Ainda as mulheres

Por causa de um trabalho que estou a fazer, tenho descoberto uma data de coisas sobre escritoras portuguesas que desconhecia, sobretudo aquelas que escreveram numa altura em que a maioria das mulheres era analfabeta, e cuja «obra» (quase sempre manuscrita, não publicada) ficou frequentemente no espólio da família ao longo de gerações e só acabou por «transbordar» para o público quando os estudos literários resolveram remexer em caves e arquivos e desencantar cartas, diários e outros documentos muito interessantes. Na sequência desta investigação, descobri igualmente um site muito interessante, da responsabilidade da Faculdade de Letras de Lisboa, dedicado às escritoras portuguesas anteriores a 1900, entendendo-se aqui «escritoras» e «portuguesas» no seu sentido mais amplo. Na pesquisa por nome, aparece a identificação da senhora em causa (naturalidade, filiação, datas de nascimento e morte), seguida da informação sobre o que escreveu e o que se escreveu sobre ela. Não raras vezes, a bibliografia própria é bem mais reduzida do que a passiva – veja-se o caso de Francisca Possolo da Costa (ou «Francília, Pastora do Tejo», seu pseudónimo), por exemplo, nascida no final do século XVIII. Para quem se interesse, aqui vai o link:


 


http://escritoras-em-portugues.eu/1446822572-HOMEPT


 

Comentários

  1. Boa descoberta e boa dica.

    E claro que espero que este blogue não se esteja a tornar "feminista", pois prefiro sempre as coisas "humanistas". :)

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  2. António Luiz Pacheco30 de janeiro de 2018 às 02:05

    Belo tema e Extraordinária descoberta, a desse site, claro. Porque terem havido mulheres notáveis na escrita, não é novidade nenhuma!

    Faço uma reflexão: a maioria das mulheres eram analfabetas... bom, e a maioria dos homens era o quê?
    Analfabrutos, pois então! - Peço desculpa pelo termo que não pretende ser ofensivo, é apenas um lugar comum ou expressão popular.
    O estado de iliteracia era o mais corrente, comum e vulgar entre a população de todos os sexos e camadas sociais, se bem que na proporção inversa desse posicionamento. E, digo camadas sociais, não falo de estratos económicos, porque sempre conheci gente muito rica e muito ignorante, iletrada e rude.
    As meninas dos estratos médio e alto, aprendiam a ler e a escrever entre outras prendas, em casa, nem que fosse pelo missal ou Bíblia. Portanto analfabetismo só mesmo em séculos mais recuados. Notem bem o que eu disse: estratos sociais médio e elevado, porque ao nível dos estratos mais baixos o analfabetismo era geral e assexuado!

    E foi assim até bastante tarde, eu recordo-me de enfermeiro/a/s que tinham a quarta classe, apenas! Eram ensinados pelo médico local que depois os apresentava a um exame qualquer e eles podiam exercer, era comum nas vilas e aldeias. Hoje enfermagem é licenciatura... mestrado e por aí fora!

    Portanto acho redutora essa visão das pobres mulheres analfabetas, que não o eram apenas por serem mulheres e sim por via do subdesenvolvimento ou condições sociais que vigoravam nas épocas.
    Já sei que me vão dizer que às mulheres estaria dificultado o acesso a determinados estudos, é verdade e isso também tem a ver com o modo de pensar que não achava próprio uma mulher ser médica ou advogada, nem oficial do exército. Foi ultrapassado, mas não faz das nossas avós, analfabetas!

    Tivémos mulheres ilustres, a história está cheia delas, o que se passa é que quase toda a gente não quer pura e simplesmente saber da história! Portanto há que divulgar a história para que as pessoas percebam que é nela que está o nosso passado e como este influi no presente e condiciona o futuro. O que a nossa anfitriã nos trás aqui, e é deveras um tema interessantíssimo, é história! A nossa história!

    Saudações históricas cá da Cidade Morena!

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    1. Também é interessantíssimo escrever português correctamente:

      - TER havido mulheres
      - nos TRAZ aqui

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    2. «...sim por via do subdesenvolvimento ou condições sociais que vigoravam nas épocas.» Mesmo! O feminismo em doses exageradas é perigoso, como necessariamente o machismo. Mas exagerado mesmo caro António é o anonimato.

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    3. António Luiz Pacheco30 de janeiro de 2018 às 11:53

      Caríssimo Pedro:
      - O anonimato no fundo é uma forma de cobardia... pode haver muitas e elevadas razões, mas é sempre falta de coragem para dar a cara ou se assumir alguma coisa!

      Neste caso ele (o anónimo) teve razão em me apontar erros de escrita, aliás crassos e próprios de quem apenas está a escrever aqui, sem rever o que escreve, não por falta de respeito pelos que me leiam, mas porque me sinto em casa, há já uma certa informalidade e por isso podemos vir aqui em calção e chinelo ou em pijama, que ninguém leva a mal.
      No fundo o que ele anónimo pretendeu, foi dar-me uma alfinetada, dizer-me que sou inculto, analfabeto e portanto minimizar aquilo que digo. Não logrou fazê-lo, quere (estou a escrever bem?) você e quero lá eu bem saber... dou erros e assumo que sim, tive pessoas a fazer-me correcção de textos e sei que não sou perfeito na gramática ou na ortografia, nem é esse o meu objectivo.
      No entanto não deixei de apontar a correcção feita e que tentarei evitar, como é óbvio.

      Preocupa-me bem mais o conteúdo do que a forma... e a quem goste de pensar e conversar nos temas que aqui nos trazem e em volta dos quais nos reunimos em cavaqueira, deixará passar muito erro com a displicência dos que maduramente lêem e conversam.

      Um abraço aí para a capital do império!

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  3. Curioso, eu próprio estou a trabalhar num projecto relacionado com ficção feminina. Já conhecia a página; aproveito para sugerir outros recursos interessantes:

    Base de Dados em Estudos sobre as Mulheres
    http://www2.uab.pt/cemri_esm/index2.php?p=false

    A Mulher na Literatura
    http://www.amulhernaliteratura.ufsc.br/

    Catálogo de Escritoras Brasileiras
    http://www.catalogodeescritoras.ufsc.br/

    Bibliografia do Conto Português (séculos XIX - XX)
    http://www.vitraldigital.com/clepul/index.asp

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  4. Já agora alguém me ajude a procurar um livrinho e o seu autor :"Scenas da Minha Aldeia" de Joaquim Pinto de Sousa Macário, editado no Porto por volta de 1840 e émulo de Camilo Castelo Branco. Obrigado a quem me ajudar.

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  5. Aprendi sobre respeito, raras vezes. O respeito nasce consigo no tamanho que se há e, haveria pertencer (em tese) às notas e as natas, graúdos. Todavia, o tamanho da história se lhe pertence gente, gente de todo tipo com jeito e formas de ser e, se lhe mencionar segundo a eficiente prática orgânica de estabelecer e estabelercer-se nas balizas do respeito. Este acervo, atravessa séculos em ser testemunha fidedígna de tais parâmetros. Nem esgota-se com os eixos de coordenadas e variáveis ou na sofisticação da genealogia, algo mui simples. Elevado patamar é a posse e possuir o registo, já nem extraviado se está. Elas são tantas, com arrepios e verdades, soluço e alegria; dão fé de si e dos atos. São gente de carne e osso, transitam e existem através das letras, fazem-se presentes compondo a luz dos séculos vindouros. Mulheres respeitáveis por pertencerem-se no tempo.


    Cláudia da Silva Tomazi

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  6. Ainda as Mulheres

    "...Only for a nanosecond of human history have men even slightly shared what was once exclusively a woman’s burden: the relentless daily labor of caring for another person’s body, the life-preserving work of cleaning feces and vomit, the constant cycle of cooking and feeding and blanketing and bathing, whether for the young, the ill or the old. For nearly as long as there have been humans, being a female human has meant a daily nonoptional immersion in the fragility of human life and the endless effort required to sustain it.(...)
    The most obvious cure for today’s gender inequities is to put more women in power. But if we really hope to create an equal society, we will also need more men to care for the powerless — more women in the boardroom, but also more men at the nurses’ station and the changing table, immersed in daily physical empathy. If that sounds like an evolutionary impossibility, well, it doesn’t violate the laws of physics, so we can achieve it. It is surely worth at least as much investment as defeating death.(...)

    https://www.nytimes.com/2018/01/25/opinion/sunday/silicon-valley-immortality.html

    Desculpem não traduzir, mas não sou muito boa com traduções e para além disso os meus filhos já me chamaram 5000 vezes.
    Se puderem leiam este artigo da Dara Horn, que vale a pena.

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    1. António Luiz Pacheco30 de janeiro de 2018 às 12:03

      Interessante, sim senhora!
      No entanto, atrevo-me a dizer que aquilo que é descrito como os deveres ou actividades das mulheres, não foi sempre assim... o lugar da mulher é relegado para essa situação quando as sociedades sedentarizam e se tornam desenvolvidas, parece-me! Tem a ver com uma divisão de responsabilidades e deveres, talvez melhor explicada pela antropologia física do que pela cultural.
      É uma consequência civilizacional, portanto e se bem me faço entender.
      Mas concordo que com a mesma evolução que fomos tendo, há um novo posicionamento, aliás lógico, o que não significa que haja uma reviravolta de 180 º. Isso seria voltar atrás!
      Igualdade de direitos e oportunidades, mantendo as características e as diferenças entre sexos, digo eu.

      Cumprimentos de quem cozinha, lava a loiça e faz muitas tarefas domésticas... só não sou capaz de passar a ferro!
      A minha empregada aliás aprova e diz constantemente : Seu Pácheco é muito órgánizado!

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  7. Muito obrigada pela partilha. Na quinta feira fui a um evento de lançamento de um livro sobre Leonor, Marquesa de Alorna, e surgiu a questão de não haver muitas autoras portuguesas, conhecidas, anteriores a ela. Mencionei esta página, e tê-la descoberto ainda esta semana no seu blog. Irei partilhar no meu blog, em breve, o seu achado, com os devidos créditos.

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