Pessoas e escritores

Uma das coisas de que mais gosto em Eduardo Lourenço é que ele é muito gente por detrás do grande intelectual e pensador que também é. Estar com ele é um prazer também por causa disso, por estar ao nosso lado como um de nós, com uma humanidade muito especial. Há escritores que são muito distantes – ou muito artistas, muito «elevados» em relação ao resto das pessoas (e isso irrita). Mas há outros que gostam tanto de escrever como de comer, conversar ou ir ao futebol (penso que Carlos de Oliveira, por exemplo, era um doido pela bola e uma destas pessoas muitíssimo «normais», apesar da fama e da importância). A este título, Jorge Amado é também um bom exemplo de «gente», e a história que li recentemente no mural do Facebook de Josélia Aguiar, a curadora da FLIP (o festival literário de Paraty), comprova-o. Quando o escritor brasileiro tomou posse como membro da Academia de Letras da Bahia vestiu o smoking da ordem para proferir o seu discurso; ao terminar, uma repórter aproximou-se dele para perguntar como se sentia. A resposta, segundo o Jornal do Brasil, foi a seguinte: «Muitíssimo suado, minha filha.»

Comentários

  1. Lembro José Saramago. Acusavam-no de ser uma pessoa distante. Injustamente. Nunca esqueci o "ora vamos lá a ver" com que Saramago iniciava o seu raciocínio quando lhe pediam para examinar uma qualquer questão. Era sempre ocasião para presenciar esse espetáculo único que é a observação de uma mente privilegiada em ação. Inesquecível o modo inteligente, culto e criativo como ponderava o que quer que fosse. Esses momentos foram sempre para mim lições vivas do que terá sido a maiêutica socrática. Descobria-se com ele associações novas, antes insuspeitadas, e ficava-se a saber mais. Saramago tinha essa rara qualidade: a sua oralidade era quase tão genial quanto a sua escrita. Não encontrei uma oralidade tão criativa em nenhum outro grande escritor.

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  2. Encontrei também essa (rara) proximidade em Mário de Carvalho.

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  3. António Luiz Pacheco6 de novembro de 2017 às 04:13

    Pessoas e escritores... curiosa associação, ou dissociação?
    Conheço pessoalmente alguns escritores, de muitas valências, desde os desalinhados aos consagrados e lembro-me logo do Dr. Victorino Nemésio, porque era de facto um extraordinário comunicador com a qualidade de saber ouvir também.
    Com outros mantenho até uma certa cordialidade escrita, porque a escrita é algo de sublime que nos permite comunicar e é a partilha que nos une.
    De um modo geral, são pessoas que escrevem... não vou falar de outros artistas pois é a escrita que nos interessa aqui!
    Da televisão ou palestras conheço muitos mais, dos tais celebrados, porém desses tenho sobretudo uma impressão de distanciamento, de nem-por-isso pessoa, antes um cérebro ou um ego com pernas... estou a ser injusto certamente, podem ser tímidos ou terem dificuldade em se expor, mas recordo o Alçada Baptista e o próprio Nemésio nas suas palestras e eram tão diferentes.

    Saudações pessoais cá da Cidade Morena!

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  4. Muito sua aquele que finge aquilo que não é. Infeliz post: a senhora que finge tão extraordinariamente todos os dias.

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    1. Eu vou mais longe e digo que muito mal cheira aquele que não assume o que diz ou escreve.

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  5. E aqueles "escritores" que lançam um livro e falam "da obra"?!

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  6. António Luiz Pacheco6 de novembro de 2017 às 12:37

    É pena não haver (com h... devo ter escrito bem!) um daqueles coisos, sei-lá-o-quê das emoções, para eu postar um que signifique o paso doble - que aliás deve ser música politicamente incorrecta! Mas é como eu...
    E não o dedicaria à Nossa Extraordinária Anfitriã, claro, mas a algum comentário dos que ultimamente por aqui campeiam.

    Saudações tauromáquicas cá da Cidade Morena!

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  7. Gosto de gente, especificamente criativa ou não. A escrita por si conquista algo mais expressivo (notório); verdadeiramente humana, nem atrevo-me.


    Cláudia da Silva Tomazi

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