Deixar de

Um dia destes ouvi uma pessoa que eu adorava ouvir cantar (falo de alguém profissional, claro) e, de repente, tive um baque: é que já não cantava mesmo nada e era completamente penoso de ouvir... Não sei se é mais terrível para o artista perceber que já não é capaz de chegar aos tons a que chegava antes, se para quem o ouve e fica a pensar por que raio não se retirou antes de um declínio tão evidente. Claro que muitos artistas precisam de ganhar dinheiro e, portanto, vão aceitando fazer espectáculos, mesmo que a voz esteja muito cansada. Mas também presumo que outros, ainda que não precisem de dinheiro, não consigam ser felizes sem o palco, os concertos, os álbuns, o público. E para um escritor, como será deixar de escrever na idade madura? Menos penoso do que para alguém que canta? Admito que, a partir dos 80, a cabeça já não deva conseguir organizar-se e recordar-se de tudo e que seja muito complicado escrever um bom livro (embora as pessoas não sejam obviamente todas iguais). Philip Roth, por exemplo, anunciou que ia parar de escrever e parou, dedicando-se agora a ler – e a ler também o que ele próprio escreveu. Mas outros escritores anunciaram (ameaçaram?) a paragem e acabaram por voltar. Para a escrita, porém, não há bichinho de palco nem público ao vivo. Porque será mesmo assim tão difícil deixar de...?

Comentários

  1. Boa pergunta!

    Talvez a escrita seja para alguns escritores uma espécie de terapia ou, mais que isso, uma salvação da loucura. Viver a realidade do dia-a-dia pode ser demasiado penoso para algumas almas.
    A ser assim, talvez pudéssemos reformular a perguntar: porque não param de editar? Será que o avançar da idade retira o discernimento ou a capacidade de auto critica? Deixo um exemplo que me é muito caro: achei os últimos 3 romances de Vargas Llosa uns bons furos abaixo do resto da sua obra literária. E estou a ser simpático com um escritor que me diz muito e elegeria como favorito, se ter um favorito me fizesse sentido.

    Rui Miguel Almeida

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    1. "Porque não param de editar?"! Então o senhor Rui Miguel Almeida intui que "os últimos 3 romances de Vargas Llosa [estão] uns bons furos abaixo da sua obra literária" (na sua opinião) e deduziu que o homem envelheceu e já não sabe escrever com a qualidade de outrora? Não colocou a hipótese, por exemplo, que este escritor, tal como todos os escritores que se prezem, fazem do seu trabalho (de leitura e de escrita) um laboratório, experimentando novos caminhos e novas abordagens? O acto de escrita é dinâmico e como tal, sofre alterações. Por outro lado, as vivências humanas trazem outras interrogações existenciais num mundo em constante mudança (isto é uma afirmação tão cliché mas é verdadeira...) e um grande escritor como Llosa (nisso concordo consigo) terá ainda muito a dizer, apesar da idade.

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  2. Não posso deixar de vos recomendar vivamente o mais cruel e o mais amargo filme que vi relacionado com idêntica situação (uma velha estrela de cinema que se recusa a aceitar que o seu reinado acabou); é um filme de 1950 de Billy Wilder, com Glória Swanson. 'O CREPÚSCULO DOS DEUSES" (Sunset Boulevard.
    Uma pérola, uma obra-prima da 7°
    arte.)

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  3. No plano da voz também, trágico o caso de Corina de Andrade.

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  4. Talvez pela frase postada pelo António Breda, por estes dias, da autoria de Hemingway: «Quando um homem tem a habilidade de escrever e o desejo de escrever, não há crítico que possa causar dano ao seu trabalho, se este for bom; ou salvá-lo, se for ruim.»
    Acrescentaria, dos autores desconhecidos do grande público, «porque o palco é o seu ecrã, ou a sua folha de papel, e o público vive em si.»

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    1. António Luiz Pacheco6 de março de 2018 às 09:17

      Aplaudo! A citação, claro, mas " porque o palco é o seu ecrã, ou a sua folha de papel, e o público vive em si", parece-me que é isso mesmo! E, afinal sem idade, porque ainda que trôpego pode o escritor subir ao palco, ao contrário do cantor, do atleta, do trapezista...
      Há atividades em que a idade pesa ou as impede e outras que não... creio que o músico tocará, o pintor pintará, o cozinheiro cozinhará, o actor actuará... o escritor, há-de escrever!
      Isto sou eu a pensar e parece-me que o que diz o Pedro Sande serve perfeitamente como a definição que faltava!

      Saudações pré-geriátricas cá da Cidade Morena!

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  5. Penso que é muito difícil sair de cena, especialmente se se tiver sucesso.

    E muitas vezes são terceiros (dependentes financeiramente...) que empurram alguns artistas para os palcos (na música...). Por outro lado há também a necessidade do foco, dos aplausos, dos abraços, das flores...

    Na literatura é diferente, os escritores normalmente são muito críticos e sabem quando "perderam a mão".

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  6. Isso é muito relativo. Dizia o Auden que "o Wordsworth secou relativamente cedo. Outros como o Yeats escreveram os melhores textos já numa idade avançada. Nunca se sabe.Envelhecer traz desvantagens, mas devem ser aceites sem espalhafato".

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  7. Olá Rosário.
    A literatura acaba por ser diferente porquanto não implica contacto com o público. Quem escreve pode fazê-lo só para si ou, quando muito, incomodar os seus mais próximos. Um cantor, por definição, precisa mesmo de palco. Por outro lado, quem escreve mal, tem o caminho atalhado: ninguém o publica. A não ser que se trate de alguém que já o fez bem. Nesse caso, compete aos editores aconselhar e, sobretudo, usar de sinceridade. Até porque existe quem não consiga avaliar-se ou ter sentido crítico no que à sua pessoa concerne. Há quem só veja a trave no olho do vizinho, como bem refere a Bíblia.
    Enfim: escrevo para dar-lhe os parabéns pelo Prémio Leya 2017. Não tinha lido o "Perguntem a Sarah Gross", mas estou a terminar "Os loucos da Rua Mazur": É um livro enorme. Não na dimensão, mas no conteúdo. E arriscado: algumas das críticas negativas que li prendem-se - suspeito - com o melindre do tema. Há quem deteste recordar as atrocidades soviéticas cometidas durante a II Guerra Mundial. Mais uma vez: há quem só suporte as falhas alheias.
    Um beijinho

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  8. E os editores de gosto duvidoso, que não entendem a verdadeira literatura, não fariam melhor figura se deixassem de "avaliar" livros e colocá-los no mercado? Exemplo: MRP

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  9. A arte é arte, mas nem todas as artes têm as mesmas características. O "bichinho do palco" do escritor existe. Conheço bons e maus escritores que são vaidosos e adoram pavonear-se. Há, com certeza, um número considerável de escritores que escreve e tem muita dificuldade na publicação dos seus inéditos. Esse constrangimento não invalida o seu trabalho nem a sua "vontade" de escrever. Tendo em conta o universo dos escritores (na plataforma escritores online já são mais de mil...) existirão diferentes motivações para a escrita e nada têm a ver com a idade, na minha opinião. Na verdade, prefiro a escrita "madura"de quem teve uma vida longa e tem muito para dizer, às patetices dos verdes anos, para as quais já não tenho paciência. Historietas e poemas bonitos todos os escrevem ou serão capazes de os escrever, até os miúdos do secundário, mas só os autores experientes de "voz" peculiar me convencem.

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    1. É verdade, Adília. E, no fundo, todos os escritores gostam de ser lidos, com mais ou menos palco. E há quem comece tarde com grande sucesso: José Saramago, por exemplo, que está longe de ser meu predilecto.

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  10. Recordar o penoso Manuel de Oliveira, já que a cantora que motivou o post é a Simone de Oliveira.

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    1. Caro anónimo: mas o Manoel de Oliveira sempre foi "penoso"...

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    2. ahahhahaah Muito bom! Também sempre achei o Manoel de Oliveira penoso. Mas não é só a Simone, no que a cantores respeita. Também a grande diva Amália perdeu grande parte da magnífica voz no final da carreira.

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