Sempre na moda

Releio livros e revejo filmes de que gostei muito quando li e vi pela primeira vez, mas que agora me parecem tremendamente datados, e garanto-vos que não é por não haver neles telemóveis ou computadores. É uma coisa que se sente – e até já me aconteceu com autores importantes, como Vergílio Ferreira, ou filmes muito «badalados», como American Gigolo. Mas há autores que, por mais que se vão tornando de nicho, nunca passam de moda – e é o caso de Eça de Queirós (que até se permite ser «continuado» por outras mãos no século XXI) ou Camilo Castelo Branco, que, usando embora linguagem que hoje os jovens acharão decerto rebuscada, permanece profundamente actual, como nesta passagem, em que descreve com primor um «novo-rico»:


 


«No Chiado abjurou um chapéu de molas de merino, e comprou outro de castor, à inglesa. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas da sua vida. No vesti-las arrostou com dificuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo tempo, e ajudou-o na árdua empresa.


Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da inexperiência do sujeito desconhecido. Um deles, confiado na inépcia tolerante do provinciano ou suposto brasileiro, disse, a meia voz, ao outro:


– Quatro pés nunca vestiram luvas.


Calisto encarou nele com sorriso minacíssimo, e disse à luveira:


– As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos.»


 


Pertence a A Queda de Um Anjo. Que maravilha, não é?

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda13 de novembro de 2017 às 01:09

    Uma pérola!

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  2. Tive desilusões quando fui ler obras que me tinham agradado há muitos anos e deslumbramentos por outras que ultrapassaram a excelente impressão que me haviam deixado. Como não foram as obras que mudaram...
    Camilo é um autor a quem, como Vieira e Aquilino, regresso com frequência para compensar uma certa pobreza lexical e sintática que se pratica atualmente.

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  3. Vou ser diferente... não sei se por mania se por quê, mas, confesso que nunca me aconteceu ficar desiludido por ir reler um livro (ou ver um filme) que me tenha agradado alguma vez ou nalguma idade. Ainda há um par de semanas fui reler um livro de Salgari (a propósito da estada do meu sobrinho na Austrália). Encontrei ainda ali aquilo que me conquistou, se bem que hoje tenha também encontrado algumas imprecisões, erros e fantasias sobre os indígenas ou animais que entretanto descobri. Mas não me desiludiu mesmo nada... a magia do relato continua lá!
    Posso dizer o mesmo de outros livros da minha juventude. Para esta traça dos livros, o amor a eles é eterno e incondicional.

    Saudações intemporais cá da Cidade Moderna!

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  4. Como escrevi, há tempos, no meu blogue, ler "A Queda de um Anjo" é aprender bom português. A ironia em relação aos valores e à sociedade em que o autor viveu não perdeu nada da sua vivacidade. Por isso, não me pareceu datado, ao contrário de "Eurico, o Presbítero", do qual também já aqui falei.

    E porque é tão bom, aqui vão mais alguns excertos de "A Queda de um Anjo" (da edição ebook, do Projecto Adamastor):

    «Perguntado porque deixara de tomar rapé, costume indicativo de homem pensador e estudioso, respondeu que alguns escritores modernos atribuíam ao amoníaco, parte componente do rapé, o deperecimento das faculdades retentivas, pela acção deletéria que o poderoso alcali exercitava sobre a massa encefálica. Além de que a fumarada do charuto, sobre ser purificante e antipútrida, dava aos alvéolos solidez, e consistência aos dentes».

    «Foi neste instante que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado esquerdo do peito, entre a quarta e a quinta costela, um calor de ventosa, acompanhado de vibrações eléctricas, e vaporações cálidas, que lhe passaram à espinha dorsal, e daqui ao cérebro, e pouco depois a toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor mais virginal.
    Disto não deu tento Adelaide nem a outra gente.
    Duas enfermidades há aí, cujos sintomas não descobrem as pessoas inexpertas; uma é o amor, a outra é a ténia. Os sintomas do amor, em muitos indivíduos enfermos, confundem-se com os sintomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa prática para discriminá-los. Passa o mesmo com a ténia, lombriga por excelência. O aspecto mórbido das vítimas daquele parasita, que é para os intestinos baixos o que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os sintomas de graves achaques, desde o hidrotórax até à espinhela caída».

    «O presidente: - Fica reservada para amanhã a palavra ao senhor doutor Libório de Meireles, e está fechada a sessão.
    O doutor Libório de Meireles era o deputado portuense, que pedira a palavra, durante o discurso de Calisto Elói.
    - Que sairá daquele arganaz? - perguntou o morgado de Agra ao abade Estevães.
    - Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros.
    Calisto sorriu-se e disse:
    - Estou bem aviado, se ele escreveu livros!»

    E aqui o início da carta de Camilo Castelo Branco ao seu editor, a propósito de "A Queda dum Anjo":

    «IL.mo E EX.mo SR. ANTÓNIO RODRIGUES SAMPAIO

    Meu amigo.

    Volto a oferecer-lhe uma das minhas bagatelas. Chamo assim, para me fingir modesto, bagatelas a umas coisas que eu reputo no máximo valor».

    Estou, por acaso, a ler "Só", de António Nobre (também edição do Projecto Adamastor) e, apesar de alguns poemas serem excecionais, outros há que acho muito datados (e, desculpem a minha franqueza, aborrecidos).

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  5. Esta trindade clássica é imbatível (Eça, Camilo e Aquilino) que sempre releio com prazer. Ainda agora acabei "Coração, Cabeça e Estômago" do Camilo. É claro que me deliciei com as desventuras do Calisto Elói. Todo o Camilo é importante, menos a sua poesia que acho francamente "fracota", e destacaria a noveleta "O Senhor Ministro" bastante actual por sinal.

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  6. Camilo Castelo Branco, esse malandreco epicurista com um manancial léxico genial, capaz de fazer empalidecer o mais profícuo e avassalador caudal deste Ocidente conhecido.

    Nas Palavras de Fermín Romero Torres
    ( Guru e parafraseador notável )
    Se bem que um pouco exagerado*

    * letras minúsculas , tipo cláusula bancária


    Mas a propósito de anjos ( caídos ou não) :

    " Conheci alguns, ao longo da minha vida.
    Nunca me habituei à absoluta singularidade do seu aspecto.
    No entanto, foi-me dado a entender, que apesar de por esse mundo fora, aparecerem representados com enormes asas " penudas".
    Mais que não é, do que apenas isso.
    Um símbolo da sua inegável característica, a leveza."

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  7. Mais uma achega. António Borges Coelho, a propósito do seu trabalho de historiador disse numa recente entrevista: "Nunca começo um texto sem ler um poema ou uma prosa, por exemplo, de Camilo, aquela prosa enxuta de alguns contos ou novelas e de pedaços dos grandes romances, verdadeiramente lapidares. Eça tem muitos adjectivos, mas Camilo afina o ouvido".

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