Assinar

Uma assinatura é uma marca de autoria, e em pintura, pelos vistos, vale dinheiro... Vi uma vez uma cena lamentável, em que um conhecido pintor português vendeu na inauguração de uma exposição um quadro original a uma pessoa que, na sequência da compra, lhe pediu que assinasse, já agora, também o catálogo. E o pintor recusou-se, alegando que a sua assinatura não era de graça... (Ainda bem que nunca gostei dos quadros desse homem.) É bem certo que há também muita gente que assina por baixo do que não escreveu mas com que concorda (petições há-as em grande número e eu já assinei várias); e eu até já me aborreci com um chefe que me pediu para responder a um questionário de um jornal mas queria ser ele a assinar as respostas, o que não permiti, ainda por cima porque nem sequer pensávamos da mesma maneira sobre aquele assunto. Também verifico com frequência, sobretudo em alguma imprensa regional, mas não só, que os textos que aparecem nas contracapas dos livros que publico (e que conheço muito bem) são reproduzidos na íntegra, sem aspas, nas páginas de crítica de livros assinadas por vários «jornalistas», ou aparecem com alterações mínimas (cortam um adjectivo, arranjam um sinónimo) numa secção chamada «As escolhas de...». Não seria, enfim, altura de se ganhar pelo que se escreve, e não pelo que se cita? Ou, pelo menos, de se indicar a fonte?

Comentários

  1. António Luiz Pacheco3 de julho de 2018 às 03:14

    Completamente de acordo!
    Eu mesmo, que não sou minimamente comparável às pessoas a cuja assinatura se refere, já tive a desagradável surpresa de ver trabalhos da minha autoria serem usados por terceiros sem qualquer referência à minha desprezível pessoa mas que pelos vistos vale para ser usada ou copiada… até ilustrações minhas (por acaso desenho razoávelmente) fui uma vez encontrar num site brasileiro (de pesca submarina) sem qualquer indicação de que haviam sido copiadas directamente das páginas de uma revista onde as publiquei!
    Idem para fotos minha! O Luiz Filipe Quinta que na época era o editor da revista, aconselhou-me que passasse a pôr uma rúbrica em todos os desenhos!

    E para terminar , uma historieta a propósito, lida em tempos nas Selecções do Readers Digest:

    Picasso almoçava com Groucho Marx, e a certa altura entorna molho em cima das calças do grande humorista!
    Incomodado, chama o criado para pedir um tira-nódoas, ao que o cómico replica:
    - Nada disso! Assine as minhas calças!

    Ahahahah!

    Saudações de uma manhã fresca mas ensolarada, cá do Bairro Ribatejano!

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  2. A Rosário fala de dois casos distintos. A falta de respeito do "artista" pelo público (a fazer lembrar o comerciante que acabará por ter de fechar a loja, por "não precisar de clientes"...). E os "roubos" quase de identidade, sobre quem cria...

    O que eu posso dizer, é que ainda há muito a fazer pelo Autor, pelo que ele representa e pelo que ele cria (Penso que a SPA pensa mais no dinheiro dos seus sócios que em criar soluções para valorizar e respeitar o Autor).

    Penso que é nas redes sociais e blogosfera (tenho dificuldade em chamar-lhe rede social...), que mais se nota este "abuso". Uma boa parte de nós já descobriu textos da sua autoria transcritos, integralmente ou em parágrafos, sem que exista qualquer referência ao autor, ou de onde foram retiradas as palavras.

    O mais grave, é que há quem ache isso normal... Ou seja, há muita ignorância atrevida, vaidade, inveja e estupidez natural nestes comportamentos.

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  3. Devido ao uso generalizado das redes sociais e da blogosfera, nas condições de todos conhecidas, prevejo uma evolução inversa do que deseja e preconiza Maria do Rosário. Infelizmente. Assim como qualquer indivíduo opina ou escreve sobre assuntos de que é quase desconhecedor, assim também muitas pessoas escrevem sobre assuntos de que pouco sabem e fazem-no como entendidos mas copiando de diversas fontes, até teses de doutoramento.

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  4. Bom dia. Creio que a moda veio do Ensaio.


    Cláudia da Silva Tomazi

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco3 de julho de 2018 às 14:55

      Caríssima Cláudia, desta vez e a despeito de ter sido muito concisamente clara, confesso que a não percebi!
      Que ensaio?
      Fiquei curioso, pois muito aprecio e prezo as suas postagens!

      Cumprimentos cá do meu Bairro Ribatejano!!!!

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    2. Bom dia. Uma assinatura é uma marca de autoria, e assim de facto o é. Por exemplo em se tratando Ensaio Acadêmico ou não, através da argumentação ou até mesmo lógica, contanto transita e o endossa quaisquer, citação de outro autor. De quê modo se lhe original, entre outros autores.


      CLT

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    3. António Luiz Pacheco4 de julho de 2018 às 05:42

      Ah! Obrigado pelo esclarecimento.
      Saudações cá deste lado do Atlântico Norte!

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  5. A ignorância e a arrogância juntas são o pão nosso de cada dia.
    Há anos que anda pelo Facebook um texto do Mia Couto que o próprio já por mais que uma vez desmentiu, informando ainda de quem era a autoria. O “Pensador” ainda há pouco tempo mantinha um poema de Pablo Neruda que nada tem a ver com o mesmo. Outro clássico é o texto da Clara Ferreira Alves a desancar o Mário Soares. Apesar da própria e do expresso o terem desmentido e identificado o autor, é recorrente a sua aparição pelo Facebook, com autoria atribuída à jornalista do expresso.
    E, como diria o António Luiz Pacheco, não é para me gabar mas, há uns largos anos, aconteceu-me algo digno de um prémio de estupidez. Na época realizava alguns cursos/reflexões com adultos e formação mínima ao nível do bacharel, sobre ética e escrevi alguns curtos textos para nele serem discutidos. Um dia alguém que não conhecia vem ter comigo para saber se lhe podia dar uma opinião sobre um trabalho que teria de apresentar no âmbito de uma especialização. Comecei a ler e a pensar que me era familiar, demasiado familiar. Mais de metade do trabalho era cópia integral de um dos meus textos.

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  6. Ganhar pelo que se escreve seria bom, embora temo que cada vez seja mais preciso o seu contrário. E lá virá o tempo em que teremos de pagar para sermos lidos. Não indicar a fonte, sim, isso é muito mau e desrespeitoso. Mas penso que esse tempo terminou. A palavra, hoje, perdeu-se na desmaterialização, na falta de punho com que se assinavam as palavras que, mais do que oferecidas, eram dádivas. Hoje joga mais o jogo de dedos, como se fossem todos pianistas sem ter de compor as suas próprias árias. E quem seria o pintor? A palavra, hoje, perdeu esta dimensão da curiosidade. Seria o Pomar, Rosário?

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  7. Totalmente! Esta mania de se fazer copy/paste de tudo, de não indicar fontes, de se apropriar de material alheio é uma praga!

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