Cemitérios
Na passagem da lista maior para a lista mais pequena (a dos seis finalistas) do Man Booker Prize, caiu curiosamente o livro de Arundhati Roy, O Ministério da Felicidade Suprema (ASA), candidato vinte anos depois de o seu antecessor, o romance-maravilha O Deus das Pequenas Coisas, ter ganho o galardão. O segundo romance da escritora indiana (pelo meio, ela escreveu muitos artigos e ensaios, mas não ficção) é um livro menos susceptível de reunir o consenso dos leitores, embora nele se mantenha esse estilo único da senhora Roy e o desenho de algumas personagens que dificilmente esqueceremos, como a hermafrodita Anjum ou a bela Tilo (que li algures ser uma espécie de alter ego da autora). Existindo muitas mais personagens neste livro do que no anterior, a verdade é que a profusão de nomes indianos (que não descortinamos imediatamente pertencerem a homens ou mulheres) emperra um pouco a leitura; e, se por um lado parece necessário ter já algumas noções sobre a questão de Caxemira para compreender o verdadeiro alcance desta história, por outro lado, aqui e ali também sentimos que existe uma certa pedagogia que torna o enredo um pouco menos fluido. Mesmo assim, ele deve ser lido, até porque tem algumas ideias belíssimas, como a da Casa de Hóspedes construída à roda das lápides de um cemitério num país onde, por acaso, os hindus não enterram os mortos. Também é num cemitério que decorre o polifónico romance de George Saunders, Lincoln no Bardo (Relógio d’Água), onde Abraham Lincoln passa uma noite junto ao túmulo do filho, morto uns dias antes. O autor – até aqui só de contos – foi sobejamente elogiado por esta obra, entre outros, por Zadie Smith, Jonathan Franzen e Thomas Pynchon. E o livro – esse – continua na short list do Man Booker. Os cemitérios estão na moda em literatura.
Os elogios de Zadie Smith, de Jonathan Franzen e de Thomas Pinchon não me dizem absolutamente nada.
ResponderEliminarOs dois primeiros estão permanentemente a elogiar colegas, que obviamente não deixarão de retribuir a crítica sempre muito positiva. Uma mão lava a outra e assim se vendem livros.
The Guardian tem um artigo sobre este assunto há pouco tempo.
O Man Booker Prize não têm qualquer interesse para mim. Sei que o tem para muitos.
Confesso que o Man Booker já me interessou mais, e que graças a ele descobri grandes autores.
ResponderEliminarNo entanto, continuo a sentir alguma curiosidade e até já fui espreitar a shortlist - só li o Autumn da Ali Smith, mas como já ganhou uma vez é pouco provável que repita o prémio.
:-) Antonieta
Além do "Cemitério de Praga" do Humberto Eco há diversas ficções sobre o mais famoso cemitério de Paris, o Pére Lachaise (que visitei quatro vezes, duas em visita guiada e duas a solo).Talvez me habilite a ler o segundo livro indicado dado que tenho alguma fascinação por cemitérios. Além do Lachaise visitei também o de Monparnasse. o de Monmartre. e outro de que não lembro o nome mas onde está sepultado André Breton.Em todos eles repousam os grandes vultos da Literatura, da Música, da Política, da Arte etc. e que não devemos esquecer.
ResponderEliminarRecomendo a visita do Cemitério dos Prazeres, Talhão dos Artistas.
EliminarNa próxima visita guiada lá irei!
EliminarHá entre muitas outras coisas , ou lugares , duas que nada me dizem:
ResponderEliminar1ª Cemitérios.
2ª Prémios literários! Gostaria de ganhar um? Sem dúvida... quem não gostaria? Mas não é isso que me leva a ler ou a comprar e por norma ignoro os prémios, já percebi, sinto que são quase sempre jogadas de merchandising ou de política. Raramente prémios-mesmo-de-mérito. Falo dos Grandes Prémios, claro!
Saudações desprendidas cá da Cidade Morena.
Caro Pacheco, e sente tudo isso sem ler os livros?
EliminarÉ assim uma espécie de "Feeling"?
Se quase nunca lê os livros premiados como pode ser tão categórico quanto ao valor literário dos mesmos?
Deve ser defeito meu, mas não compreendo...
:-) Antonieta
Não foi o que eu disse!
EliminarEu disse que não pesa na avaliação que faço como opção de compra ou de leitura, tipo:
Olha, ganhou o prémio Robsang Lampa! Vou comprar!
A minha avaliação é feita em primeiro lugar pelo tema, felizmente tenho uma larga gama de interesses, pelo que compro e leio muita coisa. Depois por uma breve consulta quer à sinopse quer ao próprio livro (se conseguir)...
A crítica e os prémios são-me quase que irrelevantes na análise.
A Antonieta compra um livro porque ganhou o prémio Angústias&Suspiros da Academia da Ansiedade? Enfim, são critérios...
Sim, estou a brincar é claro... sei que não foi isso que disse, também!
Bom dia:
ResponderEliminarTentei ler, há muitos anos, O Deus Das Pequenas Coisas e desisti. Quem sabe, um dia destes tente de novo.
Quanto a Lincoln no Bardo, aguarda o seu dia, na prateleira...
Viajava um dia pela Estónia e ao passar por Pärnu apontaram-me um cemitério. Era um bosque denso e muito belo - naquelas latitudes as florestas são grandes e bonitas - e tinha, dispersas entre as árvores, as sepulturas. Continuava a ser um sítio de árvores, um lugar de deuses da floresta a que dantes prestavam culto. Utilizavam-no para enterrar pessoas mortas.
ResponderEliminarÉ provavelmente uma persistência das crenças pagãs que ali perduraram até ao século XIII, na última área da Europa que foi submetida ao cristianismo.
Deixou-me uma impressão indelével, aquele cemitério.
Tenha a impressão que na Suécia se passa exatamente o mesmo (vivi lá alguns anos). Os cemitérios deles não têm nada a ver com os nossos. Será consequência da religião? São autênticos "prados do repouso", curiosamente o nome de um cemitério do Porto se não me engano.
EliminarÉ curioso que eu tinha idéia de que os nórdicos, queimavam os seus mortos... ou talvez só os vikings fossem queimados?
EliminarOs nossos antepassados lusitanos também não enterravam ... parece que queimavam os mortos e aos guerreiros, deixavam-nos aos abutres, que consideravam aves sagradas!
O enterro suponho que seja coisa Cristã, judaica...
Na Escandinávia os cemitérios são prados.
EliminarNão se queima ninguém!
Caro Pacheco, os nórdicos (povos germânicos, em geral) converteram-se ao Cristianismo durante a Idade Média. Aliás, foram os Suevos e os Visigodos que trouxeram a religião de Cristo aqui para o nosso cantinho à beira-mar plantado.
EliminarP.S. Salvo erro, a arquidiocese de Braga foi uma criação sueva.
EliminarEu não disse que se queimam! Disse que tinha a idéia de que se queimavam... falei no passado!
EliminarAliás será o futuro, acredito... os cemitérios estão cheios e os terrenos ficam inutilizáveis, além de que perdem a capacidade de decompor ... a cremação.
Sim Cristina, eu sei disso! Mas a minha dúvida era para o costume antigo e não actual, e quando falei de nórdicos referia-me a escandinavos e não aos povos germânicos.
EliminarIsto das cerimónias fúnebres, é em si, um tópico de conversa Extraordinário e certamente que tem gerado muito romance!
Os nossos antepassados primitivos enterraram os mortos... entre outras razões para não atraírem predadores, depois começaram a usar-se outros meios, queimá-los creio que é o mais transversal costume, ou será o sepultamento/enterramento?
Isto daria pano para mangas! Ou, se quiserem, páginas para livros...
Muitos dos chamados povos germânicos vieram da Escandinávia. Deslocaram-se para sul à procura de melhores condições (com este sul refiro-me ao atual território alemão).
EliminarQueimar ou sepultar... Não sei qual o costume mais frequente na História da Humanidade, mas apostava no sepultar.
Ups! Sou eu o anónimo.
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ResponderEliminarOs mortos tem uma particularidade simpática.
É que são surdos.
Pelo menos era isso que me dizia aquela troupe de míudos que gostava de usar as largas avenidas do cemitério dos Prazeres para as corridas de carros de rolamentos. Num tempo em que estas se assumiam como o maior desafio tecnológico desde a ida do homem à lua.
Gostei muito do Ministério da Felicidade suprema. Acho até que já o comentei aqui, porque tive a necessidade de ouvir qualquer coisa que não fosse um encolher de ombros, seguido dum " É a Índia ".
Tenho muita dificuldade em comentar livros, parece-me sempre injusto e poucochinho.
Imagino sempre a figura do escritor, rodeado de livros, folhas, i-pads, computadores, uma janela aberta e o tempo a escoar-se por ela enquanto as palavras pousam no ecrã.
O que sei eu de Cachemira?
No entanto, mais que a denúncia de um conflito sangrento, é uma " selfie" da condição humana.
"... independentemente das razões que tinham feito desse prisioneiro um prisioneiro, e do carcereiro um carcereiro."
- Leva-me a pensar que talvez todos nós, sejamos e apenas, habitantes temporários de determinados papéis.
E quantas vidas terá um escritor?
Sim, porque alguns escrevem de dentro de outras vidas que não são as deles e no entanto são tão intimamente habitadas, por esses que lhes dão o verbo.
"... Se quiser, pode mudar cada centímetro de mim. Sou apenas uma história."
Puck
Por acaso, eu interesso-me por cemitérios, principalmente, por aqueles, abundantes na Alemanha, que parecem autênticos parques, no meio de árvores e arbustos e onde as campas não estão todas umas em cima umas das outras. Na cidade onde vivo, há um bastante grande, onde costumo ir passear com a Lucy (desde que os cães vão na trela e os donos tratem de recolher os seus dejetos, não há problema). Mas o interesse não tem só a ver com o local frondoso, agradável principalmente no Verão. Enquanto a Lucy fareja sabe-se lá o quê, leio as lápides e ponho-me a imaginar como terá sido a vida dessas pessoas, nomeadamente, quando morreram cedo e quando há alusão a um suicídio. Há uma lápide, no dito cemitério, muito sugestiva, na campa de uma moça que morreu com apenas 25 anos e cujo (presumo eu) namorado mandou gravar: "eu não tencionava deixar-te". Também acho interessante verificar como há muitos casais idosos (normalmente, com mais de oitenta anos), em que os dois morrem no espaço de poucos meses, por vezes, poucas semanas. Outro caso que me ocupa é o de uma família - casal novo e filha de oito anos - mortos todos no mesmo dia.
ResponderEliminarEnfim, pode-se escrever um romance (ou vários), imaginando a vida dessas pessoas.
O da chama eterna, aquele que termina na ponte da trindade: o Campo de Marte diante do Neva.
ResponderEliminarJá chegamos ao Halloween????
EliminarNão aprecio cemitérios, mas reconheço que são mais agradáveis aos vivos se existem sob a forma de espaços verdes e frondosos. Gostei de ler O ministério da felicidade suprema. Um livro triste e eu diria mesmo que desiludido sobre a realidade e o mundo humano em geral. Que não suplanta O deus das pequenas coisas. Mas tem personagens de delírio com sentimentos e emoções muito reais. É como se a mente da autora tenha endurecido. A maleabilidade que no primeiro livro nos agarra e apela aparece-me ténue no segundo.
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