A manta do tempo
A terrível velocidade dos tempos que correm (eu até disse «correm») é, na verdade, bastante recente. Talvez os miúdos de hoje já nasçam acelerados, mas quem nasceu antes da invenção dos computadores e dos telemóveis sente que o mundo avança de forma vertiginosa e fica muito stressado (o meu caso). É bastante curioso que no livro que aqui me traz hoje – Num Tempo Que Já Lá Vai, escrito por Rosário Alçada Araújo e ilustrado por Patrícia Furtado – seja a Laura, uma menina, a notar que as coisas estão a andar demasiado depressa e que não devem ter sido sempre assim. Pergunta à avó, que a leva à escola, como era no seu tempo – e essa pergunta inaugura uma bonita história com uma manta tricotada que, ao desfazer-se de volta ao novelo, fala de tempos que já lá vão, quando a trisavó de Laura ainda era viva e o padeiro trazia o pão à porta, havia pregões, varinas, ardinas, bacios de louça, relógios de dar corda, ferros a carvão e muito mais coisas que entretanto se tornaram obsoletas e inúteis. Mas não é um livro saudosista, pelo contrário, nele guarda-se o passado como relíquia mas ensina-se que todos os tempos têm coisas boas e más e, sobretudo, pessoas que vivem, trabalham, conversam, amam – tal como avó e neta nesta história. A edição é da Gailivro e o lançamento é amanhã, ao meio-dia, na Livraria Buchholz, em Lisboa.
Afinal somos nós que aceleramos os relógios, que desinquietamos o Tempo, que empurramos os dias... Afinal - não sabia em criança, mas descobri com os anos que eu próprio acrescentei à minha idade, ansioso pelo que o Tempo guardava para si próprio - somos nós quem acrescenta os dias ao vazio e constrói certezas improváveis, fugindo para a frente... E por isso, o Tempo somos nós e os relógios batem nas nossas pálpebras à urgência com que corremos...
ResponderEliminarBom dia e que o Tempo passe devagar...
O tempo...
ResponderEliminarLogo de manhã cedinho, fui ali acima ao pé da Flor do Mato deixar o meu carro (esteve muito tempo parado) na oficina do Zé "Fofa" para ele ver uma fuga num tubo da direcção. O carro ficou lá à porta, com a chave na ignição... aqui ainda se pode fazer assim!
Depois desci a pé por aí abaixo, e encontrei logo a Emília "do Beato" a sair lá do seu casal, ia apanhar a "carrêira p'ra ir ó médeco, p'roque fui óp'rada ó mê joêlho...". Sempre rija nos seus "óitent'anos". Saudou-me logo com um "ólh'ó Luizinho! Ê prégunto sempr´pur si à D. Farnanda". E deu-me um beijinho repenicado e muitas palmadas no ombro com a mão livre da sombrinha e da malita que passou para a outra.
O tempo passou para a Emília e para mim, depois e curiosamente na descida para aqui, antes de entrar ao portão, vinha justamente a pensar no tempo, nas coisas que foram e o que são agora, não sei se encontrar a Emília que trabalhou aqui nos bons tempos, nos pomares a apanhar fruta, na vindima... de que foi guarda o temido pai dela, sempre arrimado ao nodoso cajado, o velho Beato (célebre jogador de pau e varredor de feiras), e os irmãos o Pedro do Beato e o Manel Beato, foi o que me despertou esta nostalgia ou se foi o cheiro da humidade Outonal, a terra e eucalipto molhados, ou o que foi ... mas é curioso que depois de dar uma passagem pelos mails a responder ou a recolher informação, ao passar aqui dê de caras com o tema que me bateu logo de manhãzinha!
O tempo foge... diz a citação latina. Ou fugimos nós dele?
Não sei, mas sei que nos trás saudades.
Saudações de uma manhã de Outono no Bairro Ribatejano!
:)
EliminarBoas férias, Sr. Pacheco!
Obrigado!
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