O menino e a menina

O politicamente correcto às vezes (quase sempre) enerva… E aquela história de não poder haver livros e brinquedos diferentes para meninas e meninos é um bocado irritante. Todos conhecemos meninas que adoram ser princesas e rapazes que só querem carros e bolas, e isso é tão normal que até se diz que uma menina é maria-rapaz se preferir correrias ao ar livre a brincar aos pais e às mães (era o meu caso, supostamente por ter um irmão pouco mais velho). Enfim, tudo quanto é demais é erro, e agora foi a vez da Real Academia Espanhola (RAE) se insurgir contra a forma como os políticos se dirigem ao eleitorado, com um «caros e caras» e «todos e todas», que considera um abuso do politicamente correcto, uma vez que os falantes de espanhol (e o mesmo acontece com os de português) não estão necessariamente a discriminar quando usam o plural masculino «caros» ou «todos» para se referirem a homens e mulheres, nem precisam de mudar a sua língua para fugir ao sexismo. O relatório da RAE critica as novas tendências linguísticas usadas por universidades, sindicatos e governos regionais em Espanha, que propõem a utilização de palavras como «cidadania» para substituir «os cidadãos» (cá também houve a polémica do Cartão de Cidadão acho que por causa do BE) ou «o professorado» para falar de professores dos dois sexos. O jornal argentino La Nación concorda, dizendo que não é preciso ser lexicógrafo para perceber que a palavra «infância» não equivale a dizer «os miúdos». O autor do relatório defende que «o uso genérico do masculino para designar os dois géneros está muito enraizado no sistema gramatical espanhol» e que não faz sentido «forçar as estruturas linguísticas». E foi aprovado por unanimidade pelos membros da Academia, da qual fazem parte muuuuuuuuuitos escritores. Então, aqui no blogue, quando eu falar de Extraordinários, não estou a omitir as mulheres, certo?

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda31 de outubro de 2017 às 04:07

    Somos, de facto, um povo de muitos complexos... E não conseguimos esconder isso. Aliás, sabemos muito bem realçar as nossas fragilidades de carácter, com estes «cuidadinhos» linguísticos.

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  2. Foi interessante acompanhar a reação dos media e da Porto Editora quando se deu a polémica dos livros para meninos e meninas, publicações que eram apenas destinadas para atividades recreativas e não para o ensino oficial do que quer que seja. A resposta inicial foi um ataque quase unânime à iniciativa editorial, apontada como discriminatória, seguida, poucos dias depois, por declaração da Porto Editora afirmando que iria retirar os livros do mercado, sendo que tinham sido lançadas há vários anos sem qualquer crítica tivesse entretanto sido registada. Ou seja, o episódio surgiu inusitadamente após mais de um ano de os livros estarem disponíveis nas livrarias. Por iniciativa de um qualquer lobby ? A verdade é que a resposta geral dos media e da editora foi puramente defensiva: a sua perceção era de que esta ação de politicamente correto seria maioritariamente apoiada pela opinião pública e o melhor seria esquecer qualquer análise crítica e aceitar o politicamente correto, promovê-lo na imprensa e a editora ceder à investida. Só mais de uma semana depois é que começou a oposição a esta emergência do politicamente correto, em parte liderada por duas figuras mediáticas (do programa "Governo Sombra"), Ricardo Araújo Pereira e João Miguel Tavares, o pensamento de esquerda e direita neste caso unidos contra a parvoíce. Só depois disso é que a Porto Editora resolveu voltar atrás com a sua decisão de retirar as ditas publicações do mercado. É um episódio paradigmático e que nos deve servir de alerta. Já agora uma conclusão rápida: não acreditemos nas forças do mercado como opositoras aos ataques do politicamente correto; se parecer dominante a atitude geral da opinião pública perante um avanço do politicamente correto, a resposta é ceder. Quando há importantes interesses económicos em jogo, a defesa de questões de princípio é secundarizada porque não dá dividendos financeiros.

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  3. não sei. diz-se que os horos talvez não estejam de acordo.

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  4. Preocupamos-se muito com o acessório e pouco com o que é realmente importante.

    Escandalizamos-se com o "piroupo" da rua e fechamos os olhos ao vizinho que bate na mulher e nos filhos.

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  5. excelente ponto de vista.

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  6. Certíssimo!
    Eu, quando os políticos começam com "Portugueses e Portuguesas", fico logo de pé atrás, soa-me sempre a falso...
    Por o lado, acho estranho que as defensoras do "cartão de cidadã" e/ou das "presidentas" não se insurjam com o facto de chamarem poetas às poetisas: acho poetisa uma palavra tão bonita e tão feminina.
    Enfim, manias...
    Antonieta

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    1. Concordo, poetisa é uma palavra bonita. Mas poeta é assim uma coisa universal e una. Linda.

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    2. Então deveríamos também passar a dizer escritor, pintor, actor, etc., não lhe parece?
      Eu sei que a Sophia (que eu venero) gostava de ser chamada de poeta e não de poetisa, talvez daí o uso cada vez mais frequente da palavra poeta para ambos os géneros...
      E viva a Poesia!

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    3. Sou a Antonieta :-)

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    4. Desculpe o atraso. E não, não me parece. Pelo menos eu invisto no termo poeta a universalidade que não atribuo a outra profissão.

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  7. António Luiz Pacheco31 de outubro de 2017 às 14:53

    Tem toda a razão!
    Mais não digo pois já aqui foi muito bem dito o que eu penso! De resto acabo de chegar a casa e já é tarde para comentar... notem que disse "acabo" e assim me livro da confusão entre à e há ... eheheh!
    Saudações do BR e bom feriado!

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    1. Tarde para comentar?
      Ora bolas, e eu a pensar que o Horas estava "aberto" 24 horas por dia...
      Antonieta

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  8. Claro que não.
    Irrita-me a condescendência do "caros e caras" e mais me enerva a palermice paternalista do "portuguesas e portugueses".

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  9. Deparei-me com o mesmo problema no meu anterior local de trabalho. Tal aberração gerava textos medonhos, mas fugir a este tipo de linguagem dava direito a puxão de orelhas. Pela minha parte, sempre lhe consegui escapar, embora por vezes parecesse uma verdadeira gincana.

    Tomei a liberdade de referir este seu texto no meu blogue e de criar uma ligação para ele, para que os meus leitores possam lê-lo também. De facto, mostra na perfeição o que por aí se passa e a aberração em que alguns, por medo de deixar alguém de fora, transformam diariamente a nossa língua.

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  10. Em primeiro lugar, precisa de aprender o que quer dizer politicamente correcto. O conceito existe para proteger os mais vulneráveis, aqueles que são alvos de discriminação. No fundo, impõe uma moralidade da linguagem no espaço comum. Claro, há sempre os rebeldes do status quo, não é?

    Em segundo lugar, parece não perceber que o género é construído socialmente. Gostar de cor-de-rosa não é inerente a nenhum dos sexos. Praticar desporto não é inerente a nenhum dos sexos. A não ser que ainda não tenha aprendido a distinguir sexo de género. Ou que acredite na imbecilidade que quem quer mais roupas, livros e brinquedos neutros queira proibir quem quer que seja de gostar de azul ou cor-de-rosa.

    Relativamente à linguagem: sim, há exageros. Infelizmente, o seu post não apresenta argumentos, apenas ridiculariza.

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