Curto e comprido

Nunca acreditei que o livro fosse morrer – e ele esteve já sob ameaça muitas vezes. Mas a verdade é que também nunca estive tão convencida de que ele corre agora sério perigo e será um objecto cada vez mais minoritário para um público cada vez mais diminuto (como a ópera, a dança, a fotografia?). Penso que o seu maior inimigo é o chamado smartphone, de que as pessoas estão absolutamente dependentes nos tempos que correm (crianças e jovens incluídos, o que é grave), no qual a leitura é invariavelmente rápida e não exige nem tempo, nem esforço, nem concentração; mas diz quem sabe (Timothy Snyder, autor de Sobre  a Tirania – 20 Lições para o Século XX, citado por Rui Tavares no jornal Público) que, mesmo para entender um texto curto, precisamos de ter lido livros compridos – e que, para compreender uma carta do século XVIII, por exemplo, é necessário termos lido os livros que então se escreveram. Na obra de Snyder que citei, o autor dá um conselho para o futuro: «Leiam livros.» E Rui Tavares chama atenção para o facto de poder parecer «interesseiro» um livro mandar-nos ler livros. O meu medo é que, não lendo livros que mandem ler livros, as pessoas não leiam livros. Precisaremos de frases curtas a aconselhar a leitura de obras compridas nos smartphones… Como fazê-lo?

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda12 de setembro de 2017 às 01:55

    Bom dia. Antes de mais, uma correcção a fazer: parecer em vez de parceer.
    Quanto à preocupação, é real. Ou talvez não. Depende da perspectiva. Houve tempos em que se lia mais (proporcionalmente, a meu ver), porque havia menos livros. Menos livros por ano, por mês e por dia. Por isso, os que liam, que eram muito poucos, há que dizê-lo e não nos iludamos com análises românticas, liam proporcionalmente mais. Hoje, tudo acelera, incluindo o «negócio» dos livros, esquecendo-se os Editores que os livros se lêem devagar. Não é possível ler a correr um bom livros. Portanto, há que repensar o «negócio» dos livros, se querem vê-los lidos. Porque hoje há mais gente que sabe ler e (deixemos-nos de filosofias baratas para assuntos caros) que, de facto, lê. Pois é. Digo eu.

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    1. Obrigada. Corrigido. No seu comentário, penso haver também um «s» a mais em «livros». Tem razão no que diz, claro, mas os editores (pessoas) não têm tanta culpa como as editoras (empresas), se me faço entender.

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    2. E tem muitíssima razão! No meu entender... sem ir contra aquilo que eu escrevi antes de o ter lido...

      Um abraço, gostei desta "cavaca"!

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    3. Emílio Gouveia Miranda12 de setembro de 2017 às 02:17

      Obrigado. Já dei por ele, mas não sei como corrigi-lo. Quando fiz alusão a Editores, pretendia referir-me precisamente às Editoras. Também é verdade que quando falamos de livros (com s) colocamos uma série de mercadorias, que nada têm que ver com «livros» com L grande no mesmo saco...

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    4. Emílio Gouveia Miranda12 de setembro de 2017 às 02:18

      Saudações, caro Amigo. Um abraço e votos de boas leituras.

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  2. Bom... esta discussão parece-me muitíssimo interessante e como se costuma dizer, daria pano para manga! Daria... porque infelizmente e como muito bem diz a Nossa Extraordinária Anfitriã, hoje é tudo "para já", imediato e curto... instantâneo, sejam as conversas ou as leituras.

    Acrescento até que para haver conversação tem que ter havido leitura e muita, já que só a experiência não basta e nos reduz o tema de conversa, enquanto a leitura nos alarga os campos.

    Voltando ao assunto, pergunto-me se não há também alguma culpa de quem incentivou, promoveu e quase que só edita os livros "curtos", não sei porque razões do merchandising (é sempre ele a mandar) é que se ditou que o grande romance estava fora de moda, e o que impera são os romances breves... coisa que a mim me custa aceitar, dado que não há nada como um romance de centenas de páginas, que nos arraste por elas e nos faça amigos dos personagens, virtualmente, como se fossem "amigos" do facebook! Claro que um romance assim, com centenas de páginas, obriga o autor a ser capaz de o escrever, e, creio que o que a maioria dos autores actuais tem para desenvolver, se esgota em duas centenas, como se fossem contos ou artigos de revista... claro que há excepções mas vêm quase todas de fora, de outras escolas de escrita, onde se escreve para o leitor, para o público e não para si mesmo, que é a interpretação que faço dos nossos autores contemporâneos, escrevem para eles mesmos e para um reduzido grupo que é como um clube, não o fazem para um público vasto e universal.
    Claro que posso estar errado, e essa a parte interessante de uma conversa, estar errado ou não completamente certo, permitindo que se contraponha e assim se alimente a fogueira da conversação com muitas achas no lume!

    A moda, a imposição do romance curto, trabalhou também para que as pessoas percam essa capacidade de leitura, de concentração, a que se alude.

    Finalmente pergunto ainda: - Não será que o que mais falta à literatura são os temas, os grandes temas que apaixonem e atraiam? Com heróis e heroínas, vilões, desgraças e sucessos, em histórias intrincadas e bem urdidas, com altos e baixos, com crime e castigo, como as telenovelas ou as séries que atraem e arrastam milhares de seguidores pelo Mundo fora?

    Os livros para serem lidos, tem de nos apetecer lê-los...

    Enfim, é uma opinião e vale o que vale, será errada, até maçadora mas fica aí para que me contestem ou completem...

    Saudações opiniosas cá da Cidade Morena!

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  3. Creio que será simplesmente o mundo em constante mudança e não é possível parar o relógio!

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  4. Bom dia a todos!

    Se calhar, uns textos horripilantes que uma pessoa vê por aí, de vez em quando (normalmente escritos, enfim, ...) estejam já a servir de aprendizagem para essas leituras desgrenhadas, sempre a direito, com o vento sempre a dar-lhes de feição e a deitar todas as letras por terra, dizia eu, estejam já a servir de treino para a leitura nos tais smartphones e tudo o mais que aí virá.
    Ultimamente tenho visto uns textos sem respiração, como eu lhes chamo, ou seja, escritos sempre a direito com discursos directos e indirectos sempre em frente, sempre a aviar, sem um único sinal de separação a não ser um ponto final. Uma pessoa chega ao fim desses parágrafos, exausta do esforço que faz para ligar as frases.
    Mas isto sou eu que já me canso...

    Será que quem os escreve se acha original ou pensará que está a fazer serviço público para a tal futura aprendizagem de uma leitura diferente?

    Não há pachorra!
    E depois admiram-se e dizem-se muito mal tratados pelas editoras que não gostam deles...

    Cristina Carvalho

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    1. Olha, olha ... verifico que a minha Cara e Estimada Amiga, usou de reticências, e, ponto de exclamação!

      Ahahah!

      É como diz o também Caríssimo Severino: Perpétuo Movimento ...

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  5. Cláudia da Silva Tomazi12 de setembro de 2017 às 03:56

    Nada a literatura atreve-se em grosserias o sendo expressão. Estilo, atende modulações.

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  6. Vou contar-vos uma história.

    Numa das minhas turmas simpáticas - também as há no ensino público -, tinha o hábito de por à prova as aventuras que andava a escrever. Os mais jovens são os melhores críticos. São sinceros, genuínos.

    Essa turma tinha um casal de gémeas, ávidas leitoras, que colocavam o mesmo livro do Harry Potter em cima da carteira. Um dia perguntei-lhes:
    - São os livros que andam a ler?
    Acenaram com a cabeça. Uma delas aproximou-se.
    - Já o li quatro vezes.
    A outra encostou a porta da sala, para que ninguém ouvisse a confidência.
    - O Stôr é que podia escrever para nós, enviava-nos por email...

    E assim caiu por terra a minha ideia de continuar a escrever livros para adultos - mais 6 romances até 2047. Não que os adultos o desmereçam, mas é tentar agradar ao crente na Nossa Senhora de Fátima com correntes de existencialismo.

    E assim, cumprirei a promessa a Sophia.


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    1. Prezado Sérgio:
      .1 - Ora lá está:
      - Os livros do Harry P. , que não li ainda mas cujos filmes vi e gostei bastante, creio que cabem na minha consideração sobre o número de páginas! São grossos, extensos, apesar de teóricamente destinados a quem lê curto e não se concentra, desmentem por completo essa tendência ou teoria.
      Também se enquadram naquilo em que depois penso: o assunto! O tema, e o desenrolar da história, que se revela apaixonante? Também lá estão os personagens que cativam o leitor!

      .2 Vai-me desculpar a eventual impertinência ou a garantida ignorância, mas, o que prometeu a Sophia?

      Saudações curiosas cá da Cidade Morena.

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    2. Companheiro António,
      a promessa de semear sonhos e sorrisos na mente dos pequeninos, a promessa de fazer germinar a centelha indivisa, a promessa de escrever como se fosse um deles.

      Um abraço fraterno para a Vila Morena.

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    3. Grato pela sua atenção, e que nobre promessa!

      Saudações de Benguela, Cidade Morena!

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  7. Os livros fazem bem às pessoas, e o medo de que se deixe os ler deverá ser o medo de que as pessoas deixem de beneficiar com o bem que está implícito quando se fala na leitura de livros.

    Considero um tanto redutor dizer que "o" smartphone é, nesta matéria, a ameaça. Tornará mais expedita a sinalização da existência de um problema mas amputa o assunto da sua (necessária) complexidade. A montante do smartphone está a mente que decide optar por ele. Essa mente ou não se consegue disciplinar para o preterir, ou não encontra, de facto, valor acrescentado numa insistência/persistência no livro em detrimento de alternativas mais digitais e visualmente dinâmicas etc.

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    1. Bem observado, Caríssimo Marcelo, se me permite o tratamento.
      Lá está: a mente! É a mente, o espírito, o cérebro e pelo menos parte da alma (consta que o resto dela estará no coração...).

      Saudações cá da Cidade Morena!

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  8. Nunca estive tão convencida de que vivemos tempos de morte ao livro. É assustador e bem mais real do que imaginamos...

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    1. Não partilho do seu pessimismo nem temor... veja-se os escaparates das livrarias e supermercados: cada vez há mais!
      Agora, se temer o fim da boa escrita dos grandes autores... Aí sim, junto-me a si nas preocupações.

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  9. Um dos maiores desafios para um jovem no século XXI é encontrar alguém com quem partilhar interesses literários.
    A nossa geração vive a um ritmo estranhamente acelerado, em que tudo é descartável e nada merece a atenção, tempo ou paciência devidas. O que é grande, aborrece, e a maioria fica-se pelos títulos das notícias ''facebookianas'', tantas vezes falaciosas...
    Curioso será dizer que o meu interesse pela literatura surgiu já tarde, aos vinte e poucos anos, precisamente por não poder aceder ao meu smartphone.
    Descobri então, aquilo que hoje considero uma das minhas grandes paixões, a leitura. Deparo-me, contudo, com uma caminhada só e por vezes difícil, tanto pela escassez de crítica literária (que dificulta as minhas aquisições), como pelos preços exorbitantes da grande parte dos livros.
    Ainda assim, não posso deixar de mencionar que quase todos os jovens, colegas e amigos, com que partilho este meu hobby, admitem que adoravam conseguir ler. Há por isso uma certa consciência de que a leitura é benéfica, mesmo nas camadas mais jovens. Falta é a motivação e a divulgação de conteúdos literários de qualidade (eh pah, isto é relativo).
    Pessoalmente, devo muitíssimo a este blog, que já me deu a conhecer grandes tesouros literários e que fez crescer esta (ainda recente) paixão.

    Obrigada :)

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  10. Não, o livro não irá morrer... a forma, sim, não o conteúdo!

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