Preocupações

Vem o post de hoje na senda do anterior (quem não leu está sempre a tempo de procurar) – porque a minha preocupação é muito grande em relação à leitura e porque penso que os aparelhos que põem nas mãos dos miúdos para eles ficarem caladinhos só os desajudam… Leio no jornal Público (é um artigo que guardei para quando tivesse mais tempo e de que só pude desfrutar nas férias) que uma avaliação internacional realizada de cinco em cinco anos mostra que os meninos portugueses do 4º ano de escolaridade lêem hoje pior do que liam em 2011. Nesse ano, que foi o primeiro do estudo, Portugal encontrava-se na 19ª posição e, em 2016, passou para a 30ª!, uma queda bastante acentuada (pior, ao que parece, só o Irão). E o mais assustador é que os alunos deste 4º ano são, aparentemente, os que dizem gostar mais de ler e os que mostram mais empenho nas aulas (nem quero pensar o que seriam então os resultados dos outros anos). Há suspeitas de que mudanças na forma de avaliar possam ser responsáveis pelo fraco desempenho dos alunos; mesmo assim, diz o artigo que, no âmbito deste exercício, “a noção de literacia em leitura assenta não só no saber ler, mas também na capacidade de reflectir sobre o que se lê e na sua utilização para alcançar objectivos individuais e para a vida em sociedade”. Mas como é que querem que um miúdo perceba e reflicta sobre o que lê se lhe dão para a mão tudo menos livros?

Comentários

  1. Mas num estudo mais geral do índice de leitura na Europa estamos pior, no fundo da tabela atrás da Espanha e da Grécia e longe dos nórdicos campeões da leitura. Depois de 40 anos de Abril sinto vergonha com este resultado. Afinal o que anda a fazer o Plano Nacional de Leitura dos sucessivos governos? Pelos vistos nada! Algo tem que mudar se não qualquer dia somos um país de iletrados.

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  2. Pois...

    Ora ai está uma palavra quase a ser banida por estes tempos: reflexão.

    O que se passa nas "redes sociais" retrata a nova realidade... Não queiram que as crianças sejam diferentes dos adultos que as rodeiam (parece-me um bocado difícil)...

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    1. De facto, pouco adianta passar livros para as mãos das crianças e ordenar-lhes que leiam, quando os pais passam o tempo a olhar para o telemóvel.

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  3. A dificuldade que é fazê-los ler na faculdade... um texto com três páginas é visto como uma "inultrapassabilidade".

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    1. Tem a certeza? Assisti a quatro estudantes universitários de áreas diversas e tinham bastante que ler. E liam. Eram alunos medianos.

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  4. Foi então que apareceu a raposa.
    – Olá, bom dia! – disse a raposa.
    – Olá, bom dia! – respondeu educadamente o principezinho, que se virou para trás mas não viu ninguém.
    – Estou aqui, debaixo da macieira – disse a voz.
    – Quem és tu? – perguntou o principezinho – És bem bonita…
    – Sou uma raposa – disse a raposa.
    – Anda brincar comigo – pediu-lhe o principezinho. – Estou triste…
    – Não posso ir brincar contigo – disse a raposa. – Ainda ninguém me cativou…
    – Ah! Então, desculpa! – disse o principezinho.
    Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar.
    – “Cativar” quer dizer o quê?
    – Vê-se logo que não és de cá – disse a raposa. – De que andas tu à procura?
    – Ando à procura dos homens – disse o principezinho. – “Cativar” quer dizer o quê?
    – Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar – disse a raposa. – É um grande inconveniente! E também fazem criação de galinhas. Aliás, na minha opinião, é o único interesse deles. Andas à procura de galinhas?
    – Não – disse o principezinho. – Ando à procura de amigos. “Cativar” quer dizer o quê?
    – É uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer “criar laços”…
    – Criar laços?


    O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry

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  5. Feliz coincidência.
    Encontrei hoje no www.lefigaro.fr um artigo que vem a propósito:

    « “Un quart d'heure de lecture par jour, l'initiative du lycée d'Ankara fait des émules en France” -- L'association “ Silence on lit! “ tente d'instaurer en France le rituel créé par le lycée francophone d'Ankara. Objectif : généraliser cette bonne pratique dans l'Éducation nationale. »

    Na prática: todos os dias, por volta das 11,30 h, toca a campainha e faz-se total silêncio na escola, para que todos – alunos, professores, contínuos, pessoal auxiliar, etc – dediquem quinze minutos à leitura.

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    1. hummm...acho bem. Mas ler para os outros também ajuda. Um professor a ler para os alunos, os filhos para os pais. Com hora marcada, pois. Mas não as histórias para adormecer.

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  6. António Luiz Pacheco8 de janeiro de 2018 às 07:07

    Não sabia desse estudo e nem dos rankings...
    Quer então dizer que a nossa malta, a miudagem, a juventude lê pouco!
    Acredito que sim, pelo que vejo e agora pelo que leio.

    Onde está a solução?
    Na Escola? Creio que passa fundamentalmente por aí, e, à escola competirá conduzir os alunos para a leitura, através de formas estimulantes que eu não sei quais são porque não é a minha horta! Mas, sei que a escola teve ainda influência na minha formação de leitor, através das aulas de português (muito pouco as de francês e inglês, pois os livros que nos eram apresentados, enfim, não eram lá muito interessantes tanto quanto não me recordo sequer!) e em particular das selectas literárias, onde encontrei excertos de livros que depois procurei ler - e foram tantos!
    Porém, será que a escola, da forma como funciona hoje, com políticas educativas definidas por teóricos sem experiência de ensino primário/secundário? Políticas essas que mudam constantemente, que desprezam o professor e o seu papel? Que só pensam em economizar, usando de contratações que desanimam e desmotivam os professores? Que lhes vem rebaixando o estatuto para níveis vergonhosos, aquela que devia ser a mais nobre e considerada das profissões e carreiras?
    Enfim... enquanto não se investir no ensino, começando desde logo por investir no professor, depois na escola e por fim no aluno... esqueçam, não só a leitura, mas a educação, a formação, a aprendizagem, a excelência e o mérito. Esperemos que alguém perceba isso e o modifique. Mas enquanto os opinadores de serviço e os media continuarem a dar a idéia de que o professor é o mau, não vale a pena!

    Em casa? Bom... a geração que hoje tem filhos em idade escolar é a geração que está mediatizada e digitalizada, logo que esperar dela? A que se acha informada porque lê tudo e mais alguma coisa na net e nos rótulos dos produtos que compra! É uma geração que não lê, e ainda há dias discutíamos em tertúlia que é uma geração que anda à procura de si mesma, cada um de se compreender. Ou seja, é fechada, vive para os seus sentimentos e ideias que procura impor a todo o custo, em vez de buscar a compreensão dos outros e do que os rodeira e daí então ter a compreensão própria.
    É um Mundo egoísta, virado para dentro de si. Só lerão aquilo que lhes diga o que querem ler, jamais lerão os grandes temas dos grandes autores que escrevem para o Mundo, para os outros. Só lêem o que lhes alimenta o seu ego, esgotam os livros de autoajuda escritos por espertalhões que descobriram um filão, os livros escritos sobre sim próprios dos proclamados "famosos", livros de dietas e pseudo-bem estar e viver... não lêem nada que os faça pensar, que lhes dê compreensão própria dos assuntos mas sim aquilo que outros pensam que é ou deve ser - os tais fazedores de opinião, os comentaristas, os analistas quase sempre da treta, porque não dão trabalho: põem as questões e dão as respostas, como absolutas e únicas! Fácil!

    Enfim, esperemos que como sempre, o Mundo dê a volta que se prevê que vai dar, e a moda passe. Esperemos...

    Saudações esperançosas do Bairro Ribatejano!

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    1. Na Escola...
      -Ó Pacheco, poderei estar enganado mas tenho cá uma sensação que mais de 75% dos professores não lê nada de nada para além do que o obriga a profissão.

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    2. António Luiz Pacheco8 de janeiro de 2018 às 11:48

      És capaz de ter razão... não sei! Mas, sabes qual a carga horária-real de trabalho de um professor? Entre preparar as aulas, fazer e corrigir os testes e outras avaliações, o trabalho burocrático que vão inventado para aliviar a escola que recai no professor e é cada vez mais... fica muito pouco para o resto, para a família e para eles-mesmo. Isso eu sei! Mas ninguém sabe, disso ninguém fala...

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  7. Tal como diz o Luís Eme... Não queiram que as crianças sejam diferentes dos adultos que as rodeiam...
    No centro comercial- Os pais ao telemovel e as crianças a baterem-lhes se eles não lhes obedecerem...mas estes atrasados mentais algum dia leram um livro? Como poderão os filhos ler?

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  8. Percebo esta preocupação face a uma geração tão diferente no desenvolvimento dos sentidos.
    Mas também sei que o mundo sempre 'pulou e avançou'.
    E que novos tempos de aprendizagem, novas formas de desenvolvimento do tecido social vão sendo tecidas.
    Não há, penso eu, que ' embandeirar' em pessismismo, julgando que o mundo que temos pela frente é pior do que aquele que ultrapassámos. É sim um mundo novo. Mais democrático no acesso ao conhecimento. Mais fragmentado no acesso à informação, mais célere e desconcentrado nos interesses.
    Um puzzle com peças cada vez mais pequenas que se encaixarão um dia.
    Será que não somos nós os que lêem, escrevem, reflectem, que já completámos muitos puzzles e charadas, que esgotámos a nossa capacidade de entender e aceitar a mudança?
    Talvez para os editores seja hora do retorno à edição dos contos curtos; da percepção de um mundo plural que necessita de novas fórmulas.
    Talvez seja hora de percebermos que o mundo da escrita fragmentando-se, diferenciando-se, não esperou por nós... pulando e avançando de modo, tão caótico como ordenado, como bola de criança.

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  9. Nos anos em que as crianças brincavam, agora também brincam, fazem-no é através de outros artefactos. Não vejo mal nisso.
    Nos anos que se seguem é que é preciso criar o hábito e a vantagem da leitura. No meu tempo isso fazia-se com livros, penso que hoje terá que fazer-se também, e principalmente, com outros meios.

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  10. Provavelmente a explicação para o problema não está principalmente no (ab)uso de acessórios tecnológicos nem na diminuição dos índices de leitura. Repare-se no ano em que começou a avaliação: 2011... quando em Portugal o AO90 começou a ser aplicado à força.

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