De volta

Agora, que o Outono já se instalou, regressam as sessões Ler no Chiado organizadas e conduzidas pela jornalista Anabela Mota Ribeiro na Livraria Bertrand (do Chiado, claro), a mais antiga livraria portuguesa e uma das mais antigas do mundo ainda com actividade. Desta feita, o tema da conversa é pessoa e autor (não escrevi «escritor» porque é muito mais do que isso, e «autor» engloba também a sua actividade nas artes plásticas); mais concretamente, o senhor Almada Negreiros, que ainda recentemente foi objecto de uma exposição retrospectiva na Fundação Calouste Gulbenkian, cuja curadora, Mariana Pinto dos Santos, será, de resto, uma das intervenientes na sessão de hoje (às 18h30, faltou dizer). Além dela, poder-se-á ouvir o especialista em modernismo português Fernando Cabral Martins, professor da Universidade Nova de Lisboa, e ainda a grande actriz Maria do Céu Guerra, que, segundo leio na informação da iniciativa, se estreou justamente com um texto de Almada. Tudo boas razões para chegar mais tarde a casa.

Comentários

  1. Bom dia, Rosário! Bom dia a todos!

    Tenho pena de não ir. Escrevi, este ano, em Abril um longo texto em memória e exaltação de Almada Negreiros. Foi lido na Galeria Monumental. Pessoa que muito admirei.

    Deixo aqui um excerto desse meu texto:

    (...) Não desejo estar a falar aqui sobre toda a actividade desta imensa e cultural personagem, pois todos conhecemos a multiplicidade criativa que lhe incendiou os dias em que viveu. Todos já ouvimos falar, ou mais ou menos, deste homem planetário, incendiário, vulcânico, cheio de interesses e eu faço ideia de quando foi novo e sanguíneo! Sei, por várias razões que a experiência não é fácil, principalmente para quem vê estas vidas do outro lado da estrada. Há sempre quem diga e mais prosaicamente falando – toca tudo e não toca nada. Coisa que não é verdade. E é aqui que mora o tal talento, se é que com esta irritante palavra – talento – me faço entender. Almada sobressaiu no tempo da sua vida precisamente pela incrível dispersão das suas artes totais. Eu não queria parecer exagerada, mas não me lembro de muitas personalidades destas em toda a história cultural que conheço. Há mais um ou outro nome, mas que nem vou citar agora e mais não digo por ser verdade.
    Almada desejou fazer explodir toda a arte, a começar pela poesia. E acho que conseguiu. Isto, relativamente, à sua corrente contra cultura, ao arrepio do cânone. Ele desalojou a burguesia instalada nos seus versículos uns tais dolentes outros tais violentos ou a atirar para o modernismo; ele cuspiu em todas as regras instaladas, nunca se imobilizou, nem chafurdou na candura estática do estabelecido. Ele escatologizou-se – palavra inventada ao escrever este texto, mas a língua é uma expressão viva – à farta! Modernista e Futurista e tudo! O que eu gostava de o ter conhecido!
    (...)
    Nos dias de hoje, ao ritmo alucinante da visibilidade que essa mágica internet confere a todos nós, indivíduos bípedes que vagueamos por este planeta e que vamos saboreando milhares, milhões, ziliões de conversas, de fotografias, de palpites e opiniões, não consigo imaginar que tipo de verborreia uma pessoa como ele foi, poderia ter para se distinguir dos demais. Somos todos interessantíssimos, originais, assertivos, mais simpáticos ou menos simpáticos. Se Almada vivesse nos dias de hoje, continuaria a distinguir-se por todas as palavras sem medo, acutilantes, enérgicas que se soltariam por aqui e por ali, sem eira nem beira, a seu desejo, aos quatro magníficos ventos: Zéfiro, Bóreas, Euro e Noto.

    (…) Ora bolas para os sábios e pensadores!
    Ora bolas para todas as épocas e todas as idades!
    Bolas prós homens de todos os tempos,
    E prá intrujice da Civilização e da Cultura!

    Cristina Carvalho - 7 de Abril de 2017 - lido na Galeria Monumental

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Aplaudo!
      E aprendi mais qualquer coisinha...
      Extraordinária a sua exposição sobre o Almada Negreiros.

      Eliminar
    2. Não sei se isso é comigo, mas se for, obrigadinha António Luiz! :D

      Cristina Carvalho

      Eliminar
    3. Evidentemente que é! Ora essa... sempre a considerá-la minha amiga! E a engraxá-la...

      Saudações manteigueiras cá da Cidade Morena!

      Eliminar
    4. Que belo texto. Apaixonado, forte.
      E que viva Almada e já agora a Cristina também.

      Puck

      Eliminar
    5. Obrigada, Puck! Isto era só um excerto. Há mais!

      Eliminar
  2. Este post despertou-me a atenção para o facto de haver especialistas em "modernismo português", coisa que ignorava mas faz obviamente sentido pois o modernismo sendo uma corrente, há-de haver que o estude!

    Mas mais do que isso, fica-me a pergunta: O dito modernismo, está localizado no tempo?
    Creio que sim... pois até me parece que há o pós-modernismo... o que me faz muita confusão, uma vez que o modernismo é sempre algo de actual, contínuo que se renova, no sentido de hodierno, ou não é? Portanto o que ontem era modernismo hoje já não é... então como é que chamamos ao modernismo actual? E como vamos chamar ao modernismo daqui a dez anos quando lá se chegar?

    O modernismo não teria de mudar de nome? No sentido de que foi uma corrente mas já não é, evoluiu, alterou-se mudou...

    Cruel dúvida... ou parvoíce minha?

    Saudações de dúvida cá da Cidade Morena.

    ResponderEliminar
  3. Um dia destes, tal como a Madonna, vou para Lisboa. Compro bilhete de ida, instalo-me num palácio...com banheira de chumbo para mudar de personalidade.

    Boa sessão!

    ResponderEliminar
  4. Muito aprazível o cardápio. E que Lisboetas e afins o aproveitem por eles e por nós, eu e os tantos como eu, que não podem marcar presença. O senhor Almada era genial. E muito ganhamos em virar-lhe a nossa atenção. A exposição da Gulbenkiam foi exemplar.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório