Profético

Sinclair Lewis foi o primeiro escritor norte-americano a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1930. Mas o reconhecimento pelos seus romances satíricos, críticos dos políticos corruptos e do materialismo fútil da classe média americana não abarcava ainda o  livro de que falarei hoje, publicado em 1935, que se tornou uma obra profética após a eleição de Donald Trump. Escrito durante a Grande Depressão e publicado quando o fascismo começava a emergir na Europa de forma alarmante, Isso não Pode Acontecer Aqui conta a história de Buzz Windrip, um demagogo xenófobo e racista e que, apesar de praticamente iletrado, consegue derrotar Franklin Delano Roosevelt nas eleições presidenciais com a promessa de um regresso da América à prosperidade e ao orgulho, acabando por instaurar um regime ditatorial apoiado por forças militares altamente repressivas que nunca até ali os eleitores julgaram possível. No centro da acção, está Doremus Jessop, um jornalista do Connecticut que testemunha com horror a fragilidade da democracia e se torna um dos grandes resistentes à tirania, passando à clandestinidade. Oitenta anos depois da publicação original, este livro é assustadoramente atual.


 


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Comentários

  1. O escritor norte-americano ganhou precisamente no ano em que também foi candidato o obscuro poeta português António Correia de Oliveira, apoiado pelo Estado Novo que tinha pelo menos um apoio no Comité Nobel. Informação recolhida no interessante livro de Kjell Espmark -"The Nobel Prize in Literature- A Study of the Criteria behind the Choices", que foi membro da Academia Sueca em 1981 e presidente do Comité Nobel em 1988, portanto sabe do que fala .

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    1. Hoje em dia pode ser obscuro, mas nos anos 30 foi nomeado várias vezes para o Nobel da Literatura.

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  2. Emílio Gouveia Miranda9 de novembro de 2017 às 03:11

    No Universo Literário é sempre possível encontrar o Futuro no Passado. A capacidade do escritor antecipar é inegável...

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  3. Claro que o post de hoje, trás à tona (qualquer) timbre de responsabilidade histórica e mundial. O manancial literário até então, década de 30 existira de modo particular ou interiorizado, no seio de país(es) de conjectura(s) segmentada. Ser civilizado requer disciplina e, certamente repara-se a mudança social de hábito; se o vê, se o ouve ou se naturalmente despido de carácter remete, lá o taxar modo regime por questioná-lo. Em muitas culturas questionar surge posterior à se estar ou não satisfeito, já a comodidade neutraliza quer defesa ou ação através do conforto. América do Sul o termo "saia justa" é muito simples ao revelar através do entretenimento e o faço exemplo a obra de Jorge Amado em Tieta, inclusive a novela na televisão brasileira fez muito sucesso e inocentemente o lar brasileiro viria a ser informado ou formado (vou ser realista) por lide estranha. Exactamente este tema de hoje assume a postura simbólica da perseverança e otimismo, este papel de questionar e atribuir alicerces através de Literatura séria e comprometida, melhora em muito a qualidade do conforto. Amei a capa embora nacionalista.


    Cláudia da Silva Tomazi

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    1. menina Cláudia, cuidado com os erros ortográficos. Pode ferir a vista dos mais sensíveis.

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    2. Em tempos da amnésia corrigir, empenha gratidão. Ora honesto, ora modesto. Beijinho Beatriz.


      CST

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  4. António Luiz Pacheco9 de novembro de 2017 às 03:50

    Hum... pelo que conheço dos EUA, dos Norte-americanos e das suas fortíssimas instituições democráticas , num país que não sendo perfeito e onde existem por exemplo a Irmandade Ariana, Panteras Negras, Máfia, KKK, gangues, etc. a democracia impera apesar de tudo e todos os que citei existem exactamente porque é uma democracia (apoiem-se ou não!).
    Portanto não creio que o Trump, ou quem quer que seja consiga impor nos EUA uma ditadura , como não conseguiram nem o McCarthy nem o Hoover...
    E nem perco o sono com isso, nem me preocupo mesmo nada, eles possuem mecanismos que impedem, controlam, destituem, evitam, etc. as loucuras pessoais. Mas preocupa-me sim que na Europa isso possa acontecer a qualquer momento, já aconteceu antes, já o vimos ou conhecemos da história e os cruzados do políticamente correcto bem que tentam impor-nos a sua vontade e filosofias... não duvidem! Não vou nomear nenhum partido, pessoa ou organização mas todos bem sabemos quem são e que em Portugal até estão na Assembleia da República, prontinhos a impor o pensamento único e a censurar-nos em nome dos seus ideais de liberdade,própria, pois liberdade para os outros serem diferentes é que não entra no seu conceito de liberdade! Para eles a liberdade é para reprimir aquilo que não caiba nos seus cânones!

    Saudações libertárias cá da Cidade Morena!

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    1. Concordo com a sua ideia sobre a força das instituições democráticas nos EUA. No entanto, foi precisamente nesse país que começaram as cruzadas do politicamente correcto.

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    2. Há pouco não tinha conseguido identificar-me.
      LAC

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    3. António Luiz Pacheco9 de novembro de 2017 às 04:24

      Foi um "lac" de atenção da sua parte... eheheh!

      De acordo com o que refere! Muitas modas nos vêm dos EUA... e essa foi mais uma, pois sabemos bem que o Norte-americano (e se calhar a cultura anglo-saxónica...) é muitíssimo hipócrita! Creio que os princípios do puritanismo quacker conduzem a isso.

      A Europa, também ela berço de democracia e liberdade, acaba copiando também esses maus costumes/ideais por força da sua abertura e tolerância, no entanto depois instalam-se e tentam acabar com a referidas tolerância e liberdade. É o grande mal do ser humano, quando descobre uma coisa acaba por querer impô-la aos demais, usando da força se necessário com o argumento de que tem de salvar os outros deles mesmo!

      Cumprimentos cá da Cidade Morena!

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  5. Nunca mais tinha ouvido falar deste escritor, Sinclair Lewis, desde os meus tempos de Faculdade (1983 a 1987). A análise do seu livro "Main Street" fez parte da cadeira de Literatura Norte-Americana (salvo erro, no terceiro ano). Perante a enorme dificuldade em arranjar o livro (no inglês original, claro), a professora acabou por mandar fazer e encadernar fotocópias na biblioteca da FLUP. Não foi um comportamento desejável, mas não houve mesmo outra hipótese. Nunca mais li o livro, nem me parece que o tenha fotocopiado, sabe-se lá aonde isso foi parar... Encontrei informações sobre ele na Wikipedia, foi publicado dez anos antes de o autor ganhar o Nobel:

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Main_Street_(livro)

    Fiquei com vontade de tornar a ler Sinclair Lewis.

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    1. Vou emendar uma parte do meu comentário, que saiu confusa:

      "nem me parece que ainda tenha a versão fotocopiada" - era isto que eu queria dizer.

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  6. Philip Roth tratou também esta mesma possibilidade, embora situada em 1940, de Roosevelt ter perdido a eleição presidencial contra o aviador Lindbergh, de tendências isolacionistas e pró-nazi. Fá-lo no grande romance "A Conspiração Contra a América" em que imagina a tragédia americana (e mundial) que teria sido a cooperação dos EUA com o expansionismo da Alemanha nazi. É incrível como Roth ainda não ganhou o Nobel.

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  7. A E-Primatur ia publicar o livro mas vocês anteciparam-se.

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  8. Dos meus tempos de jovem lembro-me de ter gostado de ler Steinbeck e de não me ter entusiasmado com Sinclair Lewis, com temáticas do mesmo tempo, a tal ponto que nunca mais lhe peguei. Talvez deva ainda fazê-lo.
    Também não acho que um regime assim sinistro se instale nos EUA, não porque sejam democratas (são tanto como os outros) mas porque cada americano quer, individualmente, ter coisas. E um regime ferreamente dirigido não facilita tal. O problema é que quando atacam outros povos comportam-se como se fossem um povo (como os outros) e sentem grandeza em vencê-los. O número de anos da história dos EUA em que não estiveram em guerra contra algo (até a ilha de Granada invadiram!) é muito pequeno.
    Infelizmente invocar a Europa para dar um exemplo melhor não me parece boa ideia. Não há outra região no mundo onde os povos tenham andado a trucidar-se entre si durante quase meio século que tenha conseguido atingir a assombrosa cifra de 100 milhões de mortos.

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  9. Li este livro há alguns meses, na versão em inglês. Um murro no estômago constante.

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  10. Não gostei. Há outras distopias bem melhores.

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  11. Não do ou sobre o Sinclair Lewis mas de outro Sinclair, o Upton Sinclair, que, publicado em 1933, ajuda a explicar a eleição do Trump e a política contemporânea:
    https://www.newyorker.com/magazine/2012/09/24/the-lie-factory

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  12. «Isso Não Pode Acontecer Aqui» tornou-se «uma obra profética após a eleição de Donald Trump»?! Como, exactamente? Acaso nos EUA, depois de 20 de Janeiro último, foi instaurado, ou está em vias de o ser, «um regime ditatorial apoiado por forças militares altamente repressivas que nunca até ali os eleitores julgaram possível»?

    Na verdade, na grande nação do outro lado do Atlântico, o fascismo está à esquerda, como o demonstram os vários motins (que destruíram tanto propriedade pública como privada) ocorridos desde que o actual presidente foi eleito, os constantes protestos e ameaças físicas contra conservadores convidados a discursarem em universidades, e, ainda em especial nestas, o constante anti-semitismo, expresso no ódio a Israel e/ou no apoio a, ou apologia de, extremistas e terroristas islâmicos.

    Convém ter cuidado com o que se lê, ouve e vê em certos órgãos de comunicação social, portugueses e não só, que mais não são do que centrais de propaganda e fábricas de «fake news». E afirmo isto enquanto jornalista.

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    1. Nunca tive oportunidade de lhe dizer isto, mas será agora: parabéns. É com muito interesse que sigo, há já um tempo, o seu blogue. Apesar de não ter uma participação ativa no mesmo.

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  13. Quando alguém, com algum conhecimento de causa e talento (como é o caso do autor), descreve universos distópicos, corre o sério risco de, mais cedo ou mais tarde, acertar na mouche.

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