Orações
Quando visitei o cemitério judeu em Praga, lugar belíssimo, fiquei intrigada com todos aqueles papelinhos dobrados e pousados sobre as pedras tumulares, como se fossem recados dos vivos para os mortos. Em Macau, num santuário, também vi as várias orações deixadas numa espécie de oratórios bastante coloridos onde ardiam pauzinhos de incenso. Sinto que uma oração é coisa privada e íntima, pelo que nunca me ocorreria desdobrar esses papelinhos para ver o que tinham escrito, mesmo que falasse as línguas dos seus autores. Lembrei-me de tudo isto a propósito de uma notícia curiosa lida no Público: a de que, no manto da imagem de Nossa Senhora da Soledad, da Basílica de Mafra, que estava em restauro, foram descobertos documentos manuscritos dobrados em quatro e cosidos à zona dos bordados, de forma que, de fora, não se desconfiava de nada. Presume-se que serão de meados do século XIX e já se pôs a hipótese (mera hipótese, sublinhe-se) de que se trate de pedidos feitos a Nossa Senhora da Soledad por várias pessoas, uma vez que são sete (um número invulgarmente grande) e, aparentemente, escritos por «mãos diferentes». Os documentos não foram ainda lidos (até porque o manto continua em restauro e não se pode arrancar a papelada de qualquer maneira) e é provável, claro, que nunca venhamos a saber o seu conteúdo. (Talvez os especialistas sejam os únicos a poder devassar a intimidade.) Espero, evidentemente, que os pedidos tenham sido atendidos.
Bom dia Rosário. Empenhar a fé exige princípio! E, por sinal a boa ou má, tornar-se-á exercício de gestão espiritual. Diz a máxima "quem pariu Mateus que o embale" e convém (certas) excentricidades; por tratar-se módulos de esperança. Portanto, vigorar na Saudade ou no Exvoto, têm lá sua justificativa e consciência. As pessoas realizam-se de maneira apropriada, cada qual por expressar curiosidade, afeto ou agradecimento, segundo a parcela de entendimento e humildade. Simplesmente o ser humilde, revela 'aceitar' certos esclarecimentos no(s) nó(s) diante do destino, nas amarras das primaveras ou no laço do plano celestial. No que toca o aspeto religioso, entregar-se a dimensão da fé e a clarificar no semelhante, supre este cultivar a semente de esperança cada qual em busca ou não de uma certeza, donde possa reanimar e contemplar o inédito mistério humano; transcender, também signífica aprender com ternura.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Nas minhas andanças pela Europa constatei que nos túmulos da Vieira da Silva em Yévre le Chatel e nos dos irmãos Van Gogh em Auvers-sur -Oise as pessoas depunham umas pedrinhas sobre a pedra tumular significando talvez o momento de recolhimento ou oração mas não vi papelinhos; Já no túmulo do Óscar Wilde no Pére Lachaise vi escritos na pedra e vestígios de baton de admiradoras com certeza.
ResponderEliminarEsta terra onde me encontro, trabalho e vivo, é uma terra de Fé!
ResponderEliminarTambém de feitiços e de antigas entidades não-esquecidas...
A superstição cruza-se com a fé, mas a devoção a uns e outros é um facto.
Saudações cristãs cá da Cidade Morena.
Passou há pouco no "Portugal em Directo" uma reportagem em que mostraram os documentos manuscritos pelas senhoras que bordaram o manto.
ResponderEliminarEsperemos que os pedidos tenham sido atendidos - a fé move montanhas, segundo dizem...
O grande problema do escrito é a devassa. O que supostamente é de dois passa a ser do mundo sem a autorização de nenhum dos ditos. E agora até a correspondência com o divino é publicitada. Deixa, deixa... não se brinca com as santidades.
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