Medo e falta de ar

Como é segunda-feira e estou sem ideias – o fim-de-semana faz muito mal às cabeças –, vou escrever sobre uma ninharia. Estava a ler um texto um dia destes e encontrei a palavra «espavorido», de que gosto muito por ser tão gráfica; e, não tinham passado dez minutos, apareceu-me o vocábulo «esbaforido»… Na minha cabeça, olho para estas duas palavras e a imagem que se forma é mais ou menos igual: a de alguém que vem a correr, talvez a fugir, despenteado e com a roupa ao vento. No meu íntimo, o sentimento subjacente às duas palavras é muito semelhante, mas não há como uma consulta ao Dicionário Houaiss para ver que não tenho razão. «Espavorido» tem dentro a palavra «pavor» e, na verdade, quer dizer «apavorado» (outra palavra com susto dentro). Porém, «esbaforido» significa «aquele que respira com dificuldade», e a palavra – está bom de ver – deriva de «bafo». Embora o pavor possa tornar uma pessoa ofegante (ou seja, esbaforida), estas duas palavras que pareciam quase irmãs gémeas não têm, afinal, qualquer parentesco. Para mim, foi divertido descobri-lo e a partir daqui desenhar na minha mente duas imagens diferentes, uma para cada palavra. Para os Extraordinários, uma boa semana de descobertas é o que desejo a todos. Sem medo nem falta de ar.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco23 de julho de 2018 às 01:47

    Que extraordinária ninharia (outra palavra interessante!) que foi descobrir… tendo em conta a alegada falta de ideias!
    A língua portuguesa é justamente rica, riquíssima! Isso eu sei!
    Diria até que é por ser tão rica que a isso se deve a famigerada tentativa de a homogeneizar com o tal e negregado Acordo Ortográfico, dado que há falantes de português preguiçosos e diria que menos evoluídos (em termos linguísticos!) , que portanto terão dificuldade em o praticar na sua plenitude, preferindo reduzi-lo à sua expressão mais simples. O que não me parece justo, pois a língua-mãe é a que falamos nós portugueses originais, e deriva tanto do latim quanto das muitas outras línguas de povos invasores como dos posteriormente colonizados, coisa que parece não ser importante para os defensores do AO.
    Não conheço na plenitude outras línguas do Mundo, mas atrevo-me a dizer que o português deverá ser das mais ricas, pela quantidade de sinónimos e termos usados que possuímos.

    Um bom dia para todos, são os meus votos cá desde a Cidade Morena!

    PS - Se lerem um relatório ou comunicado, uma simples minuta, um parecer ou qualquer documento oficial escrito aqui, onde se confunde escrever bem com o uso de palavras a despropósito mas tidas por elevadas, perceberão logo o mal que se trata a língua portuguesa!

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    Respostas
    1. Ó Pacheco nem é necessário ler um relatório, basta ler alguns jornais (o pasquim da manhã, por exemplo, mas não só) e até, infelizmente, agora também em muitos livros, estou agora a ler "PÁTRIA" e já lá encontrei muitos erros.
      E nos painéis das várias televisões VERGONHA absolutamente VERGONHOSO os constantes erros.
      Enfim...

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  2. António Luiz Pacheco23 de julho de 2018 às 05:40

    Os Extraordinários hoje estão com medo? Ou falta-lhes o ar??????

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  3. Por momentos pensei, suspensa do título, pensei -"Vem aí qualquer coisa tipo E. A. Poe".
    Também eu adoro dicionários e os labirintos de palavras.
    Agarre o Verão ( nas palavras de outro grande escritor português ), saia para a rua, deixe flanar os sentidos por aí. Pelas frases soltas, palavras perdidas, um brilho, uma sombra, qualquer coisa.
    A imaginação por vezes não se dá bem com paredes e de facto precisa de ar.

    Um beijo

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  4. Tanto pensei que gralhei:)

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  5. Emílio Gouveia Miranda23 de julho de 2018 às 06:04

    A riqueza da Nossa Língua...

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  6. Esbaforido é realmente uma palavra que também gosto pela sua simplicidade e genuinidade (de quem a usa, ou melhor das pessoas que já a ouvi usar).

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  7. Uma achega para a semana de descobertas: «Em Génio, que trata dos cem mais autores literários, Harold Bloom dá-nos a sua definição com uma interrogação: «Perante uma obra literária expandiu-se a sua consciencialização, tornou-se mais esclarecida? Se a sua resposta for positiva está perante um génio, não um mero talento.»
    Dos muitos pensadores que Bloom cita, para justificar genialidade literária, é o historiador Vitoriano Froude que mais me convence. Diz ele do "Génio": «É uma fonte cujo conteúdo é sempre mais caudaloso do que o líquido que jorra». Na literatura nacional de hoje, ontem, são mais os homens talentosos do que os génios. Mas estes existiram e continuarão a brotar como as camélias vermelhas de pétalas rosas. Como Bloom, compartilho a genialidade de Saramago, colocando na cesta dos frutos sumarentos, outros, como Eça, Pessoa, Camões, Bocage. Para listar os talentosos, à porta da genialidade, precisaria, talvez, de um enorme estendal, tal a raça literária dos nossos antepassados, que sempre cultivaram com mais êxito a pena do que manusearam enxada ou máquina a vapor.
    Por debaixo de um tapete talvez já haja talentos. De quem futuramente um continuador de Bloom possa dizer: estes são os segundos cem mais criativos da história. Assim, só “estuporado” pelo que nos trará o futuro literário: nunca “espavorido” ou “esbaforido”, que o futuro faz-se na firmeza de ânimo e na perseverança.

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