra, andaram aos caranguejos de noite, mergulharam, foram às quitetas (conquilhas)… e andaram aqueles dias, felizes, bem dispostos… conversámos à noite sobre usos e costumes e a história daqueles locais e gente que lá viveu, sobre bichos… coisa que muito os interessou.
    A Margarida (12 anos) anda com um caderno onde toma notas sobre os lugares e faz o relato da viagem e desenhos de coisas, paisagens, etc. Temos uma potencial repórter ou escritora de viagens. O Afonso (14), quer ser herpetologista como o meu sobrinho, a Francisca (15) quer ser bióloga marinha… o artolas de 10 anos, ainda não sabe, mas é muitíssimo curioso e vivo… foi levando uns calduços para ver se ajudo a fazer dele um homem!
    Ainda há gente assim… famílias assim! Por quanto tempo? Não o sabemos, mas é gratificante.

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    1. Caro António Luíz, que belo exemplo de que nem todas as famílias estão perdidas !

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  8. Não vai adiantar muito, Rosário. Reconheço nesse ´arrebatamento`qualquer coisa muito, muito semelhante ao que me invadia quando era miúda e pintava ou escrevia, com uma pequena diferença; eu respeitava os horários das refeições e prestava muita atenção a tudo o que os adultos diziam. Mais ao que diziam do que ao que me diziam.

    A humanidade está mesmo em mudança acelerada e, em não mais do que duas ou três gerações, uma boa parte dela estará inapta para a leitura da palavra escrita. "They don`t use it, they lose it".

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  9. Não podia estar mais de acordo. É uma verdadeira praga a que, a maioria dos progenitores, assistem como se não pudessem fazer nada.

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  10. Boa tarde.
    Trabalho numa clínica e fico sempre estupfacta com os pais que trazem para cá as criancinhas e lhes passam o telemóvel para as mãos, para se entreterem com jogos enquanto esperam. Crianças abaixo dos 10 anos.
    Apetece-me chamar-lhes a atenção, mas calo o bico, que as pessoas são muito sensíveis face a reparos que envolvam a educação dos seus rebentos.
    Certa vez esteve aqui uma avó com o neto que trazia um livro com ele. Às tantas, e depois de várias chamadas de atenção por parte da criança que queria partilhar pormenores da história com a avó, esta reclama e diz-lhe: " se não te calas nunca mais te compro um livro". Dessa vez não me calei.
    Temos que pensar se não teremos também uma quota parte da responsabilidade face aos actuais comportamentos dos jovens. Se calhar temos que educar alguns pais primeiro. E desconfio que sejam muitos.

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  11. Quando era pequena e ia passar as férias de verão à Pampilhosa da serra, passava o dia todo na rua, sempre de um lado para o outro, a brincar com os meus amigos. Este verão, quando entrei na casa do povo, o único local com acesso à Internet, encontrei todas as crianças e adolescentes agarrados aos telemóveis, isolados nos seus próprios mundos virtuais. É mesmo assustador.

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