Pseudónimos

Quando era ainda universitária conheci um poeta mais velho que, ao saber pelo meu pai que eu escrevia, pediu que lhe mandasse alguns textos. A sua resposta foi gentil e estimulante (mesmo assim demorei anos a publicar) mas, entre as várias afirmações simpáticas, continha uma que não o era: dizia que o meu nome (Maria do Rosário) não era um bom nome literário – e que eu, no momento em que me decidisse a dar à estampa os meus textos, deveria escolher outro. Não foi que não quisesse seguir o conselho de alguém mais sábio; mas, como comecei a publicar pelos livros juvenis, pediram-me na editora que assinasse com o meu nome por ter sido professora e assim poder ser reconhecida pelos ex-alunos (ainda eram bastantes) – e acabei por pensar que fazia sentido. Quando publiquei o meu primeiro livro de poesia, tantos anos mais tarde, pareceu-me estranho ter dois nomes e mantive o do BI. Nunca gostei de ser Maria do Rosário, e um pseudónimo talvez me aliviasse dessa carga pesada; porém, quando olho para os Top de livros e descubro nomes como Raul Minh’Alma e Afonso Noite de Luar, começo a pensar que fiz bem... Já não haverá pseudónimos normais?

Comentários

  1. Também não gosto muito do seu nome e ainda menos do meu. Virá o dia em que o cidadão poderá alterá-lo a seu gosto nos registos oficiais de identificação, sentir-se-à então mais bem identificado. Mas não acho que a situação atual traga grandes males. Também vivemos com a nossa figura, a nossa maneira de ser, o timbre da nossa voz, etc. Não gostaremos de tudo o que temos mas não é difícil fazê-lo.

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  2. Emílio Gouveia Miranda5 de julho de 2018 às 03:31

    Pois... O tanto que este texto nos suscita, como de resto, a maioria dos que aqui nos oferece todos os dias... Mas a mais sucinta é (e perdoem-me a eventual presunção que poderão suscitar tais palavras): pois, se às vezes se torna difícil perceber se ainda existem muitos escritores normais e muitos leitores normais...

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  3. António Luiz Pacheco5 de julho de 2018 às 03:39

    Por acaso gosto do seu nome: Maria do Rosário, e gosto muitíssimo até!
    Gosto da maioria dos nomes portugueses , gosto menos das Catias, Sónias, Brunas … gosto de quase tudo que tenha Maria ou António. E, sim, já gora gosto do meu nome: António como meu pai e os dois avôs , de Luiz em homenagem ao Maestro Luiz Silveira que foi grande amigo do meu avô.
    É aliás por isso que gosto da maioria dos nomes, porque muitas vezes têm conteúdo, têm uma história associada que nos distingue e concede algo que nos quiseram passar os nossos pais, padrinhos ou quem nos baptizou - não falo no sentido religioso e sim no acto de dar o nome!

    O nosso nome é algo de pessoal , aquilo que mais é nosso e que nos distingue e faz ser gente, pelo que não concordo que seja possível mudá-lo, é a nossa identidade e tal como o número do bilhete de identidade fica para sempre associado à nossa pessoa.
    Talvez mudá-lo nos permita reinventar-nos, dirão alguns, porém qual o interesse nisso? Passarmos a ser outra pessoa? Só prova que estamos frustrados connosco mesmo e não é por mudar o nome que vamos ser outrem, seremos o mesmo com outro nome, portanto qual o interesse nisso? Não vislumbro… mesmo que me chamasse Epaminondas ou Dinocleide seria ainda mais orgulhoso desse nome, porque diferenciador.

    Enfim, opinião de um barrão ignaro, boçal, tradicionalista e piroso, que anda bem consigo próprio!

    Quanto aos pseudónimos, se bem que não pratique aceitam-se como forma de não expôr o sujeito… mas desde que não sejam revelados, senão vamos cair na tal situação da reinvenção pessoal que não me diz nada e acho mesmo sinal de fraqueza.
    Quando muito assino A.L.Pacheco … e há quem me trate por A-L …

    Sejam felizes com os vossos nomes e a vossa história, se não têm… pois façam uma, mas isso implica fazer escolhas, ter alma e ousadia, enfrentar consequências e assumir quem somos.

    Saudações felizes cá do Bairro Ribatejano!

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  4. António Luiz Pacheco5 de julho de 2018 às 03:46

    Quanto aos pseudónimos que a Nossa Extraordinária Anfitriã refere, o que m'a mim parece é que o mau gosto se revela também, e não apenas nos títulos actuais de que usam os escritores da nossa praça… parece que trabalham mais o nome do romance do que o próprio romance, suponho que na ânsia de serem diferentes, originais, apelativos às vezes pelo absurdo. Depois e afinal, raramente o conteúdo tem algo a ver com a acção.
    Parece que a verve se esgota na criação do título.
    Dêem uma volta pelas livrarias e detenham-se a ler os títulos… é como ir ao supermercado e vêr "romãs" no melão ou "grelos" nas alfaces. Devia ser punido com coima por induzir em erro! Publicidade enganosa.

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  5. Caro A. L. Pacheco,
    Tenho o nome que me puseram e não me dou mal com isso. Mas se uso o nome que me deram porque não usar o nome que me dê?

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    1. António Luiz Pacheco5 de julho de 2018 às 04:56

      Hum… e quem és tu para te nomeares? Achas mesmo que a forma como te vês é a real? E que é aquela como os outros te vêem?

      O Obélix nunca se vê como gordo e sim "forte" … se é que me entendes…

      Antónios há muitos, Severinos nem tanto… e é um nome marcante, que te identifica e reforça a personalidade que se percebe que tens. Acreditas que seres Alexandre ou Fernando te daria algo?

      Enfim, é só uma opinião… nem a única nem a melhor, mas creio que já me expliquei o suficiente para que possas discordar.

      Abraço.

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    2. António Luiz Pacheco5 de julho de 2018 às 04:58

      Bolas… peço imensa desculpa pela confusão, não sei porquê li Severino em vez de Amalivros!

      Mas de qualquer modo, acho que me expliquei? Desculpe.

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    3. Ó Pacheco é bom lembrares-te de mim.

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  6. Caro A. L. Pacheco,
    Quando se escolhe um nome que pertenceu a uma pessoa mais velha da família ou a um antepassado é uma homenagem, é uma ação bonita e comovedora. Tentei que um dos meus netos ficasse com o nome do meu pai e do meu avô, Rafael, mas infelizmente não foi aprovado.
    Mas se um brasileiro da família Oliveira tem um filho em 1983 e lhe dá o nome de Oliveira de Oitenta e Três fica assim registado oficialmente e a criança não tem meio de lhe fugir. Uma guia competente e simpática que conheci chama-se Rosa Maria, nome que surpreendeu o grupo em viagem. Ela explicou que quando nasceu via-se muito e com agrado as telenovelas brasileiras e mexicanas. Os pais simpatizaram com uma personagem de que gostavam do nome também: Rosa Maria. Nome bonito, todos aplaudiram. Mas eu fiquei desconfiado se ela não se considerava um Cátia ou uma Vanessa lá do seu país, a Croácia.

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  7. Como não são os nomes que dão graça às pessoas, mas as pessoas que dão graça aos nomes, gosto de Maria do Rosário, por ser o nome de uma prima e de uma tia, pessoas muito queridas, e de uma das minhas poetisas de eleição... precisamente a Maria do Rosário Pedreira. Fez bem em não ter optado pelo pseudónimo. :)

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  8. Conheço quem avente a hipótese de colocar o "de" para reforçar o peso do nome literário e substitua o i pelo Y. Qualquer coisa de Menezes e Almeyda, por exemplo, soa bem, mas no fundo, o que conta são os predicados literários e nisso não há pseudónimo que tenha peso.

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  9. Não tenho nada contra quem escolhe pseudónimo, nem contra quem assina com o nome de baptismo. Depende do escritor. Miguel Torga escolheu pseudónimo e escolheu bem. Agustina manteve o de baptismo. Nenhum se deu mal. Porque ambos escrevem com primor, têm grande cultura geral, sabem pensar e são criativos. Sendo que cada um criou um universo próprio todo feito de palavras. Portanto...

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    1. Assim de repente lembrei-me de mais dois que também escolheram bem: Eugénio de Andrade e Mário Cláudio.

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    2. António Luiz Pacheco6 de julho de 2018 às 05:51

      Caríssima Beatriz, suponho que a escolha de Adolfo Coelho da Rocha tenha tido a ver com a questão da sua ideologia política que poderiam prejudicar a actividade literária?

      A escolha de Torga, uma raiz de planta da família da urze, não foi casual, creio eu , e sim uma escolha com profundo significado pela humildade de uma planta dos montes que aqueceu tantas noites frias.

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    3. Se me permite meter o bedelho: MIGUEL em homenagem a Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno; TORGA em homenagem à planta rasteira.
      E já que estamos nos Miguéis, o Miguel Real também é um pseudónimo.

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  10. Não percebo porque razão os pseudónimos têm de ser normais, Rosário.

    Para isso bastam os nossos nomes. :)

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