Revisitar

Todos nós recebemos seguramente mais e-mails do que gostaríamos provindos de todos os cantos do mundo – e, entre eles, muita coisa irrelevante que se apaga quase sem ler.  Um dia destes, porém, mandaram-me um anúncio de um workshop sobre a importância das cores no vestuário; e, ainda que o assunto esteja longe de despertar a minha atenção, houve qualquer coisa na redacção do primeiro parágrafo que me remeteu para um autor de quem senti saudades. Dizia assim: «O vestuário que escolhe para o dia-a-dia pode ajudar a transmitir a imagem certa e adequada ao contexto no qual se insere. Saber escolher a roupa que vestimos influencia o modo como as outras pessoas se relacionam connosco […]» Foi ao ler esta frase que, no fundo, é bastante banal (perdoe-me a autora), que me recordei de um artigo de Claude Lévi-Strauss que li na minha juventude («O hábito faz o monge») no qual, a abrir, se explicava que quando um homem põe de manhã uma gravata isso já quer dizer alguma coisa. Pois bem, já não sei em que livro ou revista se encontra este texto notável do antropólogo belga; os meus livros de Strauss estão, ainda por cima, numa prateleira alta. No entanto, se algum dos Extraordinários tiver curiosidade em lê-lo e o encontrar antes de mim, avise. Gostaria mesmo de o reler. Ah, e se quiserem ir ao tal workshop e aprender a importância das cores no vestuário, consultem este link:


 


https://docs.google.com/forms/d/1cvOn1HfPWSW6l50TlFACRfylfpq8P-9ThbJqjbSTzkQ/viewform?edit_requested=true


 

Comentários

  1. está subentendido no acto de nos vestirmos que ele também tem em mente os outros: a sociedade não nos aceita nus por mais que a ideia de nudez possa agradar a algumas pessoas que têm, quase sempre por objectivo uma nudez particular. E no entanto recuso um bocado a ideia de os outros serem tão importantes na minha vida que até as cores de vestuário escolho para eles. Porque há situações específicas: por exemplo, em Portugal evitam-se cores demasiado garridas num funeral. E podemos adivinhar algumas profissões pela maneira como trajam os indivíduos (suponho que seja a inspiração Lévi-Strauss a funcionar profissionalmente). Julgo haver uma mescla entre o livre gosto (se é que em alguma coisa somos livres) e a tendência para agradar aos outros. Dependendo da circunstância, vence uma ou a outra.

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    1. António Luiz Pacheco10 de outubro de 2017 às 05:12

      Diria que Levy-Strauss não influenciou, mas constatou e da sua constatação elaborou e escreveu a sua teoria. Com o devido respeito e sem pretender dar lições a ninguém, creio que as ciências sociais funcionam assim.
      Com efeito a forma como vestimos, em minha opinião e da minha experiência, é acima de tudo uma forma de nos assumirmos e posicionarmos, contém uma mensagem, um aviso aos outros... por muito que não se queira ou ignore, mas não tenho qualquer dúvida.
      Hoje em dia acha-se que se sabe muito, está-se muito informado mas ainda se labora no erro de que se é original, livre de influências porque esclarecido, etc. Afinal nem há nada de novo, nem deixa de ter uma razão para ser assim!

      Interessante este livro que refere, se bem que deste autor o meu preferido seja "Tristes trópicos".

      Saudações tropicais cá da Cidade Morena.

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  2. A propósito de vestuário e da sua função social, não posso deixar de referir a novela "Kleider machen Leute" (em inglês "Clothes Make the Man"; ignoro se há tradução portuguesa), do suíço Gottfried Keller, publicada pela primeira vez em 1874 e que fez parte da minha cadeira de Literatura Alemã. Uma obra muito interessante sobre um pobre alfaiate que precisou de viajar a uma cidade onde não o conheciam e resolveu vestir a casaca que tinha preparado para um dos seus clientes ricos. Mal sai da carruagem, tomam-no por personagem muito importante e assim o tratam, deixando-se ele levar por uma série de acontecimentos e peripécias que acabam por o ultrapassar, pondo-o em sérias dificuldades para esclarecer a situação. E tudo por causa de uma casaca distinta...

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    1. Ora, o anónimo sou eu! Desde que mudaram o formulário dos blogues sapo, já é a segunda vez que caio na armadilha!

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    2. António Luiz Pacheco10 de outubro de 2017 às 14:22

      Sua... anónima! Ahahahah!

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  3. Não será "O Hábito fala pelo Monge" de Umberto Eco ?

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