Conselhos escusados

Se há coisa que me enerva é ver nos hipermercados meninos e meninas agarrados a livros e os pais a puxarem-nos dali para foram perguntando para que querem eles «aquilo»? Não gosto de me meter na educação alheia, mas lá que dá vontade de dizer alguma coisa e de mostrar que «aquilo» pode fazer toda a diferença, lá isso dá. O problema é que estes pais que não lêem não são os únicos a afastar as pessoas dos livros. Num artigo do suplemento de Economia de um jornal lisboeta em que se falava basicamente de como poupar dinheiro, o autor avançava com várias medidas (sete, ao todo) e, de forma bastante infeliz, na que tinha o número 4, dizia que não devíamos comprar livros… Assim, com todas as letras escarrapachadas. E porquê? Segundo ele, porque, depois de lidos, os livros não servem para nada (ele não consulta nem relê, está visto). Sob o ponto de vista puramente económico, claro que os livros – salvaguardadas as excepções – raramente se revendem e não valorizam com o tempo. Mas dizer preto no branco às pessoas que querem poupar que não comprem livros é uma afronta. Eu dir-lhes-ia que comprassem menos roupa, ou andassem mais a pé para poupar gasolina, por exemplo; até poderia dizer-lhes que a versão digital de um livro custa menos que o livro em papel, mas escrever que não devemos comprar livros é igual a levar os filhos da secção de livros do hipermercado para a peixaria – anda e larga «isso», que não serve para nada! Uma lástima.

Comentários

  1. Em termos de leitura Portugal ocupa um dos últimos lugares do ranking ao lado da Grécia e Espanha, países do sul, já que são os nórdico os campeões da leitura. Agora vem um "animal" a dizer para não comparar livros? Devia ler-lhe o "Agradecimento aos Livros" de Stefan Zweig,um autor que releio sempre com prazer,que vem nas últimas páginas da obra "ENCONTROS- Impressões sobre Livros e Escritores".

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  2. Nunca assisti a pais que retiram os filhos da secção dos livros. Mas deve haver, há gente para tudo. Pois, quanto a poupanças...é bem verdade que se corta logo nos livros quando se quer poupar. O que não é sintomático de deixar de ler. Há uma coisa que se chama bibliotecas públicas e amigos que emprestam. E, embora se compre menos, ainda existem feiras do livro locais, venda de livros em segunda mão, aniversários e natais em que, sendo pedidos, quase sempre saem dos embrulhos. E há uma "extravagância" para o livro novo que queremos a toda a força. Quando se poupa - e embora seja tb uma questão de opção - a poupança é em tudo e não apenas em roupa ou gasolina (onde sempre se poupa, há muito quem só use o carro ao fim de semana). Ou, com os ordenados que a maioria dos portugueses auferem, não se consegue poupar. A distância entre classe média alta e a média baixa é hoje a diferença entre ricos e pobres. O mundo de uns nada tem a ver com o mundo dos outros. É tudo outra coisa.

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  3. Engraçado, eu quanto menos dinheiro tenho, ou maior necessidade de poupar, mais leio. É que é extremamente difícil gastar dinheiro enquanto se está a ler, ao contrário de tudo o resto, está sempre algo ou alguém no caminho com uma proposta que nos leva algum.
    Miguel Henriques

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    1. António Luiz Pacheco14 de junho de 2018 às 02:21

      Ora aí está uma verdade, um contra-argumento inteligente à estupidez do tal economista... exactamente, ler ajuda a poupar, pois lendo preenchemos muitas das necessidades que nos levam a gastar dinheiro!
      Saudações sem encómios, cá do Bairro Ribatejano.

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  4. António Luiz Pacheco14 de junho de 2018 às 02:23

    Razão para se dizer: É a economia, estúpido? (trocando o ! por ?)
    Tal parvoíce... deve ser um adepto de manter as massas ignorantes e iletradas para melhor as manipular em função da economia, coisa que muitos regimes praticaram e continuarão a tentar praticar.

    Saudações tracejantes cá do Bairro Ribatejano!

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    1. Adorei um anúncio que se via à entrada do portal da "cavalo de ferro":
      - Ler pode provocar independência.

      Miguel

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  5. É de lamentar, porque os livros trazem um conhecimento e magia que não tem preço!

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  6. Completamente de acordo consigo, Maria do Rosário!

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  7. Emílio Gouveia Miranda14 de junho de 2018 às 03:07

    Cá está um exemplo, que muitos não compreendem nem percepcionam, da diferença entre custo e valor, entre importância e preço.
    Tudo o que contribui para a cultura, a educação e a formação de um povo não tem preço, mas tem um valor tremendo, e o seu esquecimento, esse sim, é o que acaba por ter um elevado custo.
    A ignorância é barata, não parece custar nada, mas tem um enorme impacto em qualquer sociedade...
    Enfim...
    Bom dia.

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    1. António Luiz Pacheco14 de junho de 2018 às 07:39

      É bem sabido, e talvez por isso mesmo em Portugal seja feito o contrário, que um povo iletrado e doente não se desenvolve!
      Fica para que todos reflictamos sobre isso, o porquê do continuado desinvestimento na educação e na saúde! O que nos devia revoltar a todos, em vez de andarmos a pugnar por ideias secundárias e terciárias que achamos que concorrem para o nosso bem-estar ou afirmação de modernidade... todavia morre-se nos hospitais por falta de médicos e condições e o ensino continua pelas ruas da amargura!
      Revoltemo-nos, caramba!

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    2. Emílio Gouveia Miranda14 de junho de 2018 às 07:47

      Julgo que a nossa revolta deve começar por desmantelar algumas ideias e desmascarar algumas situações.
      Uma delas é de que, precisamente, o dinheiro é capaz de suprir tudo e a sua falta tudo justifica.
      Ora, também aqui se confundiu valor com preço; custo com importância.
      Enquanto o dinheiro for o maior motivador, com a necessária noção de que nada se faz sem ele, julgo que não iremos longe.
      Estamos a transformar tudo em mercadoria vendável: até os bons princípios e a ética de algumas profissões.
      Despertemos!
      Abraços para todos.

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  8. Tem bom remédio: ofereça livros às criancinhas. É muito prático abrir a carteira alheia e censurar...

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    1. Nos hipermercados não se paga para ver nem nunca ninguém me obrigou ou me impediu de folhear uma páginas de qualquer livro (ou revista) e nunca me senti obrigado a comprar por tal facto!

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  9. "...depois de lidos os livros não servem para nada" - Ora aí está mais um imbecil a juntar aos raminhos/cautelas/mourões/fernandesss que por aí pululam a bolsar alarvidades

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  10. Certamente o escrevedor do jornal de economia é familiar daquele, já referido pela Rosário, que gosta de escrever mas não de ler. Para além desta particularidade, são ambos bafejados por uma ilimitada ignorância, sem remédio, porque a cura exige a leitura. Certamente viverão felizes na sua ignorância que não lhes permite a consciência de que nunca saberão escrever ou saber algo de economia, porque as premissas em que assentam as suas convicções são contraditórias com as suas pretensões.
    Um economista que não lê nunca será um economista, assim como um escritor que não lê nunca será um escritor. Sem ler, um e outro nunca perceberão o tamanho da sua ignorância.
    Este discurso, não só ignorante mas também imbecil, não deixa de se integrar no discurso dominante, naquele que nega qualquer valor à filosofia (sobretudo enquanto pensamento reflexivo) ou à história, excepto excepto aquelas coisas em que fomos os “primeiros”, como descobrimentos, pena de morte e mais uma ou outra coisa. É que ler uma história escrita com seriedade, usar o pensamento reflexivo, dá-nos uma independência crítica relativamente a baboseiras de tv, jornais, comentadores políticos, etc.. Ora o pensamento crítico é uma chatice porque não se cala e está sempre a apontar o rei que, como se sabe, vai nu. Chato, muito chato.

    E de facto, livros para quê? Agora é só ir ao google, ao Facebook ou instagram ou outro parecido.

    PS: os livros digitais não me parecem mais baratos que os de papel. E depois há aquele pormenor do cheiros dos livros. Insubstituível.

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  11. Embora continue a ter a percepção de que cada vez se lê mais — ler-se-á de outras formas mais fragmentadas e apressadas, porventura, numa repartição cada vez mais atomista — sinto-me grato por ter tido uns pais que logo em fase precoce nos “obrigavam” a ler. A partir de certo momento a obrigação passando a hábito.
    Hoje, leio menos do que escrevo. Tendo já há muito substituído os maus hábitos do economista/gestor — esvaziado do tempo de qualidade, as tais “horas ordinárias” que fazem de nós objectos, em vez de seres humanos dedicados extraordinários, apelando à competitividade/concorrência exaurida do real valor —, pela farpela de um quase monge. Rebelado pelo mesmo sentimento de Talcott Parsons, o grande pioneiro da sociologia moderna, com a dificuldade da economia resolver os verdadeiros problemas dos Homens… os sociais! Quase resumido a escrever, ler, ensinar (gratuitamente), estudar, amar, fazer (que não ver!) desporto. Tudo isto a custo zero, como é bom de saber, porque afinal tudo o que é gratificante na nossa vida é a custo zero.
    Por esse motivo, para além de estudar economia, gestão, estudos europeus, políticas públicas (em breve, perorando sobre edição e texto, cada vez mais despojado da carga material que (até) nos aliena da morte como seguimento natural da vida, sinto-me cada vez mais “rico”: de leitura, reflexão, de tempo de qualidade, compreensão de um mundo que lastimo, porque injusto, ignaro. Mas rico de uma vontade férrea — mesmo que ilusória — de ajudar a mudar o mais difícil em cada de um nós: as mentalidades e o “modus” da compreensão da relação com a nossa vida e com a dos outros!
    A palavra que tem de ser passada a esta sociedade é a necessidade do despojo do falso hedonismo materialista mais retrógrado.
    E ler — e escrever — são antídotos seguros, mensagens subliminares para essa cruzada, que temos obrigação — como privilegiados que fomos nalguma fase das nossa vidas — de abraçar e promover.

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    1. "... da economia não resolver os verdadeiros problemas...!

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  12. Ó Pedro eu não tenho essa percepção de que cada vez se lê mais; aliás, como me dizia um amigo meu (um empreendedor, um vencedor) cada vez estou mais isolado, o mundo onde me movimento já não é assim, está a desaparecer...(palavras dele)
    Quiçá...

    Nota: durante toda a semana vou a um café e a única pessoa (dentre as centenas que por ali param) eu sou a única que levo um livro!
    Entro num qualquer transporte público e em 100 pessoas há apenas uma que transporta um livro (isto é factual, como diria JJ)

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  13. Concordo com o Miguel Henriques: enquanto se lê, não se gasta dinheiro em futilidades. Mas também concordo com a Beatriz Santos: é normal que a uma editora como a nossa anfitriã interesse vender livros, mas pode-se ler recorrendo a bibliotecas ou a amigos (quando se tem a sorte de ter amigos que leem, e que partilham dos mesmos gostos, como eu tenho). Este Sábado, por exemplo, lembrando-me de um post da Rosário, no regresso de um passeio para almoçar perto de casa, passei na “minha” biblioteca municipal e trouxe um livro da Maria Judite de Carvalho, de quem não tinha ainda lido nada. Aproveitei e trouxe também um livro do Mário Cláudio, que estava mesmo ao lado, na prateleira. Já li um, estou a acabar o outro, gostei de ambos, e só gastei sola de sapato (e pouca).
    Filipa

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  14. «Num artigo do suplemento de Economia de um jornal lisboeta em que se falava basicamente de como poupar dinheiro, o autor avançava com várias medidas (sete, ao todo) e, de forma bastante infeliz, na que tinha o número 4, dizia que não devíamos comprar livros…»

    E porque não identificar o jornal (lisboeta), o artigo e o respectivo autor?

    Já agora, e mudando de assunto, pergunto(-me) se MRP e os leitores deste blog já sabem desta notícia...

    https://www.publico.pt/2018/06/13/culturaipsilon/noticia/obra-premiada-pela-spa-vai-ter-envolvimento-de-um-membro-do-juri-1834174

    ... Referente a uma alegada «obra de peso» mencionada e elogiada neste espaço no passado dia 24 de Maio. Acaso será novamente tema de «posta» amanhã?

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  15. Este blog deveria chamar-se Horas Hipócritas.

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  16. Ahem...eu diria que se se pode poupar não comprando livros, é porque é possível ir buscá-los à BIBLIOTECA...assim, lê-se na mesma e poupa-se dinheiro. Ganha-se dos dois lados.

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  17. Estou de acordo com o que a Maria do Rosário Pedreira diz.
    MAS !!!!!! não seria melhor colocar um cartaz a dizer que livros é nas livrarias.
    Levem os vossos filhos à livraria do seu bairro.
    Por aqui me fico

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  18. A mim acontece me incentiva las para irem escolher algum livro e o dificil é arrancá las de la. Devoram tudo....

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  19. Sem dúvida que os paizinhos e os senhores economistas precisavam de ler mais livros! Pegar neles e lê-los mesmo!

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