Possuir

O Manel costuma dizer que, lá em casa, eu sou a leitora e ele o bibliófilo – e talvez tenha razão. Não tenho espírito de coleccionadora e o que amo acima de tudo nos livros é o texto. Claro que não sou indiferente a uma bonita edição de determinado livro ou a uma colecção bem feita obedecendo a um tema ou estratégia. Mas do que gosto mesmo é de ler e não me importaria de alienar parte da minha biblioteca se tivesse, por exemplo, de mudar para uma casa mais pequena e soubesse que não voltaria a ler esses livros. Não sou também, regra geral, agarrada às coisas, que substituo sem grandes desgostos, ou sequer possessiva. Talvez por isso me custe entender porque há malucos que pagam fortunas para possuir uma peúga de John Lennon; talvez por isso me custe ver agora que os herdeiros do meu poeta favorito – o irlandês William Butler Yeats – vão leiloar centenas de cartas de amor (incluindo 130 manuscritas enviadas à primeira namorada), livros, quadros, móveis e objectos pessoais do escritor que venceu o Prémio Nobel da Literatura em 1923. A mim, que o venero, nunca me passaria pela cabeça possuir os seus originais (contentar-me-ia em lê-los), e menos ainda a poltrona onde terá posto o rabo. Mas a Sotheby’s vai de certezinha absoluta facturar – e muito, porque nem todos somos iguais e há quem goste simplesmente de possuir.

Comentários

  1. Entre os objetos pessoais do autor haverá alguns que gostaria de ter, assim tivesse dinheiro. Entre os seus quadros idem idem.

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  2. Emílio Gouveia Miranda15 de setembro de 2017 às 01:32

    Há gostos para tudo: sem dúvida um cliché. Mas certamente dos mais verdadeiros. Os gostos dariam um excelente livro...
    Bom dia e bom fim-de-semana.

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  3. Eu sou como a Maria do Rosário Pedreira: livros só para ler, sem ter nenhum prazer em possuir primeiras edições, livros antigos ou raros. Tenho, claro, como muitos de vós, muito mais livros em casa do que aqueles que alguma vez conseguirei ler, mesmo que venha a ter a sorte de me ser oferecida uma vida longa e saudável. Todos os livros que entraram pela minha mão em minha casa foram resultado de uma pequena paixão, aquela que na altura me soprou ao ouvido: "gostava mesmo de ler este livro". Depois, é triste confessá-lo, a vida ocupa-nos e esquecemos essas pequenas paixões, ficando os livros estacionados numa prateleira ou numa pilha. Esquecidos mas não perdidos: tenho a quimera que, mais dia menos dia, irei ter tempo para redescobrir os tesouros que fui acumulando ao longo duma vida. E essa fantasia de um futuro cheio de surpresas literárias deixa-me um calorzinho na alma.

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    1. O Artur pode não acreditar, mas este comentário poderia ter sido escrito por mim - penso exactamente o mesmo.
      E agora vou ali à pilha ver se "desestaciono" um e o ponho a rodar.
      :-) Antonieta

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    2. Cara Antonieta, é esse também o nosso prazer comum: saber que temos sempre à nossa disposição uma pilha de livros, com livros que todos já foram amados, nem que tenha sido apenas durante o curto período em que os comprámos e trouxemos para casa. Mas quando pegamos num desses livros esquecidos, há sempre uma memória que renasce desse amor que antes nos parecia ter desaparecido.

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  4. Tenho muito orgulho das minhas primeiras edições dos livros do Rider Haggard, do John Buchan ou de (agora) ilustres desconhecidos como o Silva Gaio... Há qualquer coisa mágica nos livros antigos.

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    1. Ahhhhh! Atéqu'enfim... tava a ver que não!
      Alguém que gosta de ter ... eheheh! E logo R. Haggard, de quem sou grande fã!!!!
      Buchan podia ter sido um personagem de Haggard, não acha? E é fascinante.
      No resto, vencidos da vida seremos todos...

      Saudações vivas cá da Cidade Morena!

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  5. Sou casado com uma pessoa tão desprendida que me exaspera... eu sou um ajuntador compulsivo de coisas, dos calhaus às navalhas, e por conseguinte de livros!
    A minha casa é um verdadeiro depósito daquilo que outros foram deixando e eu ajuntando, quem vier a seguir que faça como bem entenda!
    Adoro ter coisas, adoro ter livros... confesso!

    Atrevo-me a dizer que mal seria da humanidade se uma parte significativa de nós, pessoas, não fôssemos assim... não haveria museus e colecções, não haveria bibliotecas, não teríamos guardado testemunhos ou arte ou o que seja que nos dão hoje a possibilidade de admirar tanta coisa que alguém guardou numa dada altura e servem para os que vêm a seguir!

    Saudações possuidoras cá da Cidade Morena!

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    1. Caro António Luiz, eu sou incapaz de coleccionar porque tenho sempre presente a transitoriedade da nossa condição. Em breve já não estarei cá, então para quê coleccionar ? Só junto o que julgo que me poderá ser útil e, mesmo assim, já tenho mais livros do que alguma vez poderei ler...

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    2. Compreendo perfeitamente, mas no meu caso é exactamente por essa transitoriedade que acumulo coisas, neste caso livros!
      Eu um dia desapareço, mas os livros ficam... sobrevivem-me como sobreviveram antes.
      São livros que significaram algo e por isso alguém os comprou e guardou, que passaram para mim e muitos deles os li, outros que comprei porque também significaram algo portanto entendo que os devo guardar... repito, como outros guardaram antes de mim. Os meus descendentes que façam um dia deles o que bem entendam, quem sabe os guardem também...

      Repare Caro Artur que se nos agarrarmos ao facto da transitoriedade da nossa passagem, a humanidade não teria memórias... nem bibliotecas que são a maior e melhor memória dos homens!

      Abraço, definitivo!

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    3. Fiquei com pena da pessoa com quem é casado:). Acumular tralha é um quebra cabeças. E apesar dos museus acumularem passado, cingem-se a passado de valor, digno de ser exemplo para a humanidade, que conta e contém a sua história sem esquecer os rasgos de génio humano. Confesso que detesto gavetas atafulhadas e em desordem absoluta de tudo ao molho e fé em Deus, trastes acumulados, casas cheias de objectos até mais não. Creio que não saberia viver assim: teria de as ordenar, de as distribuir por categorias, de inventar novos lugares onde guardá-las sem sobreposição anódina.

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  6. Também eu gosto, amo, ter/adquirir/possuir os "meus" livros, não 1ªs edições, não possuo recursos para tal, mas gosto de olhar para eles, antes e depois de lidos/saboreados/descobertos, gosto de emprestar, mas tenho que saber que estão em boas mãos.
    Ontem tomem conhecimento do bookcrossing, uma prática que consiste em deixar um livro num local público a fim que outros o encontrem e levar outro em troca.
    Convidaram-me a participar, disse logo que não.
    Não conseguiria deixá-los ir.

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  7. Fugindo um pouco ao tema de hoje, gostaria de enviar um beijinho especial à Extraordinária Carla Pais, que hoje tem grande destaque no ípsilon do Público, e desejar-lhe muito sucesso no seu novo livro.
    :-) Antonieta

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    1. Boa essa notícia!!!!
      Não sabia, a Carla não o partilhou ainda com os amigos...

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  8. William Butler Yeats! Está entre os meus cinco preferidos! Eu adoro Yeats!
    E sim, tenho um bocadinho espírito de coleccionadora, já o meu pai tinha e bastante. Mas ter o espírito é uma coisa e poder coleccionar, é outra. Não há dinheiro, nem casas, nem condições de armazenamento e manutenção.
    Tenho algumas colecções - se assim podemos chamar ao que eu tenho - de coisas muito interessantes, como por exemplo, catálogos de lojas, alguns com mais de cem anos. Uns comprei e os mais recentes, com quarenta e tal anos, eu própria os peço nas lojas. Esta colecção que, aparentemente, não tem interesse nenhum, tem-no. E muito. E também tenho uma enorme colecção de latas e de bules de chá. E tenho livros com 300 anos que eram do meu pai. Ao longo da sua vida ele comprou alguns.
    Enfim, são gostos e manias.
    Mas isto da peúga do John Lennon ou das cartas de amor do nosso Yeats não anda muito longe das visistas às Casas Museu onde moraram escritores e artistas variados. Eu gosto de ver. Em Outubro lá vou eu e bem longe visitar uma Casa Museu.
    Dispenso, contudo, a peúga... ahaha!

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    1. O poste acima e desculpem-me - esqueci-me de assinar - é meu.

      Cristina Carvalho

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  9. Também sou uma criatura muito desapegada.
    Embora tenha surtos de dislatexia. Gravíssimos.
    Portanto ocorre-me aquela letra ;
    "... Podes ficar com as jóias, o carro e a casa,
    mas não fiques com eles (os livros)
    Até as contas do banco, a casa de campo,
    mas não fiques com eles (os livros)..."

    A Ágata é que sabe.


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  10. Sinto-me como o Artur Águas (10:13). Mas desde que me reformei tenho feito um certo desbaste nas estantes. Comecei até a convencer-me que conseguirei lê-los a todos.

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  11. Também gosto desse poeta (não sei quem é o meu poeta favorito, ainda que tenha um fraco muito forte por Eugénio de Andrade e por falta de domínio de outra língua seja incapaz de preferir poetas estrangeiros). Não ambiciono nada do que alguém usou ou é um original nas letras e arte em geral. Respeito, isso sim, objectos pessoais de gente com quem privo no quotidiano e que admiro gostando. Mas não luto por eles, deixam-me tanto de outro que um objecto é mera representação. Tenho algum preconceito acerca da divulgação de cartas de amor; ou mesmo cartas em geral. Mas reconheço que a sua publicação - se se trata de boas cartas e autores que a merecem - pode beneficiar o leitor. Não podemos esconder dos outros os tesouros literários. Nem devemos. Parece-me. Ao resto sou estranha.

    Quando a eliminar livros das estantes...se não os prefiro, é fácil. Se me convenço que não volto a lê-los, vai de rajada. Há muita solução para livros que não cabem nem apetecem.
    BFS

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