Situar

Há muitos anos, quando era professora de Francês, pendurei à frente do quadro um grande mapa de França – um mau mapa, confesso, porque era apenas o contorno do país e, lá dentro, uma bolinha preta no lugar da capital a dizer Paris. Assim que me voltei e disse que aquele era o mapa de França, um aluno perguntou: «Eu estou a ver onde está Paris, mas onde é que está a França?» Mais tarde, noutra escola, precisei de um mapa-múndi e, quando o tinha todo esticadinho à frente dos alunos, houve uma miúda que comentou, espantada, olhando as margens esquerda e direita do mapa: «Eu não sabia que havia dois Oceanos Pacíficos…» (e eu a seguir fiz uma espécie de cilindro para lhe explicar que, enfim, a Terra era redonda… Leio nos jornais que 45% dos alunos portugueses do 5º ano não sabem situar Portugal no mapa da Europa – aliás, os títulos dos jornais diziam que eles não sabem situar Portugal na Europa, levando alguns leitores a crer que o situavam na Ásia ou na África, o que não é verdade; o que os meninos não sabem é onde fica o seu país no continente europeu – e, se isso é de facto bastante escandaloso, a verdade é que mais escandaloso ainda é o facto de, muito provavelmente, ninguém lhes ter mostrado o mapa da Europa na escola ou em casa e lhes ter dito que Portugal é o país mais à esquerda… Mas isto não é novo, como atrás mostrei e a seguir confirmo: uma vez, Pacheco Pereira contou-me que estava a dar uma aula numa universidade sobre os regimes do Leste antes da perestroika (penso que o curso era de Relações Internacionais) e que pediu a um aluno que indicasse a Hungria no mapa da Europa. Não só esse estudante não foi capaz de o fazer como quase toda a turma o ignorava…

Comentários

  1. Não tenho nada esta perspectiva de uma ignorância geracional generalizada, antes pelo contrário. O índice de competências vai alterando, do mesmo modo que a língua se vai adaptando. Os grandes números escondem muitas e diferentes realidades.

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    1. Ora aqui está o politicamente correcto em toda a sua plenitude!

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    2. Severino: é mais politicamente factual.
      Em 1975 o analfabetismo chegava aos quarenta por cento. Hoje esse número diminuiu, felizmente, de modo "drástico".
      Na última tertúlia sobre "Porque fecham as livrarias" um editor Vasco Santos cansado, descrente, pessimista, dividia a ignorância em dois níveis: a primária e a secundária.
      O pessimismo pode como se sabe ser um sinal de envelhecimento, saudades do futuro, jardins de flores murchas, espécies diferentes, razões que o tempo desconhece, ou todas as opções anteriores combinadas; até perceção não condizente com a realidade; ou, apenas, sinal do nosso próprio amadurecimento, de uma nova seriação da nossa vivência terrena.
      Ignorância sobre determinados tipos de presente sempre haverá, quando o tipo de gosto, de modo de vida, de esperança no futuro, se altera: mais passado do que futuro.
      E a realidade é hoje compararmos com um universo bem mais alargado do que no passado; e bem distinto: da lentidão à pressa, de um novo modo de estar no mundo não obviamente melhor no trato humano (mas alguma vez o foi?) - se fundado num novo individualismo carregado de hedonismo existencial e de intolerância radical.
      Mas, pronto, generalizar e zurzir como o Vasco Santos o fez é sempre perigoso, quantas vezes injusto para os vindouros. Sempre com uma nostalgia com algo de Freudiano (só ouvido, o sentido aparente de urgência do editor) como se vivêssemos numa nova Idade Média que - como é sabido hoje pela "factologia" de inúmeros historiadores - é um falácia fruto de um outro tipo de politicamente correcto.
      A Idade Média não foi verdadeiramente uma Idade Negra, mesmo que alguns simplisticamente a tenham querido apelidar.

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    3. Pedro, porventura o politicamente factual seria mais adequado.
      Contudo, conhecimento e informação não são a mesma coisa.
      De qualquer modo, obrigado Pedro pelas suas palavras.
      Um abraço



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    4. Vasco Santos é, desde há muito, um dos nossos poucos grandes editores.
      É editor de coração, não de bolsa.
      E concordo muito com as suas opiniões.

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  2. António Luiz Pacheco12 de junho de 2018 às 02:47

    Pois a mim nada me espanta... a maior parte das pessoas nem sabem situar-se a elas mesmas quanto mais ao país, ora bem!
    Acho lamentável, que se não saiba onde nos encontramos geográfica e historicamente, porque para mim isso é deveras uma falta imensa de entendimento pessoal, porém o facto de que se pretende hoje globalizar conduz a isso, sem que as pessoas tenham outra culpa que a falta de curiosidade em saber sobre o que está próximo e sejam curiosas com o que está distante ou até fora de alcance.
    Ontem na RTP3 dois comentadores peroravam sobre a cimeira Trump-Kim ... um deles saiu-se com esta espantosa afirmação: "o que é extraordinário é que se assiste a uma imensa desconfiança relativamente a Washington! "
    Como é que disseste, ó rapazinho? E desde quando é que não houve desconfiança relativamente aos USA? Ah... sim, criaste-te e estudaste no tempo do Obama e dos mediático-simpáticos presidentes criados pelo marketing... um garoto portanto, que se calhar não devia estar a comentar porque lhe falta saber que o normal, histórico, desde a II Gueraa Mundial é a desconfiança para com as políticas americanas emanadas de Washington - e não é preciso ir ouvir a "Chamada para Washington" do Raúl Solnado!
    É ignorância, pura e tão grande quanto a do nosso actual primeiro-ministro que na Turquia exalta as antigas relações de amizade entre Portugal e a Turquia! Tal absurdo...

    Portanto nada me admira, se bem que concorde com o Pedro A.S. quanto às novas competências que se desenvolveram, sem dúvida... a questão é se fazem de nós melhores seres humanos, mais técnicos e menos humanos... a história o dirá, se não acabarem com ela enquanto ciência!

    Saudações desde o aeroporto da Catumbela!

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  3. Estamos quase tão ignorantes como muitos americanos.

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  4. Penso que a questão deve ter sido mal formulada.

    Não acredito nessa percentagem, até por ter uma filha com 13 anos, e saber que o ensino não perdeu exigência.

    Claro os programas estão sempre em mudança, eu já não soube o nome das serras , dos rios e das estações do nosso país, mas soube muitas outras que os meus pais e tios não aprenderam...

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  5. Percebo que dizer que 45% dos alunos portugueses do 5º ano não sabem situar Portugal no mapa da Europa é um título mais apelativo e por isso tenha surgido dessa forma na imprensa mas o que 45% dos meninos do 5º ano não sabia era descrever a posição de Portugal na Europa com base nos pontos cardeais, colaterais e sub-colaterais. Não é bom sinal mas é bastante diferente de não conseguirem identificar Portugal quando têm um mapa da Europa à frente.

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  6. Tem razão. Cresceu-se na teoria e esquece-se a prática e a realidade.. Há muitos exemplos para ilustrar esta ideia.

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  7. Diz-se com frequência que a esmagadora maioria dos americanos não sabe onde fica Portugal. Muitos portugueses ficam escandalizados mas não percebo porquê. Se perguntarmos a portugueses onde fica o Barhein, a Costa Rica ou a Arménia a maioria também não sabe. E porque havia de saber?

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    1. Caro amalivros, a maioria dos portugueses nem sequer conhece Portugal...
      É incrível a nossa ignorância, só ultrapassada pela mania de que sabemos mais do que os outros povos.

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  8. Hoje, se puderem, leiam um poema ou um texto do nosso maior poeta de sempre: Fernando António Nogueira Pessoa, que faria hoje 130 anos, e que deve o seu nome precisamente a Fernando de Bulhões, mais conhecido por Santo António.
    Vá lá, se tiverem dinheiro, também podem comer uma ou duas sardinhas...

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  9. Parece-me que já se encontrou o problema há muito... Mas encontrar a solução continua a ser vontade de poucos...

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  10. 🤦‍♀️🤦‍♀️🤦‍♀️🤦‍♀️

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  11. 🤦‍♀️🤦‍♀️🤦‍♀️🤦‍♀️ É o q eu digo. De há 20 anos para cá a escola primária deixou de funcionar!

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