Publicar e ser publicado

Este título podia ser a minha história de vez em quando. Mas – e ainda bem – não tem a ver com isso, mas com um debate que ocorrerá logo à noite na Feira do Livro de Lisboa. Temos vindo a assistir a um desinteresse gradual dos leitores pela literatura dita séria (a única que é literatura, embora muitos chamem literatura light ou comercial a um certo tipo de ficção sem sumo nem profundidade) e, como tal, precisamos de reflectir sobre o que o originou e o que podemos fazer para reverter a situação. Quando muita gente se junta a pensar, acabam por surgir ideias e, como tal, esperamos que isso aconteça hoje às 19h30 com a participação dos escritores David Machado, João Ricardo Pedro e Nuno Camarneiro (detentores de prémios nacionais e internacionais, todos ainda relativamente novos e com muito para dar se as pessoas quiserem continuar a ler literatura) e, além da minha pessoa (para falar do que é publicar), do moderador – o jornalista e crítico literário Luís Ricardo Duarte. À noite, nunca se sabe quem vai à feira – e espero que na plateia esteja mais gente do que no palco; por isso leve um casaquinho se arrefecer e vá lá fazer-nos companhia.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco5 de junho de 2018 às 03:43

    Vamos lá a ver se este post não me sai anónimo como os de ontem... coisa com que francamente embirro, se bem que a minha despedida me identifique junto dos mais assíduos, antigos e atentos!

    O tema de hoje é muito interessante, parece-me!
    Mas, lá está o mas que nos anima e provoca o debate e a conversa, polémicas aparte e desde que civilizadamente como é nosso hábito, ainda que discordantes ou que não gostemos do mesmo.
    Ora continuando: "mas", eu não aprecio a escrita, ou melhor os temas de João Ricardo Pedro - ele que me desculpe, mas entenderá que não tem de agradar a todos - e também me parece que ainda não ombreia com Nuno Camarneiro... afinal tem duas obras publicadas e por muito premiadas que sejam, são exactamente a literatura de que eu não gosto e não consumo!
    Já aqui fiz o meu acto de contricção, pois nunca lera nada de Nuno Camarneiro e sendo levado a lê-lo aqui pela Nossa Extraordinária Anfitriã, com quem também não concordo sempre, assumi que gostei do que li e da sua forma de escrever!
    Sou dos que não temem mudar de opinião...

    Voltando ao nosso tema de hoje, parece-me bastante ousado, para não dizer presunçoso, epitetar uns e outros de boa ou má literatura, já o disse aqui várias vezes e mantenho-o.
    Cada um é como cada qual (e ninguém é como evidentemente...) e graças a Deuses que há essa diversidade na literatura, que chega a todos os leitores, sejam eles quem ou o que forem.
    Ler é o que importa... e afinal sendo esse o negócio das casas editoras, de quem é então a responsabilidade senão delas mesmas que inundam os pontos de venda de tudo o que é livro? Seja considerada boa ou má literatura.

    É que para mim, muitos livros aqui promovidos e aplaudidos são má literatura, porque não me interessam e não leio. Outros pelo contrário.
    E ainda há aqueles que aqui não passam, porque não são de autores alinhados, sim, há uma imensidão de escritores desalinhados e atrevo-me a dizer que para o meu (mau) gosto de barrão inculto prefiro "Entre Cós e Alpedriz" a "O teu rosto será o último", mas já se sabe que eu sou assim mesmo e mesmo que não tema mudar de opinião, neste caso estou bem firme nela!

    Atenção: não estou a atacar pessoalmente nem a Nossa Extraordinária Anfitriã nem ao João Ricardo Pedro, aos quais peço desde já desculpa pela minha sinceridade se estiver a ser malcriado, e sinceramente lhes desejo os maiores sucessos!
    Estou apenas a conversar, e, estimo ser assim entendido! Portanto, as gárgulas de serviço e os censores de plantão, estão nesse capítulo dispensados de me vir corrigir.
    De resto este espaço tem andado um bocadinho insosso e talvez uma boa discussão nos anime a todos, portanto força nesses dedos e casquem-me a preceito!

    Saudações espadaúdas cá da Cidade Morena!

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  2. Ainda hoje tive uma conversa muito interessante com a Maria Carlos Loureiro sobre autores, editores e livreiros.
    Interessante o que contou: «Na Alemanha editores e livreiros juntam-se durante cinco dias para encontrarem plataformas de entendimento». Tal encontro em Portugal seria possível? Não me parece dada a duplicação de capelinhas e a sociedade exclusiva e pouco democrática que todos - por acção ou omissão - fazemos por manter.
    Sobre a escrita com sumo - ou escrita com densidade -, não sei se comungo dessa percepção desinteressada dos leitores. Uma perspectiva na senda da programação das televisões que glorificam o mau não tentando sequer auscultar o sentido do bom.
    Não será antes uma orientação errada dos marketeers, o que acaba por inundar o mercado com literatura "light"? Literatura que replica de forma simplista, sem qualquer ganho, num imenso "reality-show" o dia-a-dia?
    Que as editoras lancem novamente autores com densidade - o que seria hoje de autores como Virgílio, Cardoso Pires, Saramago e tantos intelectuais da nossa literatura recente?
    Não haverá alguma responsabilidade das casas editoras neste diálogo desinteressante com o público leitor, que faz muitos abandonarem quase totalmente a leitura de ficção em favor das memórias, biografias, crónicas, historiografia? E quem orientou as editoras para a "morte" dos contos?

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  3. A conversa com a Maria Loureiro da DGLAB teve que ver com a exclusão de muitos autores da sua base de dados.
    Como é sabido a plataforma escritores.online foi uma tentativa de dar visibilidade e inclusividade ao pior terror desta sociedade em que vivemos: a exclusão ou apropriação do espaço público por uma minoria, na continuidade do já há muito identificado por homens como Oliveira Martins, Ramalho Ortigão e tantos outros.
    Uma plataforma vinda da sociedade civil e que dava extensão e brilho a tudo o que se faz na área dos livros, dando aos leitores informações relevantes sobre tudo o que se faz na escrita actualmente em Portugal, entregando-lhes democraticamente o poder de decidirem e aferirem sem paternalismos ou interesses de terceiros.
    A diferença na actualidade do aforismo de "em terra de cegos quem tem olho é rei" é, não só a disseminação da informação, como a base de formação de muitos excluídos - os tais desalinhados de que fala o António Luiz -, muitos já com mestrados, doutoramentos, etc... informados e conhecedores do "modus operandi" desta sociedade há muito cristalizada e exclusiva.
    Por falta de pessoal - mas também por opção - a base de dados de autores da DGLAB é ela própria - contrariamente ao que determina a constituição da república portuguesa - exclusiva, omitindo muitos dos que publicam, não permitindo que sejam os próprios leitores a aferirem da bondade, mérito - ou não - dos tais desalinhados.
    Este modo de funcionar não só empobrece Portugal do ponto de vista do desenvolvimento, como do ponto de vista democrático, mantendo Portugal refém de grupos e grupóides de eminências pardas e opacas, que a história saberá apontar como responsáveis.
    Não estará na altura de todos nós, como sociedade civil, tentarmos mudar o rumo da história?

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    Respostas
    1. «Não estará na altura de todos nós, como sociedade civil, tentarmos mudar o rumo da história?»

      Talvez seja mesmo a única maneira, a julgar pelo que aconteceu com a referida plataforma escritores.online que encerrou recentemente sem deixar rasto. Seja como for, não abundam os voluntários para colaborar em projectos desta natureza.

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    2. Ricardo: conjugando esforços vamos tentar reabri-la.
      Uma plataforma universal e grátis com informação de autores e obras, sejam estas maiores, menores ou iguais, sem qualquer critério subjectivo que não o da intervenção no espaço público... haja ISBN.
      Caberá aos leitores a avaliação da obra de cada um.
      Tal terá também um efeito de motivação para que cada vez mais jovens — e menos jovens — se sintam motivados a aderir a esta actividade fundamental ao ser humano: ler (de preferência, devagar) como conhecimento; escrever como reflexão e transposição do mesmo conhecimento.
      Menoridade é não se ser capaz de aglutinar — num país da dimensão de Portugal — informação intensiva numa capaz base de dados.
      Múltiplos organismos públicos — cada vez com menos pessoal — são incapazes de cumprir com eficácia o seu objectivo: pelo abandono a que são votados pelo Estado na atribuição de meios; pela desmotivação de muitos dos seus quadros; pela incapacidade de perceberem que Estado no rectângulo há só um: o Português!
      Os privados, como a SPA, são associações com fins perfeitamente legítimos, mas obviamente "egoístas" no cumprimento do interesse dos seus associados (algumas associações como alguns clubes, infelizmente, nem servem verdadeiramente os seus associados, mas pequenos corpos de poder).
      Logo, resta à sociedade civil dar esse passo: este país só sairá da mediocridade na unidade. Nunca na divisão, na exclusão, na indiferença, na não participação para o colectivo.

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    3. Não deixa de ser pena ver desperdiçado o trabalho desenvolvido ao longo dos quase 2 anos de actividade do escritores.online, e não falo apenas no material reunido (perfis de autores, listas de livrarias, editoras e prémios literários, etc.), mas também no alcance da plataforma.

      É necessário um trabalho considerável para recolher e organizar toda esta informação, trabalho esse que só se justifica se se garantir que o mesmo beneficia o maior número de pessoas possível, seja através de um website com navegação intuitiva e sem restrições em termos de acesso, seja com a ampla divulgação tanto através das inevitáveis redes sociais como por parte dos agentes ligados ao mercado do livro.

      Enfim, apesar de estar ligado essencialmente à edição em formato digital devido ao Projecto Adamastor, estarei atento a quaisquer novidades relativas a este tema. À partida o CLEPUL tem intenção de lançar plataforma própria, reaproveitando algum material do escritores.online. A ver vamos.





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  4. Resposta abreviada: "Não há tempo nem interesse para isso, infelizmente"

    Leituras recomendadas: "The business of books - André Schiffrin"

    Bom debate!

    PS: Sugestão:dedução em sede de IRS de uma % do montante investido na compra de livros do PNL

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  5. «Temos vindo a assistir a um desinteresse gradual dos leitores pela literatura dita séria (a única que é literatura)»? Se sim, porque será? Talvez porque os leitores, ou pelo menos uma parte significativa deles, não apreciam o tipo de «sumo e profundidade» que os editores preferem, pelo qual têm «empatia»?

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  6. Infelizmente, não é só em Portugal. Há ruído a mais nas multi-plataformas de leitura, tempo a menos, solicitações que oferecem gratificação mais imediata, períodos de atenção mais curtos, níveis absurdos de iliteracia funcional... Tantos etcs. que obstam à prevalência da literatura. A isto aliam-se as "vanity publishers", as "self-publishing platforms" e a praga da não-literatura floresce.

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  7. Não consigo perceber bem o que se irá discutir. Se é o "Publicar e ser Publicado", sabem os passos que deram até arranjarem editora...

    Agora se é para reflectir sobre "literatura séria" (o que quer que isso seja...), não vejo que estes três jovens escritores possam acrescentar muito ao tema. Falta-lhes experiência de vida e de escritor.

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  8. Costumo apoiar-me no critério: a obra foi feita para vender? Não me interessa, literatura não é assunto de negócios. Tem falhas, claro. Há obras que vendem muito e são boas, e entre a literatura "séria e profunda" (para recorrer a alguns dos termos usados), grande parte vende pouco e neste segmento algumas obras são detestáveis.

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  9. Essa plateia seria um dos lugares da feira onde gostaria de ter estado. Não se pode ter tudo:).

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