Acusações públicas

Há muitos anos, nas Correntes d’Escritas, houve uma memorável mesa-redonda numa noite de sexta-feira. Ninguém tinha combinado nada, mas os intervenientes resolveram todos fazer intervenções cheias de humor e, não bastando isso, uma autora espanhola que assistia na plateia resolveu interpelar um seu colega (que era  o único na mesa que não se ria por não perceber as piadas em português) e, fingindo-se sua mulher, fazer-lhe reprimendas e mandar-lhe recados em voz alta. Foi hilariante – até porque ele não se desmanchou –, mas todos sabiam que não passava de uma brincadeira de Angela Valvey com Ignacio Martínez de Pisón, ambos bastante jovens na altura e amigos um do outro. O mesmo, porém, não aconteceu ao premiado com o Pulitzer Junot Díaz, autor do admirável A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, de que falei aqui no blogue há uns anos. Estava num festival literário em Sydney, a falar de um artigo que escreveu recentemente na New Yorker sobre o facto de ter sido violado por uma pessoa que lhe era próxima aos oito anos quando uma senhora (Zinzi Clemmons) resolveu confrontá-lo ali mesmo com a sua má conduta com as mulheres e a tentativa de assédio sexual que lhe fizera uns anos antes, perguntando-lhe porque não aproveitara também o seu ensaio para pedir desculpa. Nem imagino como se pode sentir alguém numa situação destas (falo do escritor, embora certamente Zinzi também se deva ter sentido mal quando Junot Díaz a assediou). Dizem que o escritor deixou o festival e a Austrália depois de mais umas tantas raparigas se terem queixado do seu comportamento inadequado nas redes sociais e que depois fez uma declaração, pedindo desculpa, explicando que as sequelas do que sofreu na infância, tal como escrevera no artigo, incluem esta sua faceta, mas que está a corrigi-la e tem aprendido muito com o que se está a passar actualmente no mundo. O que não me parece é que Zinzi vá pedir desculpas pela acusação pública.

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda17 de maio de 2018 às 01:30

    Casos insólitos de um Mundo insólito em que os escritores são simples mortais, morrendo as suas vidas...
    Bom dia.

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  2. A vida deixou de ter mistério, é uma janela escancarada a Tecnicolor e a cem mil à hora; quem sabe se daqui a uns tempos Ignacio Martínez de Pisón não irá acusar Angela Valvey de violência feminista...

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  3. Como se transforma uma certa percepção (visão) do mundo, quando as próprias vítimas usam o seu papel de vítima para sobreviver e vencer num mundo feito por e para homens? O que são, por exemplo, as criações de "alta" costura para mulheres senão um expositor do corpo da mulher, deixando entrever (ou mostrar completamente) o corpo nu? Como podem mulheres que se expõem em revistas masculinas queixar-se de machismo, assédio, etc?
    Objectivamente os protestos são apenas o continuar a cultura que se pretende combater e os pedidos de desculpa uma forma de desresponsabilização.

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  4. "O que não me parece é que Zinzi vá pedir desculpas pela acusação pública."
    Porque, deveria pedir?
    Não me parece.

    Suzana Silva

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  5. Uma vergonha de comentários, incluindo isto que a Rosário escreveu.
    "O que não me parece é que Zinzi vá pedir desculpas pela acusação pública."
    Ah, pronto, se o escritor está a tentar melhorar está óptimo e não se fala mais no assunto. Já a mulher que foi vítima do homem devia pedir desculpa. Está muito certo.

    E, já agora, mesmo que uma mulher esteja quase nua não merece nem está a pedir para ser assediada, meus senhores.
    No entanto, somos todos Charlie!

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  6. António Luiz Pacheco17 de maio de 2018 às 08:39

    Vivemos numa sociedade que se apregoa livre e plural!
    Que condena violentamente o machismo, o fascismo, o totalitarismo, a Inquisição e a religião católica em particular (mas finge que não sabe do Islão) , a violência no futebol, a homofobia, o racismo, a tauromaquia e a cinegética, já começou também a condenar o especismo (última loucura...) e por aí fora!
    No entanto, essas mesmas pessoas que combatem todas estas situações, não se coíbem de exercer sobre os outros, aquilo que condenam e praticam sem qualquer pejo: o bullying e o fascismo ideológico!
    Exercem as maiores violências inquisitoriais e censoras sobre tudo e todos na busca mórbida de uma sugestão de uma qualquer incorrecção, seja na declaração de impostos, porque estacionou mal o carro, porque berrou com o filho ou deu uma sapatada no gato, porque olhou para o peito semi-nu de uma empregada de balcão generosamente decotada!
    E , ai de quem se atreva a ter ideias diferentes... a cruzada pelo política e ecologicamente correcto, mas que pratica na verdade o "faz o que eu digo, não faças o que eu faço", logo o crucifica sem apelo nem agravo!
    As figuras públicas, "põem-se a jeito" claro... algumas andam mesmo a pedi-las, mas é triste verificar que é exactamente entre aqueles que mais se autoproclamam como esclarecidos, cultos, ilustrados, que mais se verifica esta tendência censória e persecutória!
    Ainda bem que não passo de um barrão cafrealizado! Graças a Deus que não tenho de me preocupar com essas situações, se bem que esteja sujeito a ser maltratado pelos Inquisidores de serviço.
    Pobres escritores, por muito malandros e assediadores que sejam (ainda por cima assediam mulheres os estupores, porque se assediassem outros "homens" ninguém levava a mal) que são sujeitos a tais confrontos em público.
    Não que os desculpe ou apoie, nada disso, mas num encontro literário estamos focados na literatura ou no comportamento social do autor? Se alguma coisa haja a apontar-lhes, que seja noutro ambiente, porque naquele só conseguimos estragar o momento para todo o público ao mesmo tempo, o que deveria ser ponderado, mas não é, pois o acusador ou aquele que foi ofendido só pensa em tirar desforço e quer lá saber de que está a constrangir o resto da assembleia... egos! O EU, que é o que mais importa a quase toda esta gente que se acha afinal o centro Mundo, sem nunca ter feito nada de notável.
    Não, não estou a dizer que se calem, estou é a pedir respeito pelos outros e que há os meios e as ocasiões para o fazer.

    Saudações rústicas mas tranquilas cá da Cidade Morena.

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    1. berrou com o filho
      Ó Pacheco enganaste-te, o filme actualmente é ao contrario: berrou com o pai

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  7. Segundo a revista espanhola "Byola" a actriz de cinema Jessica Drake processa "macho yanque" depois de, durante o trabalho, ter sido vítima de assédio sexual.
    Durante o recente Festival de Cannes a actriz apresentou-se na passadeira vermelha, toda despida de preto.

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    1. António Luiz Pacheco17 de maio de 2018 às 09:49

      Ouve lá, da maneira que as coisas andam, ainda vamos ser obrigados a usar antolhos, ou pior a andar de olhos fechados! Porque se calha passares por uma "mulher" e olhas para ela apenas porque tens os olhos abertos, corres o risco de te acusar de assédio!
      É que algumas percebe-se o assédio... mas àquelas que muitas vezes o condenam, de todo! Pergunto-me mesmo se alguma vez terão sido assediadas e se os que lhes falta não é sê-lo!
      Já sei, é um comentário machista, mas se calhar realista, e não tarada nada vem aí um cruzado anónimo vituperar-me... quero lé eu saber!
      Aqui, as mulheres gostam de se mostrar e adoram ser assediadas... mas já se sabe é no terceiro Mundo, terra de pretos, de pobres incivilizados e atrasados, não evoluídos... mas pelo menos sente-se liberdade, enquanto aí na Europa nos sentimos cada vez mais sufocados com essa gentinha sempre pronta a apontar-nos o dedo por termos cão ou não o termos!

      Abraço!

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    2. Eu não me atrevo de modo nenhum a fazer uma festa a uma criança, sinceramente e digo-te que na praia, por exemplo, fazia-o a quase todas as crianças que passassem por mim.

      Esta gente politicamente correcta é doentia, absolutamente doentia.

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  8. A Zinzi Clemmons não é apenas uma senhora, uma anónima qualquer, é uma escritora, como o Junot Diaz. Não é por o assédio acontecer em privado que não se deve acusar as pessoas publicamente. A ver se assim ganham vergonha... Ela só devia pedir desculpa a si mesma por não o ter feito antes.
    Paula

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  9. Este post vai ficar perdido no meio de outros, sem merecer uma resposta ou justificação? Não posso acreditar que assobiou para o lado e já publicou outro post para abafar este.

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