Em leilão
Recebi um e-mail sobre leilões – e tê-lo-ia apagado imediatamente se não tivesse reparado, numa rápida vista de olhos, que a coisa iria ocorrer na Cooperativa Árvore, no Porto, um lugar de culto a que não sou indiferente. Deitei então um olhar mais demorado ao texto para ficar a saber que estava em causa o património de um senhor que conheci há muitos anos e é admirado por muitíssimas pessoas: o livreiro portuense Fernando Fernandes, segundo Agustina «o maior dos livreiros portugueses», fundador da Livraria Leitura, passagem obrigatória de tudo o que era intelectual e leitor sério na Invicta ao longo de várias décadas. Pois bem, os tempos mudaram e Fernando Fernandes é agora obrigado, por razões de saúde e necessidade, a «desfazer-se» de 4000 peças!, incluindo 120 obras de arte (de pintores como Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, Zulmiro de Carvalho, Fernando Lanhas ou Júlio Resende) e 650 livros seleccionados, como Poesias Completas (1951-1981), de Alexandre O´Neil, com dedicatória assinada; Quadros Portuenses, uma edição de luxo de Agustina Bessa-Luís – com 10 aguarelas de António Cruz; ou até As Quatro Estações, de Jorge Sena, Eugénio de Andrade, Faria Almeida e Vergílio Ferreira, ilustrado a cores em folhas à parte. Não consigo imaginar o que será para Fernando Fernandes separar-se de uma colecção como a sua, embora ele confesse que ainda fica com muitos livros para ler. Parece-me, de qualquer modo, um terrível sinal dos tempos. (Os leilões decorrem até amanhã.)
Estou certo de que a dimensão humana deste Senhor suporta bem a voracidade da Vida. Afinal trata-se apenas do despir de um casaco...
ResponderEliminarParece irónico o meu comentário. Mas não é!
Bom dia.
É de facto um terrível sinal dos tempos. O que se gastou em vida na compra de livros nunca se recupera em tempo de necessidade. Livros são mau investimento financeiro.
ResponderEliminarPor vezes, por vezes...
Eliminarhttp://observador.pt/especiais/como-construir-uma-biblioteca-milionaria/
Obrigado pelo link para um interessante artigo que divulga o conhecimento e a disciplina necessários para se fazer um bom investimento comprando livros raros. O meu comentário pretendia apenas referir que quem compra livros para os ler faz um investimento sem retorno. Por vazes imagino o dinheiro que hoje, à beira da reforma, teria se não tivesse comprado um único livro... Sou mais pobre, mas levei uma vida mais rica.
EliminarOnde? via net ou presencial?
ResponderEliminarNão diria que é sinal dos tempos, pois em todos os tempos estas coisas acontecem...
ResponderEliminarPorém, acredito que seja triste para quem com carinho tenha junto essas peças, sejam livros, quadros ou borboletas!
Fica como única consolação que quem as compre também as aprecie igualmente.
Saudações Kaluandas!
Presumo que Faria Almeida seja o mesmo Almeida Faria que conhecemos. Ou será um outro?
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