No original
Foi, julgo, na minha geração que o inglês ganhou decididamente ao francês (as músicas, os filmes, as séries inglesas e americanas com legendas, tornaram-se muito mais cativantes para os jovens portugueses de então do que Aznavour ou Brel, de que gosto tanto, e uma série que devorei na infância-adolescência chamada Belle et Sébastien, com uma cadela São Bernardo e uma criança). Hoje, no nosso país, toda a gente fala inglês – há uns dias a rapariga que estava na caixa do supermercado desenvolveu um diálogo tão irrepreensível com uns clientes estrangeiros que os deixou de cara à banda. (Mas de que estariam eles à espera, hã? Os portugueses têm um inegável talento para as línguas!) Também por isso, o número de livros lidos originalmente em inglês aumentou muito nos últimos anos em Portugal; não só as pessoas viajam mais e compram livros no estrangeiro, como existe uma grande oferta de edições em inglês, em paperback e bolso, às vezes muito mais baratas do que as traduções, em várias livrarias online. Por outro lado, há quem goste de ler sem a mediação de um tradutor e quem não tenha paciência para esperar pela edição portuguesa. Recentemente, publicaram no Clube do Autor o romance do norte-americano André Aciman Chama-me pelo Teu Nome, que deu origem a um filme que passara uns meses antes nas salas de cinema portuguesas. Mas, entre a exibição do filme e a publicação da tradução, já se tinham vendido cerca de 2500 exemplares em inglês (Call me by your name é o título original). Qualquer dia, não valerá mesmo a pena traduzir certas coisas.
Não admira que o "Call by your name" tenha vendido tantos exemplares e que o filme (que vi) tenha sido um sucesso: é um filme panfletário de promoção da homossexualidade como consequência natural da relação entre homens de actividade intelectual superior. Nada contra, cada qual tem direito de promover as suas convicções pessoais. Já agora, umas palavras a propósito de filmes nascidos de romances de sucesso. Sempre pensei que o "Na praia de Chesil" de Ian McEwan, cuja versão cinematográfica foi aqui referida semanas atrás, não poderia dar um bom filme porque trata o mundo interior de dois jovens recém casados ingleses dos anos sessenta do século passado (quando eu próprio era uma criança). Engano meu: o filme é belíssimo, com grande sensibilidade e grandes interpretações, e o McEwan, que escreveu o roteiro cinematográfico, enriqueceu a história criando para o filme cenas do ambiente familiar dos dois personagens principais. Infelizmente também acrescentou uma coda final delicodoce que ocupa os últimos dez minutos do filme. Esse final não está de todo no livro e pareceu-me incoerente com os personagens e a história. Assim achei-o desnecessário, mas percebo que é um final bem ao gosto hollywoodesco ("tearjerker ending").
ResponderEliminarJá li o livro mas ainda não tive oportunidade de ver o filme. Prefiro ler em francês, sinto-me mais à vontade até porque sigo a LIRE e o MAGAZINE LITTÉRAIRE regularmente, além da página literária do Le Monde do Pierre Assouline. A Babelia do El País não é má.Quando as traduções são boas e competentes e nós temos bons tradutores do inglês, não vejo inconveniente quando não se domina o inglês literário mais complexo que o das séries televisivas.
ResponderEliminarA minha geração, ainda foi muito francesa, suponho eu… talvez a revista icónica "Salut les copains" fosse a prova disso! Entre outras… pois tínhamos francês obrigatório desde o 1º ano até ao 5º, enquanto inglês era do 3º ao 5º!
ResponderEliminarMas isso alterou-se radicalmente, e, sem dúvida que hoje o inglês domina!
Eu que uso bastante o inglês, assumo no entanto que não gosto de ler neste idioma! Faço-o por obrigatoriedade, nunca por gosto, não gosto pura e simplesmente!
Quanto às traducções, bom, vou ser polémico, quiçá injusto, mas a propósito vou aqui levantar uma lebre:
- Muito bem que se domina a língua inglesa, na sua versão clássica ou moderna. Mas, e, a língua portuguesa na sua extensão? Sê-lo-á igualmente? Deixa-me muitas dúvidas e suponho que há uma espécie de contaminação tóxica pelo inglês, em que as traduções não espelham a riqueza do português em todos os seus muitos termos para designar quase tudo e mais alguma coisa (vide o tema de ontem…) e se traduz "à letra", não pelo sentido, o que denota algo como a falta de conhecimento do vocabulário português e até uma insensibilidade narrativa, que por vezes estragam o texto traduzido:
Por exemplo, de um romance traduzido que ando a ler e que me sugere aquilo que digo sobre a tal carência de sensibilidade como de vocabulário, numa tal abundância que até me estraga o prazer da leitura, porque bem sabemos que ler algo de BEM escrito é tão ou mais importante que o tema, que o desenvolver da ação, e suponho que o romance em análise não merecia esta tradução!
Digam lá se tenho ou não razão:
"Avançando pelos desfiladeiros repletos de algodoeiros-da-Índia" … repletos? Acho por demais inadequado, porque não "cobertos" (é o mais adequado quando se designa o coberto vegetal) … e nos EUA será mais provável que seja "algodão-índio" do que algodoeiros da Índia!
"passou das pedras para a água delicadamente acelerada." Não seria melhor dizer que "corria suavemente?". Em vez de usar acelerado, aliás acelerar significa aumentar a velocidade e não um movimento contínuo como se sugere.
"Sentiu-se momentaneamente dominada por um frio na espinha". Não será melhor dizer que sentiu um súbito arrepio na espinha?
"A descida delicada e longa"... uma descida delicada? Não será "suave" mais correcto?
"O vento ergueu-se, criando pequenos túneis de pó e cristais de sal". O vento ergue-se ou "levanta-se"? Os túneis de pó não serão "redemoinhos" , e, mais exactamente no caso de serem pequenos não serão "moínhas" ou "espojinhos"?
"Inalou , inspirando o cheiro do seu corpo, movendo a língua sobre o seu suor como um cão faria". Não seria de traduzir antes por "Respirou fundo, sentindo o cheiro do seu corpo passou a língua sobre o seu suor, como um cão faria" ?
Francamente falando, ando a ler crispado… irritam-me estas passagens constantes e como disse, tira-me uma boa parte do prazer da leitura.
Sei que entre os extraordinários há quem se dedique à tradução, e sei que não é ético falar do trabalho dos colegas (?) mas, gostaria de ouvir opiniões de quem sabe.
Eu, sou um ignorante, porém compro e leio livros, e seguramente que sei do que gosto ou não gosto!
Saudações crispadas cá da Cidade Morena!
traducções
EliminarÓ Pacheco tás a ver no que dá o
Acordo Ortográfico
Quantas vezes não fico eu na dúvida de como se escreve determinadas palavras...
Escreve-se (e sempre se escreveu) traduções.
EliminarNem sempre, meu caro: escreveu-se traducções, como plural de traducção, até Setembro de 1911, quando ocorreu a primeira reforma ortográfica da Língua Portuguesa. Cumprimentos do Fernão de Quintanilha.
EliminarObrigada!
EliminarMas eu estava a referir-me ao antes e pós "aborto ortográfico" e não aos tempos da "pharmácia".
Penso que a dúvida do ASeve era recente.
Ora bolas!
EliminarTroquei o emoji e esqueci-me de lhe apresentar os meus cordiais cumprimentos.
Por acaso nunca tive dúvidas nesta tradução, mas só por acaso, já que com o AO às vezes tenho de pensar três vezes se não estou a escrever erradamente determinada palavra
Eliminar«Qualquer dia, não valerá mesmo a pena traduzir certas coisas.»
ResponderEliminarEm Portugal, se a tradução é para «acordês», mais vale, de facto, não a fazer.
Interessante, muito, tem sido, para mim, ler o original e a tradução como fiz agora com "O Grande Gatsby" do Scott Fitzgerald. Mesmo numa boa tradução, são sempre dois mundos. Inevitavelmente. Cada língua arrasta uma atmosfera. Ou somos nós, leitores falantes dessa língua, que lha colamos.
ResponderEliminarNão me doa a barriga até não haver tradutores, ou necessidade de tradução.
ResponderEliminarPessoalmente, onde noto mais os solavancos de uma tradução é nos livros técnicos. Isto porque, não raras vezes, o tradutor traduz literalmente, em vez de optar por manter o termo na língua original. Ou seja, percebemos que quem traduziu não entende grande coisa do assunto (legítimo até certo ponto) e que não existiu uma revisão técnica/científica digna desse nome.
Tais situações, mais do que a incúria do tradutor, revelam a indústria em que a Edição se tornou. A qualidade foi destronada pela quantidade.
E "depressa e bem, não há quem."
Whishful thinking: deviam ser obrigados, como no caso dos automóveis, a fazer a recolha dos livros, a indemnizar leitores.
Carlos Pedro
E quanto recebe um tradutor em Portugal ? E quanto pode pagar uma Editora por uma tradução de um livro de que fazem 3 000 exemplares e se vendem 1 500 ?
ResponderEliminarNão sei se acredito em coincidências ou não, mas a verdade é que estava a ver um vídeo (este:https://www.youtube.com/watch?v=EW6JwfXr6Y0) e encontrei esta publicação exatamente ao mesmo tempo que a youtuber estava a falar deste livro/filme!
ResponderEliminarComo estudante de línguas, apaixonada por escritas, leituras e traduções (e não é o sonho de qualquer estudante de línguas?) concordo totalmente quando diz que "Qualquer dia, não valerá mesmo a pena traduzir certas coisas", no entanto penso que é uma grande perda quando existem trabalhos que não são traduzidos (noto tal coisa especialmente no que diz respeito às edições italianas que não encontro em português). Todavia, conhecendo português, italiano e inglês muito bem, devo admitir que não há nada mais satisfatório que ler livros ou ver filmes no original.
No final do dia, o importante (na minha opinião) é que os livros e filmes com mensagens importantes cheguem à sua audiência, quer tenham de ser traduzidos ou não.
P.S.: estudei francês durante o segundo ciclo durante quatro anos, mas decididamente não recebeu tanta importância (seja da parte dos alunos, seja da parte dos professores) como o inglês!
De certa forma ainda bem... para que as pessoas tenham noção de como certos textos são horrendos, em vez de culpar a tradução!
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