Memórias
Às vezes, por ocasião de lançamentos de livros – e tentando escapar a um discurso que de algum modo atropele o do orador convidado – conto umas histórias chocantes, curiosas ou engraçadas da minha vida editorial. Um dia destes, um autor de quem já publiquei vários livros ao longo dos anos, disse-me que talvez estivesse na altura de reunir em livro essas anedotas (na maioria, é o que são) com as quais o público iria aprender qualquer coisa e seguramente divertir-se. Já antes, algumas pessoas me tinham dito que um dia devia escrever as minhas memórias. Não penso fazê-lo, pelo menos para já (na velhice, se me sentir demasiado rabugenta e zangada, ainda poderei pensar nisso); no entanto, há vários editores – esses, sim, importantes – cujas memórias podem ser realmente fascinantes. Já aqui falei de Max Perkins, por exemplo, o editor da Scribner que, além de os descobrir e publicar, aturou as bebedeiras de Hemingway, emprestou dinheiro a Fitzgerald e perdeu um tempo infinito com Thomas Woolfe, tendo sido recentemente imortalizado num filme em que o protagonista era desempenhado pelo actor Colin Firth. Mas poderia falar igualmente de Kurt Wolff, fundador em 1908 de uma editora com o seu nome, cujas memórias acabam de sair no Brasil (foi o jornalista e escritor Paulo Nogueira quem escreveu um artigo sobre o livro no Estado de S. Paulo e me chamou a atenção). Kurt é o editor de Axel Munthe (lembram-se de O Livro de San Michelle?), Kafka, Pasternak, Calvino e muitos outros. Uma das suas frases lapidares: «Ter sorte é imprescindível – a esterilidade de uma época é pura fatalidade e, num período pouco criativo, o editor está condenado à impotência.» Como o compreendo.
Cada vez gosto mais de ler biografias, memórias, diários - agora ando a ler os da Virginia Woolf, cuja reedição há muito esperava.
ResponderEliminarQuem não se lembra do Livro de San Michelle, era o nr. 1 da colecção Livros do Brasil, não era?
Sobre tecnologias e literatura, recomendo (a quem puder e quiser) a audição do Fio da Meada de hoje na Antena 1, pela Susana Moreira Marques: Admirável!
O filme sobre a relação entre Max Perkins e Thomas Woolfe é excelente como obra cinematográfica e também por ilustrar plenamente a importância de um editor lúcido, pertinaz e interventivo no sucesso da forma final de livros de autores de escrita torrencial como o Woofe. Será que estamos de momento a atravessar um período de literatura pouco criativa? É que parece que nunca se publicou tanto como agora. No "El País" lia-se recentemente que em Espanha a atividade editorial tinha batido dois recordes: o de número de livros publicados e o do número de livros devolvidos (mais de metade dos volumes impressos). Será que os economistas das editoras já decidem o preço de capa de cada livro a contar que 50% dos exemplares que vão voltar ao armazém para a prazo serem destruídos ?
ResponderEliminarBom dia a todos!
ResponderEliminarPor acaso e não querendo estar a 'puxar a brasa à minha sardinha', temos em Portugal, numa edição da Fundação Calouste Gulbenkian de 2010, um livro de Memórias, um livro extraordinário, não apenas pela maneira absolutamente inovadora e literariamente brilhante, o modo como está escrito, como pelo documento social que é. Atravessa todo o século XX e neste livro é analisada - sempre através de memórias - a vertente social, política, cultural.
RÓMULO DE CARVALHO é o autor desse livro.
Tem 557 páginas.
Cristina Carvalho
Ainda não li, Cristina, mas irei ler.
Eliminar«Ter sorte é imprescindível – a esterilidade de uma época é pura fatalidade e, num período pouco criativo, o editor está condenado à impotência.» Remata, este “amargo de boca” de Kurt, Maria do Rosário sentindo porventura o peso do tempo e a dificuldade cada vez maior de ser editor: «Como o compreendo».
ResponderEliminarDa criatividade pode-se dizer que é «fruto do contexto social no desenvolvimento natural e humano»; exigindo, o ser criativo, capacidade de análise e síntese promotora de um olhar original. Assim, num tempo cada vez mais igual, globalismos localizados, localismos que se vão eles próprios globalizando, cosmopolitismo, património comum da humanidade — usando a metodologia do global do mestre Boaventura Sousa Santos —, resultado e razão confundem-se. Misturando-se na óptica de autores e editores já que, para quase todos eles, a leitura pressupõe um terceiro elemento, o leitor.
A criatividade é, pois, uma forma de fuga a este fenómeno centrípeto, uniforme, profundamente “constritor” do veio criativo. A esterilidade, o seu contraponto, aquilo que designaria de rendição do olhar, desistência da distinção (do ser).
Nessa medida, «a esterilidade de uma época que leva à impotência» não é um fenómeno exclusivo dos próprios candidatos à criação, mas uma busca transversal do centro por todos os actores, sejam eles autores ou editores, que se alimentam dos perdidos do olhar.
Entretanto só uma breve nota, aproveitando a excelente sugestão da Cristina Carvalho. Ainda não consegui perceber o motivo de tão poucos escritores se "aventurarem" a participar neste extraordinário blog de divulgação da leitura.
ResponderEliminarSerá uma questão táctica, por receio de vulgarizarem a sua escrita, medo de cometerem erros ortográficos, ou outros, que os diminuam? Necessidade de um certo "esoterismo", mistério, à volta dos autores? Ou será simples falta de tempo, assoberbados por ler, escrever, trabalhar?
A participação da Cristina Carvalho de forma desassombrada é um excelente exemplo de quem, afinal, gosta tanto das duas formas de estar na literatura: ler e escrever!
Muito obrigada, Pedro, pela parte que me toca neste comentário. No que me diz respeito, e só por mim falo, claro, nem sempre me é possível participar. Ultimamente tenho tido pouco tempo, mas quando o faço, participo com gosto e entusiasmo. São pouquíssimos os blogues como este, interessantes, divulgadores e cultos. Leio sempre, mas nem sempre participo apenas e só por falta de ocasião. Este blogue, que já mereceu uma distinção, distingue-se na sua aparência exigente, culta e não muito extenso, o que permite, até aos mais apressados lerem, se quiserem. Os textos curtos, para aplicações destas, os blogues, são sempre mais eficazes.
EliminarE as pessoas não sabem o que perdem ao não ler ou sobrevoar apenas e sem ver, a magnífica e culta escrita da Maria do Rosário Pedreira.
Contam-se pelos dedos de uma só mão, os 'bloguistas' interessantes, com quem, realmente, se aprende e a Maria do Rosário é o dedo indicador.
Cristina Carvalho
Obrigada!
EliminarEra eu.
EliminarTransformar a ameaça em anedota é, de facto, o melhor remédio. Mas cuidado: não os subestimemos.
ResponderEliminarBoa quinta - feira.
Vamos por partes:
ResponderEliminar.Tenho de aplaudir os meus Amigos Cristina Carvalho e Pedro Sande!
- Sempre ponderados, sensatos e cultos, logo interessantes. Ok! Tou a bajular, mas isso é um assunto meu, prontos…
.Gosto imenso deste blog e dos seus participantes, mesmo que discordando porque são sempre lúcidos e esclarecedores.
.Aprecio na generalidade práticamente todos os posts, que comento quase religiosamente - não me digam que sou chato, porque a minha mulher e filho já me enchem os ouvidos!
.Neste caso concreto, sobre o assunto de hoje:
Gosto imenso de biografias!
Adorei o filme a que se alude!
Li e tenho o livro de A. Gedeão!
Acho uma excelente idéia essa de a Nossa Extraordinária Anfitriã narrar as suas memórias, mas por bem da verdade e para ser uma obra honesta se calhar devia guardá-las para quando se reformar, e assim poder contar mesmo tudo… o pior é que posso já cá não estar para ler, e, acredito que haveria de ser interessante e muito didático! Portanto, publique!
.Na frase com que encerra, diria que enquanto traça dos livros, também eu leitor sou afectado pelo mesmo, não sendo exclusivo dos editores!
Saudações Extraordinárias cá da Cidade Morena!
O António Luiz Pacheco é que faz as honras, quase diárias, não é? Assim é que é!
EliminarBeijos
CC
Admiro o papel de muitos editores, que como referiu no caso do Max Perkins, têm de aturar as teimas dos "seus" escritores (Hemingway não pode ter sido pera doce), mas admiro talvez mais o suporte emocional e afetivo que muitas vezes conseguem dar aos autores durante o (tão) penoso processo criativo. A relação entre muitos escritores e editores notáveis é a prova disso...
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