O que ando a ler
Javier Cercas escreve estupendamente sobre personagens e acontecimentos reais num tom de romance em que é tudo inventado; em Espanha até se diz que escreve «romances de não-ficção». Sim, é mais ou menos isso – e o livro que ando a ler neste momento não é excepção. Chama-se O Monarca das Sombras e regressa ao período da Guerra Civil espanhola já visitado pelo autor no maravilhoso Os Soldados de Salamina, obra que o celebrizou. Depois de muito hesitar, em parte também por se encontrar nos antípodas políticos do seu protagonista, em parte por vergonha assumida, em parte por não querer entrar em litígio com parentes (incluindo a mãe), Cercas decidiu dedicar este livro a um tio-avô materno, Manuel Mena, que combateu ao lado dos Franquistas e morreu em 1938 na Batalha do Ebro, dois anos apenas depois de se ter alistado, tornando-se uma espécie de herói oficial da família (o pobre rapazinho «que morreu do lado errado da História»). Todos os que morrem jovens, com uma vida inteira por viver, invocam uma certa sensação de desperdício – e o sobrinho-neto de Manuel Mena quis saber mais sobre o passado desta figura de que, em Ibahernando, a terra onde nasceu (e donde os pais emigraram poucos anos mais tarde para a Catalunha), muita gente se orgulhava. Descobrir algumas coisas incómodas (e não só sobre o jovem combatente, mas também sobre outras gerações da família) faz, naturalmente, parte do processo. Ainda vou no primeiro terço do livro, mas já entendi que é para ler a correr até ao fim.
É inegável a força da literatura espanhola, mas ainda mais a força da nossa. Contudo, uma força maior se impõe: a do mercado. E a pujança do mercado espanhol, sobretudo pela sua dimensão, tem-se vindo a impor no nosso país. Escritores e Editoras do país vizinho insinuam-se com grande pujança entre nós...
ResponderEliminarÉ impressão minha ou o Emílio Gouveia Miranda nunca nos diz o que anda a ler?
EliminarBom dia. Ando sempre a ler inúmeras coisas ao mesmo tempo e sempre com grande dificuldade em focar-me num só livro. Leio desde BD, de que sou um coleccionador «viciado», passando pela literatura mais variada. Curiosamente, neste momento estou a ler o último do António Lobo Antunes, um autor «cá dos nossos» que passei a ter dificuldades em ler, a partir de determinada altura e que estou a tentar, com algum sucesso, retomar.
EliminarNa minha mesa encontra-se neste momento uma pilha de livros que inclui desde Svetlana, Vassily Grossman, Michael Jones, José Javier Esparza, Karl Ove Knausgärd, só para citar alguns...
Sobretudo não me obrigo a ler um livro que não me agrade. Se não me agradar, coloco de lado e pego noutro. Às vezes leio sobre um determinado tema ou várias obras de um determinado autor: os últimos exemplos foram a II Guerra Mundial e as três primeiras obras editadas em Portugal da Svetlena...
Enfim, leio cada vez com maior dificuldade em encontrar um livro que me galvanize, num mercado editorial curiosamente cada vez mais inundado de «possibilidades».
Mas deixar de ler é uma impossibilidade... Por isso a busca incessante...
Bom dia, Emílio, e muito obrigada por ter respondido - e que bela resposta!
EliminarTambém me interesso por BD (uma descoberta recente, graças ao Público), aliás estou precisamente a ler "Os Trilhos do Acaso" do Paco Roca.
E tem razão, cada vez é mais difícil encontrar livros entusiasmantes - e também já não me "obrigo" a ler até ao fim o que não me está a agradar.
Boas leituras!
Obrigado. Boas leituras.
EliminarAh, já li essa bela obra de Paco Roca. De facto o Público tem-nos oferecido belas colecções, em parcerias com a Levoir e a ASA.
EliminarBom dia,
ResponderEliminarAndo a ler "As falsas memórias de Manoel Luz" de Marlene Ferraz (vou a 2/3), uma autora que gosto muito e julgo ser merecedora de mais leitores. Na minha modesta opinião, tem um estilo próprio, que a mim me agrada deveras. Recomendo vivamente esta autora aos extraordinários que não a conheçam. Publicou há alguns anos "A vida inútil de José Homem" e tem também livros de contos, dos mais bonitos que tenho lido nos últimos anos.
Sobre o livro que ando a ler não me alongo, apenas deixo dito que o acho extraordinário e recomendo que o espreitem numa livraria.
Marlene Ferraz é um dos nomes da actual literatura portuguesa de que mais gosto e que mais tenho emprestado/aconselhado nos últimos anos.
Boas e extraordinárias leituras a todos,
Rui Miguel Almeida
PS: o próximo será "Mea Culpa" da nossa extraordinária Carla Pais que o apresenta hoje em Lisboa. Deixo-lhe um beijinho e votos para que seja um sucesso!
Não sendo franquista, também não sou pelos republicanos... ambos usaram e praticaram violência na guerra civil! No entanto , porque em Portugal é bem e politicamente correcto ser-se de esquerda, aliás Portugal inventou até a burguesia de esquerda, só se fala do que os franquistas fizeram, ninguém fala de católicos fechados em igrejas e estas incendiadas... como se numa guerra só um lado é que é bom e o outro é que faz o mal!
ResponderEliminarPor isso, dizer-se que "morreu do lado errado da história", desculpem-me mas cheira-me a branqueamento, pois para mim há história e factos históricos... não há uma moralidade na história nem pode haver, a história tem de ser analisada com frieza e não à luz das sensibilidades política ou sequer social, ética, moral. A história não se faz nem desenvolve, muito menos acontece em função de moralismos ou sensibilidades e sim em função dos acontecimentos temporais na época em que ocorrem.
Saudações histórica e políticamente incorrectas cá do Bairro Ribatejano!
O que ando a ler:
ResponderEliminarBom, continuando na senda do politicamente incorrecto, andei a ler mais um magnífico livro do meu amigo e confrade José Maria da Cunha, um caçador-que-escreve. O seu "A vida num chapéu", é uma colectânea de contos de caça e do campo, com gente do campo onde ele nasceu e se criou (ali na Golegã). Depois emigrou para Lisboa onde trabalha numa multinacional mas manteve-se como o que é, e consegue por isso trazer-nos personagens castiças do Mundo da Caça e da Ruralidade!
Depois, peguei no "Mea Culpa", da minha amiga Carla Pais. Ainda estou a lê-lo... é mais um livro com uma forte ruralidade aldeã ou de pequena cidade do interior, onde a marginalidade também existe e há quem para ela seja empurrado, o que se ignora e nunca disso se fala. Normalmente a marginalidade é colada aos subúrbios das grandes urbes. Portanto temos uma história diferente e diria que nisso consiste a maior criação da autora!
Tem uma escrita forte, descritivamente sensitiva (percebem?), vernácula e pragmática. Gostei dos parágrafos curtos, cada um é uma pequena história ou um passo em frente, que assim nos encaminham muito bem pela acção que é complexa.
Uma escrita, rural-depressiva diria eu, por oposição aos urbano-depressivos que enxameiam o nosso panorama literário, já era tempo!
Estou a gostar Carla! Talvez tenhas criado uma escola, vamos a ver...
Também e ao mesmo tempo, peguei no livro de outro amigo e escritor-não-alinhado, "O crime de Serrazes" do nosso António Breda de Carvalho. A curiosidade foi imensa pois tenho uma antiga edição na biblioteca do meu avô Abreu, que era advogado e estudou este crime... No seu estilo habitual de narrativa clara e um português muito cuidado, sem floreados como se impõe neste seu romance que é mais como que uma reportagem no tempo, consegue levar-nos a 1917 e à sociedade e tipos da época. Estou ainda a gostar, sobretudo porque me agrada muito a escrita (e os temas) deste nosso confrade.
Saudações livrescas e frescas, cá do Bairro Ribatejano!
Ando a ler _ 59
ResponderEliminarDevido a desassossegos vários, tenho lido pouco.
Ainda assim, repesquei e acompanharam-me, para o que desse e viesse, os “Três Contos” de Máximo Gorki (ed. Inova, 1971).
Queria reler com outros olhos “O Jovem Pastor e a Fadazinha”, o conto que, ao tempo, mais me fascinou e me gravou recordações – as quais, entretanto, foram perdendo nitidez.
Para tanto, precisava de tranquilidade.
Aproveitei o tempo propício e instalei-me ao ar livre na cadeira de baloiço que temos na varanda das traseiras, enquanto Maia – assim se chama a fadazinha – trepava as árvores da floresta onde vivia, e nelas empoleirada cantava docemente na direcção da estepe.
Estava eu neste sossego quando a Maia – uma das nossas gatas – trepou por mim acima e veio aninhar-se no meu ombro, a ronronar docemente.
Eu era, agora, uma árvore.
Sosseguei, pois, e pude ouvir, lá ao longe na estepe, o jovem pastor de Gorki que cantava, também ele, as suas melodias, enquanto olhava pelo rebanho.
O caso é que tanto sossego é raro cá em casa.
E foi isso que estranharam os restantes membros do meu rebanho – as outras duas gatas e o casal de cães.
Eis que, um por um, e às vezes em grupos, todos vieram interromper-me a leitura pedindo festinhas, lambendo-me as mãos, trepando por mim acima, sei lá que mais...
Eu, que era uma árvore, era agora um pastor...
De modo que decidi interromper a desassossegada leitura e distribuir-lhes biscoitos e lambarices.
O rebanho sossegou, todos aninhados ali ao sol, na minha estepe.
Bebi um cafezito e sentei-me à sombra a olhar o horizonte e a reflectir.
A Maia voltou a trepar-me para o ombro.
Nisto, tive um sobressalto e decidi não concluir a releitura deste conto – pois sei que, lá para as últimas páginas, morre a fadazinha Maia.
Estou nessa. Nos filmes e livros que repito, se sei de mortes no final ou lá próximo, permito-me não chegar a esse ponto.
EliminarGrato pela sua atenção, Beatriz.
EliminarPermita-me esclarecer que, no meu texto, estão duas Maias: a fadazinha de Gorki, que vai morrer a poucos parágrafos do fim do conto, e a nossa gata Maia – que cá está ela mais uma vez no meu ombro, desta vez a ouvir Schubert enquanto escrevo isto.
Ora bem: foi por milagre que, em Agosto de 2003, não atropelei esta Maia, que, bebé, estava abandonada no meio da estrada ali ao fundo da rua, certamente porque a mãe se assustou com o barulho de algum carro e a largou precipitadamente.
Segundo o veterinário teria dois ou três dias de idade, e seria muito difícil que sobrevivesse sem a amamentação da mãe.
Ainda assim, perante a nossa insistência, receitou-nos um leite especial que seria necessário dar-lhe de três em três horas, de noite e de dia.
Felizmente estava cá em casa o nosso filho, pelo que a tabela de horários foi a dividir por três.
Assim, com um biberãozinho e muito mimo, a Maia sobreviveu.
Está com 14 anos de idade. Aprecia Schubert, Beethoven, Rachmáninov, Pink Floyd… – aliás, como todos os membros do nosso rebanho.
E como a fadazinha Maia de Gorki também apreciaria, estou certo…
Cara Beatriz: para entender completamente o que sinto peço-lhe que leia o conto a que me refiro.
Deixe-me apenas transcrever as últimas linhas de Gorki:
«E pronto: contei a minha história. É certo que não é nova, e talvez a vida a tenha escrito há muito no teu coração. Mas diz-se que não há nada no mundo que não tenha já sido…
… E eu tinha tanta vontade de a contar.»
Houvesse mais gente assim e os animais não viveriam nas ruas e seriam muito mais felizes.
EliminarÉ cá dos meus!
Obrigada:)
Eliminaro que ando a ler?
ResponderEliminar“uncommon type (some stories)” de tom hanks, ed. william heinemann (grupo penguin).
trata-se do muito aguardado primeiro livro do famoso actor americano tom hanks, um conjunto de dezassete histórias que englobam narrativas tão diferentes entre si como um caso sexual divertido entre dois melhores amigos, um veterano da segunda guerra mundial a lidar numa noite de natal com as suas cicatrizes emocionais e físicas, um actor de segunda categoria que atinge um estrelato breve, um colunista de um jornal com visões antiquadas do mundo moderno, uma mulher que após um divórcio se tenta ajustar a uma nova vizinhança, quatro amigos que vão à lua e voltam num foguetão construído no quintal e um surfista adolescente que tropeça na vida secreta do seu pai.
as histórias estão ligadas por uma coisa em comum: em cada uma delas existe uma máquina de escrever que desempenha um papel - por vezes ínfimo, por vezes central.
gosto de pensar que terá sido utilizando uma dessas velhas máquinas que tom hanks terá escrito estes contos que exploram, com grande carinho, humor e lucidez, a condição humana nas suas glórias e fraquezas, ele que tão bem soube misturar situações cómicas com divagações lunáticas e momentos melancólicos.
e para mim foi surpreendente constatar que a sua escrita tem esta tão grande qualidade; é um pouco como se me viessem dizer que a alice munro ou o julian barnes tinham ganho um oscar.
o livro saiu este mês e terminei-o ontem. chegará em breve uma edição em acordês?
O livro já saiu.
EliminarComo sempre o mercado não perde tempo para fazer dinheiro.
Se fosse 1 primeiro livro de um desconhecido gostava de ver se eram assim tão céleres na tradução.
Pois...
Já está publicado. Chama-se «Papéis Diferentes».
EliminarEscrever os nomes próprios com letra pequena (tom hanks) faz parte do acordês?
Eliminar"uncommon type" deu "papéis diferentes"? ahahah
Eliminar(é por essas e por outras que prefiro, sempre que possível, ler na língua original)
claro que não :)
EliminarSó mesmo por curiosidade, como traduziria o título?
EliminarEstou nas últimas páginas de «Neve» de Orhan Pamuk. Compreender a Turquia? Compreender como pôr ou não pôr um lenço sobre o cabelo pode ser mortal?
ResponderEliminarAndo a ler Ivan Jablonka, Laetitia ou o fim dos homens. Este livro trata uma história real que sacudiu a França em 2011. Eu já conhecia o caso, mas lê-lo pela mão deste sociólogo permite-nos uma visão muito mais ampla do assunto, pois o autor, mestre na área da sociologia, desnuda toda uma quantidade de tecidos sensíveis, o que torna este livro numa espécie de reflexão, introspeção. Temos o acto em si como coisa isolada, depois todo um contexto social, económico e político que impulsionam ou não o acto ( crime). Este livro trata as falhas sociais e a quase falência institucional de um país como a França na Era Sarkozy.
ResponderEliminarDesculpem estes extraordinários, pois esqueci-me de assinar ( gosto cá pouco de anónimos).
EliminarUm abraço.
Carla Pais
Que simpatia!
EliminarDespertado pela notícia de que "Mataram a Cotovia", de Harper Lee, fora "eleita" pelos leitores de língua inglesa como a obra do século, fui lê-la. O racismo absolutamente vivo nos EUA dos anos 30.
ResponderEliminarSe gostou, não deixe de ler "Sempre o Diabo" de Donald Ray Pollock.
EliminarDo mesmo género, acabei de ler, de Erskine Caldwell, três excelentes livros: "Dois negros em Estherville" (como é pérfido e cruel o ser humano); "Certas Mulheres" (pequenas histórias (muito tristes) de mulheres) e "Episódio em Palmetto"? igualmente excelente.
O de Harper Lee foi retirado das listas de leitura nas escolas dos EUA...
EliminarSerá o tal politicamente correcto?
EliminarConstou-me que, creio que em determinadas datas, "E tudo o vento levou" "não "passará" mais nas salas de cinema americanas.
Não seria mais fácil fazer uma nova cópia maquilhando os pretos de brancos e os brancos de pretos?
É o mundo às avessas.
Ainda bem que há uma larga maioria a pensar assim:). Gostei de saber.
EliminarÉ um livro tão bonito! Tem muito mais que a questão central do racismo. Há nele uma humanidade comovente sobretudo porque, podendo puxar à lágrima fácil, nunca o faz. Considero-o exemplar.
EliminarContinuo de volta de "O Anjo Pornográfico" (está quase...) e estou também a acabar um livro que nunca tinha pensado ler, "Bom dia, Tristeza", de Françoise Sagan. Apesar da leveza estou a gostar. Está bem escrito (ou bem traduzido...) Adquiri-o por apenas um euro e achei que o devia ler (a estreiteza de páginas foi um convite...)...
ResponderEliminarPor um euro foi um achado, Luís.
EliminarAgora o livro até pode parecer naïf, mas convém não esquecer que foi escrito em 1954, por uma jovem de boas famílias, com apenas 18 anos, ou seja, foi um escândalo. E deu um belo filme!
Antonieta
Nunca me arrependi de começara a ler um romance do Javier Cercas ! O último que li foi "O Impostor" uma extraordinária investigação de um quase nonagenário que criou a personagem do esquerdista que fugiu após a derrota na Guerra Civil e foi internado num campo de concentração na Alemanha Nazi. Fez da presidência da associação de vítimas do nazismo o centro da sua vida, sendo convidado para múltiplas palestras ao longo de 50 anos. O livro relata os encontros sucessivos do autor com o personagem até se tornar evidente que é quase tudo efabulação e mentira. Este último livro do Cercas deve ser no mesmo registo. Tenho que arranjar tempo para lê-lo !
ResponderEliminarAcabei de ler um absolutamente extraordinário "7 Anos Bons" de Etgar Keret que nos dá o que é vida diária de uma família de classe média no Israel atual. Tão interessante que fui a correr comprar o outro livro de contos do mesmo autor que foi recentemente publicado: "O Condutor de Autocarro que Queria ser Deus". Foi uma enorme ilusão: é um conjunto de contos surrealistas, alguns incompreensíveis, grotescos, difíceis de compreender e até desagradáveis. Um contraste absoluto com o realismo irónico e inteligente do primeiro livro. E é o mesmo autor ! Quem diria...
Acabei de ler "Jaime Batalha Reis na Rússia dos Sovietes-Dez dias que abalaram um diplomata português" de Joaquim Palminha da Silva e "Súplicas Atendidas" de Truman Capote; é curioso que este autor é uma das personagens do "Não Matem a Cotovia" da Harper Lee que foi adaptado ao cinema com o título em português "Na Sombra e no Silêncio", com o Gregory Peck no papel principal. Ando a ler o último Kazuo Ishiguro "O Gigante Enterrado" mas não estou a gostar, já estou farto de tanta princesa...e estou a reler "Coração, Cabeça e Estômago" de Camilo Castelo Branco.
ResponderEliminarSão poucos os autores que oblivião o tempo.
ResponderEliminarO calendário, as horas até mesmo as estações do ano.
Até agora só tinha encontrado uma autora assim, que ao ler os livros dela, o tempo desligava-se totalmente. E de repente estava no sul profundo com o seu calor sufocante, como uma manta espessa tecida de humidade e canto de cigarras.
É claro que estou a falar da Harper Lee, mas agora que estou a ler a Bíblia ( tradução do Frederico Lourenço), volta a dar-se o mesmo fenómeno. O tempo suspende-se.
E que magnífica é aquela introdução aos Quatro Evangelhos, "...Aqui fala-se de pescadores e de leprosos..."
Ia dizer, nem que seja só por isso, vale a pena espreitar este livro.
Mas não, a prosa não se esgota na empatia genuína com a condição humana, expande-se na clareza das palavras como só os Mestres sabem fazer.
Começa-se a ler e é realmente difícil parar.