Perto e longe
Quando um vizinho recém-chegado se atirou da janela no prédio da minha mãe, mesmo sem o conhecer, ela ficou traumatizada por muito tempo. Se o proverbial sexagenário for atropelado na minha rua faz-me mais impressão do que se o tiver sido noutro lado? É possível. O atentado no Bataclan, em Paris, ou naquela rua larga em Nice, ou nas Ramblas, em Barcelona, está suficientemente perto, em termos sentimentais, para me causar mais mossa do que as centenas de mortes anónimas nos desastres ferroviários da Índia ou causadas por cólera e ébola em África. Aqui na Europa achamos que a América (os EUA, quero dizer) é também um bocadinho nossa e sentimos as mortes do 11 de Setembro como qualquer coisa de próximo. Em termos emocionais, os conceitos de perto e longe nem sempre têm que ver com distâncias reais (os mineiros do Chile nunca deixaram os nossos corações, enquanto choramos os mortos dos nossos incêndios mais recentes sem nos lembrarmos dos 300 mortos na Somália na mesma data). Mas pode ser uma geografia bastante injusta… Leio um artigo de Han Kang no The New York Times sobre os perigos de uma guerra entre os EUA e a Coreia do Norte, coisa, aliás, que nos deveria preocupar a todos nestes tempos malucos. Se essa guerra realmente eclodir, há uma probabilidade de morrerem 20 000 sul-coreanos por dia enquanto durar o conflito… Mas, segundo Han Kang, nos EUA diz-se apenas: «Don’t worry, war won’t happen in America. Only on the Korean Peninsula.» Ou seja, longe da vista, longe do coração. Talvez o artigo me tenha tocado de maneira especial por eu ser agora a editora dos livros de Han Kang e ter passado a ter um laço com a Coreia do Sul. No entanto, chamo a atenção para este belo e lúcido texto da autora de A Vegetariana e Atos Humanos. Para desfazer distâncias.
https://www.nytimes.com/2017/10/07/opinion/sunday/south-korea-trump-war.html
Os Estados Unidos sempre conseguiram manter as guerras longe de casa, e, até os órgãos de comando das organizações de defesa que integram souberam instalar longe do seu território. Apenas os órgãos de vigilância e controlo «chamaram» a si. A inteligência que tem prevalecido... veremos até quando.
ResponderEliminarTendo em conta a quantidade de armas nucleares posicionadas na Coreia do Sul prontas a ser disparadas sobre a Coreia do Norte, é muito pouco provável o cenário mencionado. E é necessário adicionar-lhe o número de armas da mesma natureza que estão colocadas no Japão e as que viajam a bordo dos navios americanos que navegam constantemente junto à Coreia do Norte.
ResponderEliminarO artigo da escritora exprime o medo de um dos 20 000 mas nada diz sobre o medo dos outros que, nesse caso, serão todos simplesmente exterminados.
Essas terríveis armas são "boas" quando lançadas pelos "nossos", Hiroshima e Nagasaki são cidades que ficam longe, lá no Oriente.
Longe da vista, longe do coração... nada mais verdadeiro.
ResponderEliminarTambém hoje, com a facilidade e rapidez da comunicação de notícias, estamos a ver ao segundo imagens do que acontece no outro lado do Mundo.
Há a mesma facilidade e rapidez em julgar e emitir opiniões, portanto nem sempre correctas...
Devíamos todos pensar nisso, assim como no facto de que não acontecem só aos outros e estamos a viver uma dessas situações que no-lo demonstra!
Saudações cá do Bairro Ribatejano!
E tão pertissimamente perto de nós esta calamidade de chamas e cinzas...
ResponderEliminarPois é, Blonde, é tudo tão relativo!
EliminarPortugal é um país minúsculo e no domingo enquanto uns trabalhavam para o bronze e tomavam belos banhos na praia, outros lutavam, sofriam e morriam nos fogos - e a tão pouca distância uns dos outros.
Eu estou bem perto da central nuclear de Almaraz (cerca de 100kms em linha recta) e não vejo ninguém preocupado com esse facto.
Fazer o quê?
As pessoas só se preocupam quando a tragédia chega ao seu quintal...
Tão diferentes de nós são os coreanos, é o que senti, com um misto de estranheza e fascínio, ao ler "A Vegetariana" ou ao ver algum do cinema desse país longínquo e tão eficaz na sua economia. Que riqueza imensa retiramos da diversidade da Humanidade e das suas distintas culturas !
ResponderEliminarA Rosário acertou em cheio quando disse que os cemitérios estavam na moda em literatura: o vencedor do Man Booker foi o Lincoln no Bardo do George Saunders.
ResponderEliminarAntonieta
EUA e as suas manias por guerras
ResponderEliminarToda a tragédia faz os seus mortos anónimos. E será errado afirmar que uma tragédia não impressiona por causa da distância em que ocorreu. Simplesmente não faz "mossa" por causa da raça.
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