Releituras
Não tenho o hábito de reler o que escrevo depois de estar publicado – excepto, evidentemente, uma meia dúzia de poemas que soam bem em voz alta e repito na maioria das leituras ao vivo. Não sei, porém, como procedem os outros poetas: se se lêem com regularidade, se fazem como eu e acabam por se surpreender quando um dia encontram um texto seu que não se lembravam de ter escrito. Imagino que a tarefa seja, contudo, muito mais complicada para os romancistas. Não estou a ver um ficcionista ler um velho romance seu enquanto escreve um novo, mas, enfim, tudo é possível. Lembram-se de que há uns tempos Philip Roth disse que iria parar de escrever? Pois bem, enquanto não produziu obra literária, esteve a reler todos os romances que escreveu. Quase me apetece dizer: é obra! Num livro recente que colige a sua obra não ficcional – Why Write?, com entrevistas, discursos e artigos –, Roth, depois da releitura de O Complexo de Portnoy (escrito 45 anos antes), confessa que ficou simultaneamente chocado e contente com o que fez; chocado por ter sido na altura tão ousado, feliz por o livro o ter recordado disso mesmo. E, relativamente ao conjunto da obra ficcional, o balanço é afinal positivo: «Depois de acabar de a reler, concluo, fazendo eco das palavras de Joe Louis, um boxeur que é dos meus heróis: ‘Fiz o melhor que podia com o que tinha.’» Uma releitura que, pelos vistos, valeu a pena.
É boa essa!
ResponderEliminarNo meu caso concreto, o que tenho em termos de obra publicada ao longo de já quase 3 décadas, são relatos de viagem, alguns contos, reportagens sobre caça e pesca sub e artigos sobre os mesmos temas. Perfazem umas boas dezenas, e não me lembro de todos evidentemente! Por vezes tropeço num, sim e então releio-o... sabe-me bem recordar ou até perceber que evoluí tanto na escrita quanto noutros campos.
E o que escrevi antes, serve-me muitas vezes para apoiar ou inspirar escritos actuais.
Infelizmente a minha actividade de escrita nas revistas temáticas cessou, mas nem por isso deixei de escrevinhar!
É bom ler o que se escreveu há 20 ou mais anos... é pois!
Saudações saudosas e presidenciais cá da Cidade Morena
António Luiz Pacheco
Como é possivel teromitido Largueza?
EliminarJCC
Ia perguntar o mesmo.
EliminarOra... foi para ver se alguém estava atento! Ahahahah!
EliminarFora de brincadeiras, foi um caso isolado a publicação do referido romance, a que não dou lá muita importância pois passou desapercebido. A obra (se me permitem usar o termo) que tenho publicada, são de facto os artigos em revistas ao longo de muitos anos (Diana, Calibre 12, Caça e Cães de Caça, Notícias do Mar, Mundo Náutico, Mundo Submerso, Apnéa (francesa), Hunters Internacional (espanhola) e mais uma outra ocasional ... fui mesmo finalista ao grande prémio da reportagem submarina no Festival de Antibes.
Largueza, ainda acredito que seria um bom romance se alguma Editora olhasse para ele, pois me parece que tem potencial até para ser publicado nos EUA - por exemplo. No entanto e apesar do que dele gosto, não me parece que valha a pena mencionar. Estou a escrever, com calma, um novo romance, africano, e se ou quando o publicar, então poderei passar a citar ambos no meu cv ...
Mas obrigado pela vossa chamada de atenção, e notem que às vezes vou ler alguma passagem, é assim como ir visitar o meu filho!
Saudações cá da Cidade Morena
António Luiz Pacheco
Ler o Complexo de Portnoy no original é uma delícia, particularmente para quem viveu uma meia dúzia de anos nos USA e está familiarizado com o calão local. Não conheço retrato literário mais fiel do que é a adolescência/puberdade masculina, um período de grande perturbação na vida de qualquer rapaz, porque nele reina a instabilidade emocional e o sofrimento de um ser que de repente se vê a contas com um corpo supersexuado e que é guiado pelas fragilidades de uma mente insegura e imatura. E ainda não deram o Nobel ao Philip Roth, o que é uma enorme injustiça.
ResponderEliminarPenso que não será assim tão raro, um romancista reler algo que publicou há vários anos. Há autores que republicam romances, depois de os terem relido e revisto. Li, por exemplo, algures que Eça de Queirós republicou "O Crime do Padre Amaro" cerca de dez anos depois da primeira publicação e lhe modificou o final. Aliás, ele teria dificuldades em encontrar um final adequado para esse romance. A versão que conhecemos hoje é a da republicação.
ResponderEliminarTambém eu republiquei um romance (em edição de autor), passados seis anos, depois de o ter relido e revisto. E, se o meu caso não lhe serve de exemplo, conheço uma autora sua que fez o mesmo.
Não estava a falar de ler para rever, mas ler como quem lê a obra alheia. Claro que quem quer republicar, deve ler, mas não era o caso de Roth.
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