O que ando a ler

Não ando a ler, já li, mas para o caso tanto faz porque é dele que vou falar hoje. Chama-se Na Memória dos Rouxinóis e escreveu-o Filipa Martins, autora que venceu o Prémio de Revelação da APE em 2004 com Elogio do Passeio Público (que também li há muito tempo) e escreveu pelo meio outros dois romances que não cheguei a ler (apesar de ter em casa um deles, Mustang Branco). Ora, o mais incrível neste livro publicado há uns meses, e lançado durante as Correntes d’Escritas, é que, se eu não soubesse de quem era, nunca diria tratar-se de um livro escrito por uma mulher (mesmo que na página da Wook o anunciem como um livro «feminino», não sei porquê e, aliás, nem concordo). Este facto é tão ou mais interessante porque, na verdade, o narrador desta história é um homem, bem como, aliás, as personagens que importam no livro: aquela à volta da qual tudo gira – Jorge Rousinol, galego, matemático, genial jogador de xadrez, que encomendou a própria biografia antes de morrer embora tenha sempre defendido o esquecimento contra a memória no momento de tomar uma decisão –, os seus pai e avô e Camilo, sobrinho do velho e namorado do narrador, que é quem anda a escrever a biografia do ilustre Jorge Rousinol. Bem, previno-vos que de modo nenhum se trata de um livro fácil, não apenas porque o seu enredo é intricado e contado em planos distintos, mas também porque esta escritora lança mão a um manancial de informação muito variada e tem tantas metáforas na manga (muitas delas extraordinárias) que, como poeta, tive até um bocadinho de inveja, mesmo que por vezes me pareça que essa «complicação estratégica» poderia, aqui e ali, ser aliviada com vantagem. Mas é um livro a ler com atenção, disso não tenho dúvidas, e por isso proponho-o aqui àqueles que gostam de deliciar-se com linguagens novas e romances que ensinam. Quem estiver curioso, pode também ler uma interessante entrevista com a autora, cujo link deixo abaixo. Boas leituras.


 


https://sol.sapo.pt/artigo/607452/filipa-martins-fui-ao-pedopsiquiatra-e-receitaram-me-livros


 


P.S. Depois de amanhã será a entrega do Prémio LeYa a João Pinto Coelho na Praça LeYa, Feira do Livro de Lisboa, às 18h30. Apareça.

Comentários

  1. Estou a ler "Viagem ao Fim da Noite" de Louis-Ferdinand Céline, que parece encabeçar a lista dos "escritores malditos".

    É um bom livro sobre a natureza humana (aliás tem dois ou três livros dentro dele...).

    Como a edição da "Ulisseia" de 1966 (penso que do tempo de grande Vitor Silva Tavares...) me veio parar às mãos, achei por bem ler... e estou a gostar.

    Tinha curiosidade pela escrita de Céline, o resto não me interessa muito. Aliás, consigo separar a pessoa do escritor, com relativa facilidade.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Adoro o Céline. Tenho vários livros dele, mas releio sempre a "Viagem..." com prazer, que considero um dos melhores romances do séc. XX.Para conhecer melhor o homem sugiro o livro de Philip Almeras "CÉLINE- entre haines et passion".

      Eliminar
  2. Eu dei inicio hoje ao escritor fantasma do Roth, obra que queria ler já há muito tempo, mas da qual acabava sempre por me esquecer.
    Por preguiça ou comodismo, acabei por comprar a versão traduzida (na Bertrand não tinham a original), o que reconheço ser uma pena...

    Ainda que não tenha lido nada de Filipa Martins, tenho seguido recentemente o seu percurso "Facebookiano" e assistido a algumas entrevistas que me levam a crer que será uma escritora promissora e um futuro bom investimento (é quase sempre).

    Obrigada pelas sempre boas recomendações!

    ResponderEliminar
  3. Mas quem quer livros fáceis? Informação e metáforas dão cor à vida. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco1 de junho de 2018 às 09:08

      Não-fácil, vá que não vá... mas o detalhe de ser escrito pelo namorado do biografado, nem significa que seja escrito por um homem (não pode ser considerado como tal) e na verdade o autor é uma mulher, portanto é pouco acertado considerá-lo outra coisa que não um livro feminino. É muita confusão para o meu cérebro hétero...
      Não, não sou homofóbico, não comecem já a juntar as pedras... mas cada coisa no seu lugar e a seu tempo!

      Abraço Pedro!

      Eliminar
  4. Ando a ler «Instantâneos» de Claudio Magris. Bem divertido!

    ResponderEliminar
  5. António Luiz Pacheco1 de junho de 2018 às 09:25

    Ando a tentar ler... Cadáveres às costas, de Miguel Real.
    Autor que muito aprecio e a quem acho que não se faz justiça, pois ele não me parece escrever por e nem ir em modas.
    Se digo, ando a tentar, é porque não tenho conseguido concentrar-me na leitura, estou numa fase intensa de trabalho com muitas deslocações, difíceis, demoradas e muito duras seguidas de noites a escrever relatórios ou a passar informação coligida no terreno aos meus colegas projectistas nos seus gabinetes, com quem vou conseguindo falar via Skype, à distância, graças às maravilhas da técnica! Vou imaginando ao mesmo tempo como seria no tempo de Bartolomeu Dias ou Serpa Pinto!
    Bom, e tenho de ler ao mesmo tempo muita informação necessária aos projectos que ando a ajudar a criar.
    Mas lá irei... e depois digo, para já fico-me pela intenção!

    Saudações em movimento da Cidade Morena, Namibe e Tômbwa, conforme eu esteja, nas margens do Bero, Giraul, Inamagando, Carunjamba ou Tumbalunda, pela praia Amélia, Chapéu Armado, Baba...

    ResponderEliminar
  6. Quando li a "Viagem ao Fim da Noite" senti um impacto formidável, talvez tivesse sido a 1a obra modernista que abordei. Foi isso e não o posicionamento político do autor que me marcou.
    Fiz a minha incursão pela Feira do Livro (Aquilino, Pinto-Coelho, Bellow, Kertész, Philip Roth e Oliver Sacks, além de um Simenon de bolso que tiveram a gentileza de me oferecer) mas agora estou afastado, não sei se terei uma 2a oportunidade.
    Entretanto pus-me a ler com inteiro agrado "A Casa Eterna", de Hélia Correia.
    Bom fds para todos.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório