Com ou sem história
No ano passado, o programa da Câmara de Lisboa que classifica alguns estabelecimentos da capital como estabelecimentos com história (desde luvarias a lojas de velas e ferragens) passou a incluir a Livraria Aillaud & Lellos, na movimentada Rua do Carmo, aberta ao público desde 1931 e com clientes certos há décadas – sobretudo desde que o comércio de livros se massificou e, com ele, se deteriorou o atendimento ao público. Mas, como já tinha infelizmente acontecido com a Livraria Portugal (e Pacheco Pereira escreveu na altura sobre o assunto um belo artigo), a Aillaud & Lellos fechou portas no dia 29 de Dezembro de 2017, mesmo sendo uma «loja com história», porque não era simplesmente possível suportar o aumento da renda… Pois bem, acabo de saber que fechou também a Livraria Bulhosa do Centro Comercial das Amoreiras e caíram-me os queixos, pois tinha ideia de que era um estabelecimento que vendia muitos livros e dava dinheiro aos proprietários (talvez a renda tenha também aumentado para lá do imaginável, já não digo nada). Com ou sem história, a verdade é que as livrarias estão todas a fechar. Dizem-me que as FNAC estão já a pensar vender electrodomésticos grandes, máquinas de lavar e frigoríficos... Para onde irão os livros quando isso acontecer?

"É a economia, estúpido!"
ResponderEliminar(sic uma intervenção qualquer no parlamento ou coisa parecida)
Ninguém trabalha, investe, produz, sem retorno! No entanto hoje exagera-se e porquê?
Pois por culpa do consumidor que se atinge a si mesmo, o consumidor que se presume moderno, esclarecido, politicamente correcto, interventivo, opinioso... MAS:
Pugna pelo bem estar da sociedade, mas quer comprar barato para poder comprar muita coisa, sem se interessar como ou de onde vem o que compra! Ah, claro só compra produto biológico mas não está disponível para pagar o custo da agricultura tradicional, portanto é enganado... quer defender o ambiente e a paisagem, mas ao mesmo tempo quer chegar mais depressa ao seu destino, logo usa autoestrada! Reivindica cada vez mais salário, educação e saúde, mas depois queixa-se dos descontos sobre os mesmos...
Fala muito em defender isto e aquilo, sem querer saber se está a destruir actividades, pessoas, a economia... indigna-se com o fecho de livrarias e do comércio tradicionais, mas compra tudo no hipermercado, porque é mais fácil, rápido e pode comprar muito mais com o mesmo dinheiro, ainda que arruinando-se a si mesmo, pois nem toda a gente trabalha nos hipermercados, muitas vezes até trabalham para quem estes arruínam!
Como admirar-se do encerramento dessas livrarias? Ou lojas? Que no fundo só servem para os turistas visitarem e fotografarem, se calhar o rendimento é baixo, as rendas são proibitivas até pelas imposições e taxas que os senhorios sofrem e depois as lojas ainda pagam mais taxas e licenças, impostos, contribuições e um ror de despesas.
Mais do que a economia, é a modernidade! Aguentem com ela...
Saudações cá da Cidade Morena
Ó Pacheco, eu diria mais:
Eliminar"É o sistema, estúpido!"
* «DetEriorou»
ResponderEliminarClaro, obrigada.
EliminarTrabalharemos com superomputadores, tudo será comprado online, tudo nos há-de chegar em drones e o "ministério da solidão" (recém criado em Inglaterra) será mais importante que o das finanças. The Brave New World is coming !
ResponderEliminar(a extraordinária fotografia que a Rosário escolheu para ilustrar este post é das mais tristes que vi em tempos recentes: tudo nela nos transmite uma funda melancolia)
A propósito do que diz o Artur no primeiro parágrafo, sugiro que leia(m) o texto de Viriato Soromenho Marques intitulado “Falta Tempo ao Futuro”, publicado na secção “Opinião” do DN da passada 4ª feira 17 Janeiro.
Eliminarhttps://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/viriato-soromenho-marques/interior/falta-tempo-ao-futuro-9052783.html
Artur, a reportagem que passou na tv também foi bem triste, com 2 empregadas a retirarem os livros das prateleiras e a não conseguirem reter as lágrimas - fiquei com um nó na garganta...
EliminarEu faço o que posso, compro muitos livros, privo-me de outras coisas para poder comprar livros, mas a verdade é que tenho de reconhecer que já quase ninguém se interessa pela literatura.
O discurso proferido hoje pelo Presidente Marcelo no Congresso "Portugal no Futuro", organizado pelo ISCSP, também tem um bocado a ver com as questões colocadas pelo Viriato.
EliminarÉ preciso cuidado, porque na verdade, por definição, "Falta Tempo ao Futuro"...
Para lembrar Eugénio de Andrade, que faria hoje 95 anos, deixo aqui um pequeno poema:
ResponderEliminar«Castelo Branco
Com o sopro da manhã e o aroma
das frésias eu sonhava longamente.»
Eu entendo que o livro enquanto objeto de aprendizado ou recurso educativo e nem só, tenha monumental importância para além do conceito físico; instrumento de integração cultural entre os povos e difusão de conhecimento. Elaborar a "indiferença" em termos culturais ou até mesmo reduzir a convivência com livros, nem justificar-se-ía (algo no modo) conveniente ou salutar. Simplesmente, ocorre a dilatação ou não no fenômeno comercial, dita isto o veículo de transição com acirrado volume de informação diária. Na actualidade a fragmentação textual torna-se a principal concorrente dos livros. A satisfação do leitor ou melhor a expressão "apetite" do leitor, moderou se lhe comparar à outros tempos. As plataformas de notícias, chegam instantaneamente e despejam páginas e páginas das mais variadas, informações. Redes sociais e aplicativos concorrem ocupar sintomaticamente ou modo sistêmico as relações humanas, obedecendo o critério de não ostracismo. Tal movimento, vem sendo preenchido e segundo a pressão social, absorvendo e integrando a demanda o interesse comum de socializar ou se lhe deixar conduzir. Quer queira ou nem, significa trabalho, aproximação e exposição de idéias. Também, significa mudança na expressão ou paradigma nesta forma de pensar e, exactamente esta forma que dissemina ou descontrai no campo virtual, vem a ser o novo conceito físico.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
As livrarias que ainda têm público talvez devessem dedicar um espaço para venda de todos os tipos de artefactos que vão surgindo e que são suporte de informação ou literatura, mantendo-se sempre atentos às novidades visto que a digitalização ainda tem muito para dar. Um 2.º espaço para livros valiosos, isto é, caros por qualquer razão independentemente da qualidade artística, também podia ser equacionado. Não são ideias a favor da literatura, bem sei, mas são-no em abono do comércio, área de atividade onde as livrarias estão inseridas.
ResponderEliminarBoa noite.
ResponderEliminarPorque não procurar ao esposo ?
Depois escrever um artigo correto fazendo uma análise bem feita sobre o assunto.
Rendas !!! Concorrência desleal dos tubarões!!!! Uma 'APEL' cinzenta que apenas protege o que lhe interessa!!!!! etc. etc. etc.
Por aqui me fico pois a justificação de um homem ligado aos livros há 56 anos daria uma análise de muitas páginas e os grandes monopolistas do ramo livreiro talvez não gostassem de ouvir ou ler.
Eles talvez não gostassem...???
EliminarMais uma razão para dizer de sua justiça e até talvez identificar-se, ou será que está com medo?
Esse, é um problema gerado pela economia neoliberal. Criaram artifícios e meios de entretenimento que distraem as pessoas e as levam a perder o interesse pela leitura, para além disso, quem vendia livros, fazia-o como se estivesse a vender detergentes e electrodomésticos... vamos pagar tudo isto, bem caro, no futuro...
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