Coitado
Já não sei quem era que, quando alguém na minha família se referia a um tipo com pouca sorte como "coitado", imediatavamente ripostava: "Coitado é corno." Não sei se foi por isto, mas, ao crescer e interessar-me pelas origens da língua portuguesa, fiquei com a sensação de que este adjectivo, "coitado", estivesse de alguma forma ligado etimologicamente à palavra "coito" e, nesse sentido, traduzisse o estado de alguém cujo cônjuge tivesse ido buscar parceiro sexual (para o coito, portanto) fora de casa... Não é totalmente mentira: a palavra "coitado" é definida pelo dicionário como "desventurado", "desgraçado", mas também como "homem traído pela mulher"; no entanto, o vocábulo "coitado" não deriva de "coito", como eu pensava, mas do provençal "coitar" (desgraçar, magoar, causar "coita", desgosto, a alguém), que, por sua vez, provém do latim vulgar "coctare", que significa empurrar, impelir, obrigar, violentar (mas não tem a ver com o "coito", insisto, embora assim de repente pudesse parecer que sim, tantas são as confessadas relações sexuais forçadas em todas as épocas e geografias). O "coito", ao que parece, vem, porém, de "coitus", que é qualquer coisa como unir-se, juntar-se (é isto a cópula, enfim) e, na origem, "ir na companhia de". Já o "coito" de quando se joga às escondidas (que estranho pensar hoje a quantidade de vezes que gritei "Coito!" na infância....) tem a ver com segurança (com "acoitar", estar protegido), embora se possa sentir "acoitado" um homem cujo coito corra bem, digo eu, e sobretudo com a legítima, para não se tornar "coitado". A língua portuguesa, já dizia o outro, é muito traiçoeira.
Bem, além do coitado há o coitadinho; na Antologia do Humor Negro do Breton há os aforismos do Fourier se não me engano, sobre as categorias do corno que são: o cornudo, o cornaças e o corneta, cada um com as suas especificidades.
ResponderEliminarEsta é uma das palavras (tal como "coitadinho") que não gosto de dizer, mas que aparece sempre quando me deparo com alguém "agarrado" pela desgraça".
ResponderEliminarEu acho que a língua portuguesa mais que traiçoeira, é extremamente rica, e isso deve-se à nossa "habilidade", ou "chica-esperteza", para ludibriarmos o próximo...
Deve dar um jeitaço aos nossos advogados, assim como as virgulas...
A língua portuguesa é tão rica, que se quisermos fintar o negregado acordo ortográfico, até o conseguimos porque temos tantos termos para designar a mesma coisa que nem os acordistas deram disso conta! O próximo passo deles, será portanto fazer eliminar da língua portuguesa todas as palavras que substituam aquelas eleitas como as emblemáticas!
ResponderEliminarIsto para tornar a língua portuguesa mais fácil de aprender, traduzi-la e portanto assim melhor globalizá-la, como promover a leitura de autores portugueses e às telenovelas, no Brasil!
Genial! Reservo desde já para mim a glória desta iniciativa, provando assim a todos a minha cultura superiormente esclarecida de barrão contumaz!
Fora isso, "tadinho" é o derivado de coitado preferido…
Coitados de nós todos!
Alegres saudações , cá do Bairro Ribatejano!
Olá a todos!
ResponderEliminarSim, sim, é comum chamar-mos a outro "coitado" seguido de "salve seja!" quando não queremos melindrar ninguém com o sentido de "cornudo". É sempre uma risota...
Em pequena também jogava ao "coito", escondíamo-nos/acoitávamo-nos até nos encontrarem!
A língua portuguesa tem tanto de riqueza como de idiossincrasias.
Saudações cá da pérola do Atlântico!
Boa!
EliminarJá viu se todos os Extraordinários passarem a despedir-se saudando do local onde se encontram??? Acho que é uma excelente idéia… continuemos assim!!!!
Caro António, obrigada pelo simpático comentário.
EliminarBoa, cálida e luminosa noite, cá da terra onde se produz o vinho degustado pelos subscritores da Constituição dos EUA, em 1866 (senão me falha a memória).
Isso não sabia… eu pessoalmente gosto muito, também, do vinho da Madeira!
EliminarBrindo a isso e à terra que o produz!
Viva, bom dia!
EliminarRetificando: A Declaração de Independência dos Estados Unidos foi assinada em 1776 e brindada com vinho da Madeira.
A Constituição foi assinada em 1787.
Adormeci sobre o número 1866 e acordei sobressaltada! Jamais poderia ser aquela data!
Desculpem os erros grosseiros e celebremos com vinho do Porto!
Saudações de uma apreciadora de néctares produzidos no nosso país, cá da pérola do Atlântico!
O vinho da Madeira também já era referido nos clássicos russos, sobretudo, salvo erro, nas obras de Tolstoi e Dostoievski.
EliminarDe facto vi referido no monumental romance Guerra e Paz, de Lev Tolstoi, o brinde com vinho da Madeira.
EliminarDe Fiodor Dostoievki, ainda só li Os Demónios e não recordo qualquer referência, mas posso até estar a fazer confusão.
O vinho produzido na ilha do Pico/Açores também era muito apreciado na corte russa.
É interessante e curioso constatar a já longa história dos nossos vinhos generosos, mas não só, é que o vinho do Pico é da classe dos maduros.
Brindemos pois!
Creio que a Catarina da Rússia apreciava o vinho de Biscoitos (Ilha Terceira), já produzido na época pela família Brum.
EliminarJá Churchill era grande apreciador do moscatel produzido em Alpiarça na vinha da família Malhou da Costa!
Tchim-tchim, cá do Bairro Ribatejano!
"Se não me falha a memória "
EliminarCaro anónimo, bom dia!
EliminarObrigada pelo corretivo.
Saudações, cá do meio do Atlântico.
E fiquei por aqui a pensar- Qual será o feminino de «corno»?Não me conformo, as mulheres, sempre em desvantagem...
ResponderEliminarEis um tema, e um texto, interessantes... viriam mesmo a propósito se uma determinada editora tivesse decidido publicar um determinado livro... ;-)
ResponderEliminarCoitado/ coito/ couto...
ResponderEliminarCoitado< coita (desgosto), da lírica medieva.
Coito = cópula.
Couto, abrigo, protecção < cautum (caveo/es/ere/cavi/cautum)