Epístolas

Quando era jovem, escrevia muitas cartas. Cartas de amor, claro, sobretudo se me encontrava a passar férias com a família longe do namorado; mas também cartas aos amigos durante o Verão e cartas aos colegas que tinham ido viver para outros países (o que era comum na minha geração). Tinha especial cuidado com o que escrevia, fazia um rascunho e depois passava a limpo, e fazia os possíveis por que essas cartas fossem, se quiserem, algo literárias, e não meia dúzia de frases banais só para dizer «olá» e «saudades» (para isso existiam os postais ilustrados, que também, julgo eu, já pouco se mandam). A emergência do digital matou, no fundo, a correspondência (o meio não favoreceu este cuidado de que falei, antes uma rapidez de escrita e leitura que não se coaduna com a atenção e o tempo que a velha correspondência exigia); como dizia um dia destes a reitora da Universade Católica Portuguesa numa entrevista, «a ausência de pegada mediática torna o indivíduo invisível» e, por isso, a literatura epistolar tende a desaparecer nas próximas décadas, o que é uma pena. Porém, ainda se vão encontrando boas surpresas – e durante a última Festa Literária de Paraty (a famosa FLIP) foi lançada a compilação de uma troca de cartas entre Saramago e Jorge Amado com o belo título Com o Mar por Meio; segundo dizem, uma «curta mas tocante troca de inconfidências» entre dois grandes escritores do século XX. A publicação é da Companhia das Letras. Valha-nos este tipo de lançamentos.

Comentários

  1. Eu também sou do tempo das cartas e dos postais - de férias, de aniversário, de Natal - e ainda tenho uma ou duas caixas onde às vezes gosto de ir espreitar...
    Quanto ao livro do Amado & Saramago, é mesmo a não perder.
    Antonieta

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  2. Emílio Gouveia Miranda7 de setembro de 2017 às 03:02

    Bela a palavra Epístola. E misteriosa. Lembro-me, sempre que a ouço ou leio, da minha infância, de quando ainda ia à missa e ouvia a cada passo: Epístola de S. Paulo aos Coríntios. Longe ainda de saber que Epístola significava, apenas, Carta. Apenas?
    Uma Carta é uma partilha. De emoções, de curiosidades, de novidades...

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  3. Imaginava lá eu, que a epístola a adejar paramentos litúrgicos e fumos de turíbulo afinal é uma carta.
    Talvez até com vocação para carta de amor. Desse que nem os Deuses nem os homens estão imunes.
    Embora podendo incorrer no erro, permitam-me fazer o gosto ao dedo e despedir-me com uma fórmula epistolar.

    Fica o desejo de que se encontrem todos bem,
    deste vosso muy respeitoso amigo

    Puck

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    1. Oh! Tão bonito! Embora seja uma frase feita é bonita por haver dela muita falta de hábito.

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  4. Também escrevi muitas cartas e também fazia quase sempre rascunhos, que depois passava a limpo ;) E, se elas não eram muito literárias (não me compete julgar), fazia sempre esforço para ser original e, mesmo nos postais, evitava "frases banais só para dizer «olá» e «saudades»".

    Correspondia-me muito com a minha prima que, imagine-se, vivia apenas a 30 km de mim (eu em V. N. de Gaia e ela em Santa Maria da Feira). Outros tempos...

    Outra troca de correspondência duradoura foi com o meu marido alemão. Correspondemo-nos durante seis anos, antes de nos conhecermos pessoalmente. E, claro, a troca continuou depois, até casarmos e eu ir para a Alemanha. Escrevíamo-nos em inglês (o alemão era ainda muito complicado para mim).

    Já agora, informo que celebrámos recentemente as Bodas de Prata.
    http://andancasmedievais.blogspot.pt/2017/09/bodas-de-prata-parte-2.html

    Já agora (2): o meu último romance publicado é epistolar.
    http://andancasmedievais.blogspot.pt/2016/09/tu-es-unica-pessoa-5.html

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  5. Gosto de cartas. Escrevi bastantes e muito carregadas de folhas. Mas nunca me dei ao trabalho de as rascunhar. Foi já na idade madura que aconteceu por vezes lê-las e emendar; e depois de muita rasura escrever de novo por respeito ao recebedor. Interessava-me contar a pessoas de quem gosto aquilo que vejo oiço ou sinto e o que isso me suscita, julgando que a outra pessoa afina pelo meu diapasão e gostará de as saber e, na resposta, dirá de sua justiça. O poder da troca é muito salutar. E a satisfação de receber uma resposta era, então, qualquer coisa de extraordinário. O intuito literário nunca me moveu, só escrevia a pessoas que me interessavam e com quem tinha afinidades que não queria perder.

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  6. Li sobre a FLIP e sobre a compilação da troca de correspondência entre J. Saramago e J. Amado no Jornal de Letras, chegam a publicar algumas cartas. Gostei tanto.

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  7. Sem as cartas da mãe, sem os versos em folhas soltas, lembrar-me-ia apenas do silêncio.

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