Gente séria

Olá, gente séria, olá, gente que gosta de livros. Espero que ainda aí estejam, pois os leitores estão a diminuir em grande parte do mundo (contou-me uma agente literária que a Alemanha perdeu seis milhões de leitores nos últimos quatro anos) e pode ser que, nas minhas férias, alguns dos Extraordinários tenham decidido virar-se para outra coisa... Eu ainda não, e foi justamente nas férias que li um romance que tinha aqui atrasado e à espera de vez desde Fevereiro. Intitula-se Gente Séria, foi publicado pela Planeta e assina-o Hugo Mezena, um jovem escritor nascido nos anos 1980 que também se tem dedicado ao teatro e à música. Situando a sua narrativa numa terra chamada Benomilde (em que, apesar de bem entrada a democracia, ainda é o padre e a religião quem dão cartas e os pecados ensombram as consciências), o autor coloca como narrador um rapazinho temente a Deus, filho único de um casal que decidiu ficar na aldeia a trabalhar para o senhor Rodrigues, cumprindo a tradição do antecessor. É, de resto, esse avô, empregado que sobe na vida a pulso e não quer dever nada a ninguém (nem que lhe devam, claro!), uma das maravilhosas personagens deste microcosmos, a que não falham figuras memoráveis do nosso Portugal pequenino, mas atrevido, grosseiro e até, como na cena que fecha o romance, inesperadamente violento. Destaque ainda para as histórias do tio Alexandre, que desde cedo luta para sair da cepa torta, e das suas mulheres, entre elas a perturbadora tia Mena, que ficou a mancar desde que foi colhida por um comboio e que move os lábios à mesa, mas não reza, intrigando o sobrinho. Feito de pequenos episódios, Gente Séria é um romance muito bonito, que retrata um lugar e as suas pessoas sem paninhos quentes, mostrando como a modernização leva por vezes muito tempo a ser alcançada. Recomendo.

Comentários

  1. Ora viva, seja bem-vinda, Maria do Rosário!
    Nada melhor do que iniciar a semana com a recomendação de um novo romance, que pelas suas palavras parece ser bem simpático de se ler.
    Continuemos pois a gostar de ler e de conhecer novos autores.
    Saudações cá da pérola do Atlântico!

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    1. Anónimo (a)?!
      Eu cá não sou nem aprecio anónimos. Euzinha dou pelo nome de Ana Paula.

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  2. Olá!

    Bom regresso, com livros e com uma realidade, que não se pode esconder no armário...

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  3. Por mim cá continuarei a lê-la

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  4. António Luiz Pacheco25 de junho de 2018 às 04:22

    Cá continuo, firme, nem por isso hirto mas continuo!
    As traças são muito difíceis de exterminar…

    O tema do referido livro é extremamente interessante e a mim, barrão, aldeão convicto e empedernido, diz mesmo muito. Sou moderno e evoluído qb mas sem perder de vista de onde venho que é esse lugar tão desprezado mas onde persiste gente boa e séria… que não muda de modas como quem muda a camisa e talvez a eles se deva ainda sermos um povo e uma nação,, que por vontade dos modernos hoje já não o seríamos mas sim uns párias, perdidos nessa Europa castradora sem rumo , rei nem roque…


    Saudações aldeãs cá do Bairro Ribatejano - onde me tenho desforrado a sério , lendo muito!!!! Olá!

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  5. Bom dia deste dia 25 de Junho!

    Não conhecia o Hugo Mezena, apenas uns textos escritos por ele aqui ou acolá que, de algum modo, me chamaram sempre a atenção. Hoje, e no final deste livro, posso dizer que tenho pela frente um jovem escritor, um observador, um pensador. A trama é composta por capítulos curtos, directos, sem rodeios nem dispersão de palavras. A economia das grandes descrições é, quanto a mim, perfeita. No cenário imediato, a ruralidade de uma província atávica, abandonada, perfeitamente descrita, desliza por ali fora, por todo o romance sem desvios a mais ou a menos.
    Gosto muito dos capítulos curtos.
    E gosto muito da arte que consigo vislumbrar através deste seu livro. É como sentir uma música ou como apreciar um quadro ou uma fotografia. Ou tem arte lá por dentro, ou não tem. No caso deste livro senti-lhe a arte. Que a tem.

    Cristina Carvalho

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    1. António Luiz Pacheco25 de junho de 2018 às 07:08

      Belíssima crítica esta!
      E muitíssimo oportuna, diga-se, pois acontece que fui lá acima à cidade - aqui na aldeia ainda é assim que dizemos - pela hora do almoço e indo de propósito à Bertrand, localizei este livro! Vou lê-lo!!!!

      Depois reporto.

      Saudações cá do Bairro Ribatejano!

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  6. Emílio Gouveia Miranda25 de junho de 2018 às 05:50

    Os livros são, como todos os grandes amores, para a Vida. Como todos os grandes amores crescem em interesse, quanto melhor se conhecem...
    Boa tarde.

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  7. Romance bonito? Que horror...

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  8. Pois é, cá estamos de novo.
    Quanto ao livro de que fala e que não li, penso que mostra as pessoas incógnitas e comuns, talvez como elas são ou como se deixam ver pelo escritor que as inventa. Portugal faz-se com elas e nelas. Às vezes julgo que gosto de as ver encorpar nas páginas dos livros por uma questão de amor pátrio.

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    1. António Luiz Pacheco26 de junho de 2018 às 04:15

      Concordo inteiramente… ontem mesmo comecei a ler e já vou quase no fim, a manhã na espera para a consulta também ajudou!
      É um "romance" (?) feito com as pessoas comuns, ignoradas, desprezadas, que fazem o nosso povo e o nosso país, eles sim, não nós os pseudo-cultos! Essa a grande verdade, são eles quem diariamente se arrastam a puxar e a empurrar, que são mal-vistos, mal-queridos e toda a gente se quer afastar deles, menos as TV que precisam de audiências e os políticos que precisam de votos, mas fora isso é gente que se as elites pudessem era extinta!

      Aplaudo o Hugo Mezena por ter tido a coragem de escrever sobre eles, por no-los recordar - bem eu vi-os a todos ainda esta manhã no caminho para a cidade e no centro de saúde… alguns até me acenam e cumprimentam, mas eu faço parte dos "ricos", é claro.

      Um livro a ombrear com "Entre Cós e Alpedriz", que deviam ser de leitura obrigatória!

      Saudações ricas e aldeãs cá do Bairro Ribatejano!

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  9. Li recentemente o novo livro de Joao Reis, «A devastação do silêncio». Ao terceiro livro, tenho a certeza de que será um dos grandes da literatura. Mas não em Portugal.

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