Vergonha?
Apesar de se ler cada vez menos (falo de literatura, e não de SMS ou murais de redes sociais) – e de algumas pessoas fazerem arrogantemente alarde da sua ignorância –, a verdade é que ainda há muito quem se envergonhe de não ter estudos (por isso mentem tantos políticos a propósito dos seus currículos) e de não ter lido as obras que certos académicos consideram obrigatórias ou fundamentais (o Proust, claro). Muita gente do meio intelectual tem mais dificuldade em confessar, junto de confrades ou publicamente, as suas lacunas quanto à leitura de uns quantos títulos – alguns ficam calados no meio de uma conversa entusiasmada (e isso nota-se); outros, mais afoitos, metem a colherada na conversa com generalidades que denunciam em três tempos a sua falta de conhecimento. Mas… com tanto livro, como ler tudo? Eu, que vivo à procura do novo e publico o contemporâneo, como vou alguma vez ter tempo para ler tudo o que está para trás e falhei por qualquer razão (o Ulisses de Joyce, por exemplo)? Devo ter vergonha dessas minhas lacunas? Claro, mas que fazer? Hanif Kureishi, num interessante questionário que o The Guardian propõe de vez em quando a escritores, confessa que nunca leu uma linha de Jane Austen, confissão que, vinda de quem vem, considero um acto de coragem extraordinário. A seguir diz: «My shame is big.» Mesmo assim, a verdade a acima de tudo.
Sim, mas a Rosário esqueceu-se de dizer a razão de Kureishi nunca ter lido Austen:
ResponderEliminar" I can’t explain it. I’ve always had the impression they were books for girls, though of course she’s admired by many people of all genders."
Ou seja, nunca leu porque acha que são livros escritos para mulheres.
Isto, a meu ver, é que é digno de vergonha.
Mais um ignorante anónimo,
EliminarQue fazer ??
Sendo assim somos 2 anónimos ignorantes, não é?
EliminarFolgo em saber.
Não entendo o porquê de chamar ignorante.
EliminarO 1º anónimo foi em busca da entrevista e colou aqui a resposta do entrevistado. Não se ficou pelo que lhe deram a provar e quis saber tudo. Ao contrário de muitos hoje em dia.
Não ler um escritor ou escritora porque se acha, atenção acha!, que escreve para um certo género, é, no mínimo preconceituoso.
Não sendo o kureishi um rapazola com cérebro pouco desenvolvido, concordo e acho vergonhoso.
Já que estamos em matéria de confessar a nossa ignorância, o site brasileiro -Revista Bula- Literatura e Jornalismo Cultural, fez um desafio: A BBC diz que você leu no máximo 6 de uma lista de 100 livros.Eu por minha parte confesso também a minha ignorância, mas desses cem li pelo menos 21, incluindo o Ulisses. Acho que não estou mal no ranking da BBC.
ResponderEliminarNunca gostei muito de "clássicos" nem de "obrigatoriedades", talvez por isso tenha lido muito mais Camilo que Eça, na minha fase de "aprendizagem" como leitor, em que impunha a mim próprio, ler todos os livros até ao fim (li muita porcaria, escrita por nomes sonantes...).
ResponderEliminarHoje como leitor sigo dois princípios: ler livros pela qual sinto curiosidade e ler livros de autores que gosto (há muito que deixei de ter problemas em interromper a leitura logo nos primeiros capítulos... mesmo de escritores "badalados").
E que maior prazer há do que descobrir um autor que já se devia ter lido ? Eu ando deliciado com o Silas Marner da George Eliot. Nunca tinha lido nada dela. E devia tê-lo feito pelo prazer que me está a dar e que poderia ser um prazer antigo, mas não é.
ResponderEliminarTambém li o Silas Marner mas considero a sua obra mais conseguida o monumental Middlemarch.
EliminarObrigado pela sugestão ! Já despachei o Marner. Um delicioso livro à antiga: cheio de desgraças e maldades mas com os bons sentimentos a sair como o vencedor no final do romance. Uma história exemplar do amor entre pai e filha adotiva. Não vai ser para já o Middlemarch, mas lá irei. Terei que entretanto ganhar fôlego para tal empreitada.
EliminarNem de propósito, no livro do Hermann Hesse que estou a ler (Uma biblioteca da literatura universal) ele escreve, entre muitos outros, sobre estes temas:
ResponderEliminar- em 1907: sobre ler ou não ler livros famosos, na pág. 47.
- em 1911: sobre deixar livros a meio, na pág. 69.
- em 1945: sobre edição e publicação de livros (especial para a Rosário), no último parágrafo do livro, na pág. 109.
Onde estou não consigo transcrever, mas quem tiver a curiosidade de espreitar não se vai arrepender: é tudo tão actual, poderia ter sido escrito hoje.
Bom dia. Neste blog, algum tempo atrás quando disse que nem tinha lido algum livro de Jane Austen, foi um espanto inclusive do ASeve. Tudo bem, sempre tive mania de enciclopédia e colecção capa dura. No entanto, fui buscar Jane Austen e em um livro obtive três obras da autora inglesa, li e amei. Com esta experiência, posso afirmar o faz parte reconhecer a indicação e aceitar obviamente se lhe necessário, for. O modelo de romance da autora sem dúvidas alcança quão delicada e íntegra, se fez presente a escola de boas maneiras através da acção literária e Cultura sociológica inglesa.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Ó extraordinária Cláudia tem mesmo a certeza de que fui eu que me admirei de a Cláudia não ter lido Jane Austen? Eu creio que não fui eu, mas também não quero jurar que não fui porque, confesso que às vezes, escrevo logo aquilo que estou a pensar e por vezes cometo injustiças dignas realmente de um grandessíssimo ignorante.
EliminarEste poste é muito interessante (como todos os postes da Maria do Rosário) mas há uns que dão mais "pano para mangas" do que outros. Este, quanto a mim, é um deles.
ResponderEliminarNaturalmente, não podemos estar agora aqui a explicar razões: por que gosta ou não gosta, por que leu ou não leu ou ainda se leu um e não leu mais do mesmo escritor. Quais as razões? Essas são muitas e variadas e podem ter ligações a aspectos psicológicos, sensibilidades, económicos, aconselhamentos errados, obrigações. E nada pior do que as obrigações em matéria de leituras: tens de ler isto! Isso é que não!
Quanto aos "clássicos" ninguém, mas ninguém consegue ler tudo por muito informado que seja. E há outra coisa mais trivial: eu não sou obrigada a gostar das obras de Jane Austen, por exemplo. Ou seremos desclassificados porque não gostamos de certas obras? Agora falo do meu caso: eu leio todos os dias e leio desde que aprendi a ler. Sei que devia ler escritores que nunca li, mas não é possível ler tudo. Por exemplo: há alguns escritores dos quais já li a obra toda. E porquê? Porque (no meu caso, claro!) quanto mais leio, mais gosto e vou à procura e enquanto estou a ler este não posso ler aquele e assim por diante. E há escritores, clássicos "obrigatórios" que uma pessoa não consegue ler por razões tão estranhas, vindas lá do fundo dos fundos, sem explicação aparente. São os livros que "tocam" cordas intocáveis. Podíamos agora dar exemplos de livros que toda a gente conhece os títulos, mas que nunca ninguém leu. Clássicos universais. E podíamos dar títulos, também clássicos universais e que toda a gente leu ou diz que leu. Há de tudo para todos os gostos.
O problema do outro lado desta questão é mais grave: é que, nos últimos anos, se lê cada vez menos. Nem clássicos, nem sem ser clássicos. Isto é complicado de se resolver e eu acredito, infelizmente, que não é fácil de se resolver. Ou seja, um escritor da actualidade, dificilmente chegará a ser um "clássico". Estamos numa época nova, numa enorme transformação de hábitos. E agarramo-nos, com muita força, ao que foi e já não é. Leituras? Ainda há, mas cada vez menos.
"E o mais que não se diz por verdade" - excerto do poema "Enquanto" de António Gedeão
Cristina Carvalho
Não pude deixar de sorrir ao ler este comentário da Cristina - primeiro, porque concordo com tudo o que diz; segundo, porque parecia mesmo que estava a ler um dos ensaios do Hesse que refiro acima.
Eliminar"Agarramo-nos, com muita força, ao que já foi e agora já não é".
EliminarQue verdade, Cristina, é mesmo isto. Mas as mudanças são avassaladoras e estão a acontecer muito rapidamente.
Lá está, creio que terá sido (ou não) Mao Tsé Tung que disse o que eu já aqui referi tantas vezes: não se pode parar o vento com as mãos".
Qualquer poderíamos falar aqui: nos livros que deixámos de ler a meio (ou a páginas tantas).,
D'acordo c'os três!!!!!
EliminarConcordo. Eu tenho imensas lacunas de leitura e esforço-me por ler todos os dias e o mais e melhor possível. Também há que assumir os nossos erros, ortográficos ou linguísticos. Todos os damos. Ninguém é imune a falhas.
ResponderEliminarJá desejei boa semana? :-)
Concordo com o Artur. Aliás, reconheço um certo prazer na sensação de ainda não ter lido obras (preconcebidamente) magníficas, como Ulysses e Dom Quixote. É que há livros que exigem algum tempo e disponibilidade para serem fruídos como deve ser...
ResponderEliminarA nossa curta passagem na vida e a vastidão literária não nos permitem essa arrogância, ou vergonha, ou seja o que for.
Mudando de assunto, admira-me como ainda não tenha sido feita no blog nenhuma referência ao mais recente romance do João Tordo - ''Ensina me a voar sobre os telhados'', que é, sem dúvida, uma obra monumental. Atrevo-me até a dizer que será o seu provável Magnum Opus.
Saudações,
Maria
Caramba, meter clássicos e qualidade na mesma frase com o Tordo...
EliminarGraças a qualquer entidade superior, a literatura é vasta o suficiente para que se agrade a uns, em detrimento de outros...
EliminarObrigado pela sugestão do último romance do Tordo. Foi um autor que me fascinou com "As Três Vidas", a "Biografia Involuntária dos Amantes", o "Ano Sabático", "O Bom Inverno". e o "Hotel Memória". Depois mudou de estilo, para uma escrita seca, no osso, tipo António Lobo Antunes desde há 15 anos, e para temas um tanto psicóticos em " O Luto de Elias Gro" e "O Paraíso segundo Lars D", livros que tentei ler e não consegui. Agora com este entusiástico conselho de leitura irei experimentar voltar ao João Tordo. Será que ele regressou à sua prosa luxuriante e de histórias do tipo "mil e uma noites" ? Oxalá !
EliminarTambém gosto da escrita do Tordo (não tanto da temática, do seu estrangeirismo...).
EliminarJá está na lista.
Eu própria reconheço uma maior negritude na trilogia, algo que respeito, mas que não me seduz.
EliminarNesta obra, o existencialismo (ligeiramente obscuro) persiste, e o início da obra ameaça essa escrita mais "antunesiana". Contudo, rapidamente o leitor é transportado para uma história (ou melhor, várias) muito interessante, na qual participam personagem bem construídas, que nos são dadas a conhecer a partir de uma escrita fluída, sem grandes malabarismos. Relembra a obra de Auster e a sua imbatível capacidade criativa.
Posso estar errada, mas acredito que este romance venha a dar que falar.
A respeito do Tordo apareceu-me agora uma citação magnifica do Cabre no "Eu confesso": " Olhava a humanidade de um patamar tão alto que me interrogava sobre como podia o resto do mundo viver num nível tão baixo ". Traduzindo em linguagem prosaica: há pessoas a quem lhes sobe. Gostei muito de "as três vidas" e "o bom inverno". Mas acho que há autores muito mais interessantes para ler agora.
EliminarSandra Neves.
Uma entrevista interessante sobre o mundo editorial e cada vez mais de marketing.
ResponderEliminarComo sempre, o João Pedro George, não tem papas na língua nem se deixou contaminar pelo politicamente correcto.
https://ionline.sapo.pt/artigo/606413/joao-pedro-george-nada-me-da-mais-prazer-do-que-irritar-aqueles-que-se-acham-mais-cultos-que-a-maioria?seccao=Mais_i
Obrigado pelo link. Artigo muito interessante.
EliminarQuanto ao resto, já dizia a minha avó, "presunção e água benta, cada um toma a que quer"
Ora bem! Boa quinta - feira a todos!
EliminarPois eu cá não tenho vergonha de não ter lido X ou Y ... posso é ter pena de ainda o não ter feito, mas na leitura as prioridades são minhas e nunca dos outros, ainda tenho essa liberdade!
ResponderEliminarPor outro lado e como alguém aqui referiu , é bom ter livros para ler... ou não é? Q'uais vergonha q'uais carapuça!
Saudações desavergonhadas cá da Cidade Morena!
Ó Pacheco, vergonha, vergonha sempre ouvi o meu pai dizer, vergonha é roubar... (já não há mesmo vergonha-é, definitivamente, uma palavra mais do que em desuso, está em rápida e acelerada extinção)!
EliminarPor mais que leiamos, e mesmo que vivamos cem anos, serão sempre muitos mais os livros que não lemos, do que os que lemos.
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