Desdizer

Aprendi muito sobre paradoxos no início da minha carreira editorial por trabalhar numa editora que então se dedicava à divulgação científica e ter lido os livros divertidos de Martin Gardner com capítulos sobre paradoxos, círculos viciosos e outras matérias aliciantes. Lembro-me, por exemplo, da história de um viajante que chega a uma cidade em cuja rua principal há dois barbeiros: um com o cabelo muito bem cortado, o outro com o cabelo numa desgraça. Como precisa de cortar o cabelo, o viajante não hesita em escolher o primeiro. Mas faz mal. Porquê? Ora, porque as pessoas raramente cortam o cabelo a si próprias! Recordo também o paradoxo do mentiroso, que vou parafrasear. Alguém escreve um cartaz que diz: «Todos os lisboetas são mentirosos.» Mas, se quem escreve a frase é um lisboeta, em que ficamos? Giro, não é? Lembrei-me disto a propósito de duas palavras muito portuguesinhas que, portadoras do prefixo «-des» (como em «destruir» ou «desleal») deveriam significar o contrário de uma coisa, mas, paradoxalmente, não significam senão essa mesmíssima coisa. São elas «desandar» (quando dizemos a uma pessoa que desande, o que queremos é que ande, e depressinha, para longe de nós) e «deslargar» (nunca esqueci a Maria Vieira num programa do Hermann José a agarrar  as mãos de um tipo ao seu lado e a apalpar-se com elas, dizendo: «Deslarga-me! Deslarga-me!»). Enfim, hoje era isto que vinha aqui dizer e agora ocorreu-me que «desdizer» também não é ficar calado.

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda23 de outubro de 2017 às 01:13

    Bom dia. Boa semana. E assim se desaprende com quem sabe...

    ResponderEliminar
  2. Talvez seja também por isso que dizem que o português é uma língua "muito traiçoeira". :)

    ResponderEliminar
  3. António Luiz Pacheco23 de outubro de 2017 às 04:38

    Bem, faz-me lembrar a história da corrente de oiro do sapateiro!
    Um sapateiro tinha no seu relógio uma bela e grossa corrente de oiro que era o seu orgulho e enlevo, por norma deixava o relógio com a dita, pendurado num cabide e bem à vista.
    Dois pintas, mariolas como convém e que viviam destes expedientes, resolvem sacar uma massa ao sapateiro à conta do seu orgulho na corrente... para o que aliciam um ourives lá da rua, pouco escrupuloso e seu conhecido das aldrabices.
    Começa por ir um deles encomendar um serviço qualquer ao sapateiro e enquanto espera estende a armadilha, com conversa fiada:
    - Ó mestre, belo trabalho o daquela corrente de relógio. Parece mesmo de oiro!
    Ora essa, parece? É de oiro! Custou-me dois contos de réis, vai para uns cinco anos, a um ourives ambulante que por aí costumava passar! Levei ano e meio a pagá-la! É oiro de lei sim senhor!
    E teimam os dois, que é e que não é, até que o vivaço aposta com ele 300 escudos em como não é! Aposta aceite e vão ao tal ourives ali ao lado tirar as dúvidas!
    O ourives, simulando estar contrafeito, declara pesaroso que efectivamente se trata de um magnífico trabalho, mas a corrente não é de oiro maciço e sim latão dourado, logo dizendo ter sido pena não lha ter comprado a ele, que lhe teria vendido artigo legítimo, mas era no que dava comprar assim aos ambulantes que não tinham banca estabelecida e nem seriedade!
    O sapateiro ficou tão incomodado que incapaz de raciocinar, pagou os 300 escudos, que os outros dividem...
    Mas não ficou a coisa por ali e dois ou três dias depois, o segundo tunante dirige-se ao sapateiro, também pretextando um qualquer servicito rápido.
    Põe-se a gabar a corrente e o sapateiro, ainda infeliz, afirma que é uma bela imitação e que também a ele o enganou!
    O outro que não, que disso percebe dele e afiança que a corrente é autêntica! Teimam, e vá de nova aposta... vão ao ourives que já esperava por isso, e encena com grande ênfase que aquela, sim é uma belíssima corrente e dá os parabéns ao sapateiro, incrédulo, mas que fica tão aliviado que paga a aposta novamente perdida, sem mais.
    Então, a partir desse dia, quando alguém lhe gabava a corrente, e perguntava fatalmente se era mesmo de oiro, respondia, à cautela:
    - Tem dias!

    Saudações destes dias bem-passados aqui neste blog, cá do Bairro Ribatejano!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Na versão que eu conheço, um homem ofereceu à legítima um cordão de ouro e levou-a orgulhoso à feira; para se vangloriar, aproximou-se de ourives ambulante:
      — Oiça lá, quanto é que vossemecê dá pelo fio da minha mulher?
      — Dez contos de reis!
      Afastam-se, ambos vaidosos.
      Ora a mulher deu o cordão ao amante. Tempos depois, torna o marido: — Amanhã, pões o cordão , que vamos à feira!
      A mulher, atrapalhada, pergunta ao amante o que hão-de fazer.
      — Não há problema, levas um de pechisbeque, ninguém dá pela diferença.
      Logo o orgulhoso marido procura o mesmo ourives e repete a pergunta.
      — Por esse fio, nem dez tostões dou!
      E a mulher, a disfarçar, enquanto puxa pelo braço do marido: — Vamos embora, que o raça do homem tem dias!

      Eliminar
    2. E eis que o blog da Rosário virou um blog de anedotas, ainda por cima sem piada nenhuma.
      Confesso que não estava à espera...

      Eliminar
    3. As minhas desculpas. Não volto a repetir.
      José C. Catarino

      Eliminar
    4. António Luiz Pacheco24 de outubro de 2017 às 03:26

      Pois eu volto!
      Quem não lhe agrade, que não leia, passe à frente!
      Era o que faltava, ser censurado ... a menos que a dona do blog me faça algum reparo nesse sentido.
      Eu gosto de contar histórias, tenham ou não piada, porque nem sou humorista logo não sou obrigado a fazer rir. Contei uma história que se adapta a tantas situações, e cuja moral é mesmo "tem dias".
      O anónimo não o percebeu, julgou que era uma anedota, portanto o defeito é dele e não meu!
      Um abraço José Catarino!

      Eliminar
  4. Faz-me lembrar a lengalenga do mestre José Leite de Vasconcelos:
    Era não Era
    Andava na serra
    Era seu pai nado
    Sua mãe por nascer...

    ResponderEliminar
  5. Queixava-se a mulher de que os rapazes da rua lhe andavam a desinquietar o miúdo. Foi assunto que despoletou uma grande discussão.

    ResponderEliminar
  6. Li o post com agrado, mas, no caso do barbeiro (ou cabeleireiro), eu continuava a preferir o que tem o cabelo bem cortado e arranjado. É claro que as pessoas raramente cortam o cabelo a si próprias. Por outro lado, penso que um barbeiro que não é cuidadoso com a sua aparência, procurando alguém que lhe corte e arranje o cabelo em condições, dificilmente irá ser cuidadoso com o cabelo alheio. Claro, há casos e casos. Mas daí a dizer, categoricamente, que o viajante faz mal em escolher o barbeiro catita...

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório